"Pela estrada Rosa Luxemburg faço parte do cordão de luzes: cordão que vai para Bad Homburg, cordões que se cruzam até Frankfurt. Enquanto aguardo no semáforo, vejo fila interminável de carros.
- Como cabem tantos?- Quantos caminhos levam a Frankfurt?
- Quantos cordões se entrecruzam na Alemanha, como emaranhado de vasos sanguíneos?
Em pouco deixo a Rosa Luxemburg e recebo permissão para entrar noutro cordão, destino: Nordwest Krankenhaus, hospital, onde devo chegar ainda para a primeira cirurgia da manhã. O carro é um Opell 1995 vermelho. Pela frente vejo agora no máximo três ou quatro carros, para trás também, tenho a impressão que somos apenas nós, a pequena comunidade de carros que nosso campo de visão alcança...Como os guetos nas metrópoles, o naco de pessoas que se organizam em nós de uma corda linear, onde não se enxerga início e fim, onde se tem a ilusão de liberdade e individualidade. Um indivíduo, mas só até onde a vida alcança, ou engana(-se), perdido na paisagem adulterada e pré-fabricada.
Entre Marília e Assis, nesse momento, deve ser assim também, carros avançando pela estrada Wahdir Farid, passando a Serra dos Gaviões, depois os vales verdejantes até a outra serra, onde a pequena Echaporã se equilibra. Assis se encontra ao final de ondulante reta, como a coluna vertebral, por onde os cordões de carros são a medula, elétrica, ferida aberta, nervos que intercomunicam o mundo em um só.
Cordões de fogo da Alemanha, estradas de Marília, vales que conduzem a Assis, maquinaria que governa o mundo, me respondam o que somente e a bem da verdade me angustia: onde encontrar o contentamento que tanto se procura?"
José Bitu Moreno
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