terça-feira, 3 de junho de 2014

Noites de inverno -infância

"             No mato, em noites de inverno, onde brejos se formavam, cantavam grilos, coaxavam sapos, de todos os lados e de todas as vozes. Alguns, os sapos-cururus invadiam os terreiros e por vezes se aventuravam em casa, olhos esbugalhados, o papo bojudo e flácido enchendo e secando como fole, dizia-se até que o seu mijo podia cegar. E dos pássaros noturnos, o medo, medo quando se ouvia o cantar solitário de uma coruja, medo do seu vôo rasgando mortalha; medo das histórias de trancoso, contadas a meia voz - as crianças deitadas em redes que se entrecruzavam, silenciosas, olhos arregalados, cruzando os dedos, e puxando as varandas da rede sobre o corpo, para se protegerem das almas penadas que rastejavam pelo chão. Depois era o sono profundo, embalados pela chuva varando a madrugada, até que o despertar das vacas nos currais, precedido pelo cheiro de café vindo da cozinha, nos acordava para um novo dia."

Do livro " Camisa nova, seu doutor?" de José Bitu Moreno

Nenhum comentário:

Postar um comentário