Um brinde aos amigos da noite
avançada, do avesso, do errado
Amigos do riso, da ilusão, do palco e
do picadeiro, da dor e do desespero
Amigos do passado humilde, da
modesta escola, dos pés descalços, dos tristes Natais, das noites de frio
e das dificuldades,
Amigos que jamais se enquadram,
que chutam o tapete e desprezam
etiquetas
Que também construíram, venceram
como se diz, mas não frequentam
igreja, não rezam,
nem tomam chá com bolachas ao
cair da tarde
Um brinde aos amigos calejados,
vitoriosos, fracassados, de
tanta luta marcados - cicatrizes,
traumas, dores-fantasma
Que afrontam e dominam, mas com
o tempo desistem, do
demasiado sol, da ordenada vida; ou por sabedoria dão um basta ao exagero, ao dinheiro e à avareza...
A vocês, meus amigos, ao velho boteco do Sato que nos agrupa, aos
poetas, aos pubs, aos bares - um
brinde, um
forte e afetuoso abraço
terça-feira, 22 de julho de 2014
na rampa do Pronto Socorro
Na rampa de acesso ao Hospital de
Clínicas, onde outrora os formandos
se reuniam para a foto de despedida,
hoje corre um rio de lágrimas
sábado, 19 de julho de 2014
na sala de espera do Pronto Socorro
Na sala de espera, um tumulto: a senhora idosa, aos prantos, se debruça sobre o companheiro que convulsiona no chão do Pronto Socorro.
A jovem ao lado grita pedindo ajuda; outros se levantam e se aproximam curiosos; com pouco chega a maca onde é colocado o corpo que ainda se agita em convulsões.
A senhora, apavorada, corre ao lado da maca, tentando limpar a calça úmida de urina e fezes do esposo.
Na entrada da sala de emergência, ela é contida, enquanto a maca segue e desaparece entre os aventais do médico e de um cordão de estudantes.
Depois de algum tempo vem o residente e lhe pergunta, a história do paciente: queixa atual, doenças do passado, remédios ...ela responde, enumera, recorda, completa:
-É grave, doutor? Vai ficar bom? Sabe, doutor, ele não é assim como agora aparenta - sempre foi limpo, asseado. Um pai de família responsável e cumpridor dos deveres.
Ela estava muito assustada, nunca o viu assim, tão velho e frágil; mas enquanto falava, buscando nas lembranças os fatos, era o outro que teimava em lhe aparecer - o jovem que conheceu e que tanto amou; o marido hígido e atencioso. A vontade era gritar:
-Gente, enfermeiros, doutor, meu marido não é somente esse corpo doente...é uma história, uma vida construída, vocês não o conheceram? Não enxergam os traços do jovem que foi?
O estudante assente com a cabeça, parece impaciente e dá uma resposta evasiva à pergunta. Na verdade não a ouve, preocupado que está em voltar com as informações.
A cansada senhora percebe, desiste, e passa a dialogar consigo mesma.
no plantão do Pronto Socorro
A doutora falou, do corredor escuro alguém gritou - havia um paciente morto!
De maca em maca, tocando os corpos, procurou o defunto.
Assim, pelo tato, chegaria ao corpo frio - sem mais calor, sem vida.
Um após outro, descartando, já se sentia até feliz: ninguém morrera, como anunciado.
Enquanto assim procedia lembrou do que falara um estudante:
-Doutora, isso aqui parece o purgatório, das tantas mãos que se erguem das macas
das sombras, suplicantes, enquanto passamos.
Mas eis que ao toque percebe o frio da morte, estático, imóvel, inconfundível...era verdade
A vida se fora, assim anônima, sem luz, sem cerimônias
Na solidão do Pronto Socorro lotado
De maca em maca, tocando os corpos, procurou o defunto.
Assim, pelo tato, chegaria ao corpo frio - sem mais calor, sem vida.
Um após outro, descartando, já se sentia até feliz: ninguém morrera, como anunciado.
Enquanto assim procedia lembrou do que falara um estudante:
-Doutora, isso aqui parece o purgatório, das tantas mãos que se erguem das macas
das sombras, suplicantes, enquanto passamos.
Mas eis que ao toque percebe o frio da morte, estático, imóvel, inconfundível...era verdade
A vida se fora, assim anônima, sem luz, sem cerimônias
Na solidão do Pronto Socorro lotado
totalitarismo
nos corredores mal iluminados, o medo é endêmico, roliço, gosmento
se esconde por detrás das portas, nas fechaduras escuras, nas enfermarias, na ferrugem da máquina a vapor da lavanderia
nas paredes amarelas da instituição onde trabalho, o medo se emplastra, se hospeda, bactéria, vírus, no ar, no peito, na luz
tão concreto que se ergue como muros e aprisiona
tão contagiante que a todos adoece e aos poucos mata
sexta-feira, 18 de julho de 2014
na igrejinha de São Francisco
Para onde apontas, meu santinho
Quem és, quem fostes tanto
Que impresso ficastes no tempo
No tecido dos séculos?
Por que te postas assim
Tão bondoso, tão ingênuo
Emanando essa luz que
Nos faz tão bem?
Em volta pessoas se ajoelham
Se confessam, choram...
Por que meu santinho
Por que oram em voz surrada
Por que depois ficam em paz
Assim: do nada, sem que se saiba?
Ah, meu santinho milagreiro
Aqui me ajoelho e reverencio
Peço a tua benção
Rogo a tua guia
pronto socorro 5
Pelos corredores do hospital de ensino...becos, labirintos, paredes sujas, descascadas, janelas enferrujadas, emperradas;
Passando a visita cruzo, quase esbarro, com estudantes, residentes, auxiliares de enfermagem, funcionários da limpeza...a fábrica.
Nas enfermarias, os pacientes - em quartos inapropriados e mal ventilados; em camas desconfortáveis, com colchões duros e quentes, revestidos de plástico;
Das janelas pendem lençóis brancos, encardidos, feito cortinas, ondulando como bandeiras...bandeiras do destino posto.
No Pronto Socorro...a fileira interminável de macas preenchendo o corredor...Josés, Marias, Conceição, Edivaldo, Moisés...corpos enfileirados, com os nomes pendendo de papéis afixados nas paredes, nas macas...apenas nomes...impessoais, anônimos, marginais...vidas sofridas, silenciosas...vidas que fenecem;
O que fazer ?
O sofrimento, a morte, se automatiza, se banaliza...o que fazer?
Um paredão veda as saídas, um paredão que se foi construindo...de ignorância, insensibilidade, incompetência, irresponsabilidade...um paredão construído sob os nossos olhos plácidos, egoístas e coniventes;
Um paredão que nos prende e nos narcotiza e nos deixa presos.
Não foi com isso que sonhei, que sonhamos; não foi para isso que preparei a vida, que preparamos; não é nesse lodo que quero enterrar o futuro, o nosso; não é assim que se deve cuidar de vidas...mas por que continuamos?
Por que? Por que continuamos nessa prisão?
Presos no sistema que ajudamos a construir; presos na maquinaria que nos emplastifica; máquina sequiosa que vai ceifando ideais, esperanças, daqueles que chegam, dos que já se vão...
Para além dos muros uma estrada linear que não se vê o fim: instituição, municípios, regiões, estado, governo federal...Meu Deus, meu bom Deus, não tem fim...
Não tem fim mesmo??????????????????????????????????????
José Bitu Moreno
quinta-feira, 17 de julho de 2014
pronto socorro 4
Ana Maria, Dorival, Benedita, corpos deitados, rendidos;
Matheus, Terezinha, Dona Santa
em macas sequenciais, enfileiradas.
Com esparadrapo pregado na parede suja o alerta:
"Aqui o remédio também é o silêncio."
Na área restrita, leito quarenta e dois;
senhor José Teodoro,
maca colada à parede de remendos;
bruta e vertical - como uma sentença
tango no Almacen Viejo
No almacen viejo
como pássaros
como penas ao vento
corpos compactos em
improvável vôo
pouso gracioso, máquina
músculos emoldurados
anulando a gravidade
em terra, o embate
busca apaixonada
ternura desesperada
dança forte, intensa, passional
coito, cio, traição, encanto
embriaguez, reencontro
pernas que se cruzam
olhos se buscando
corpos febris
a musica porejando, comandando,
paixão,ardor,arte, sedução
tango
na cidade dos mortos
Na cidade dos mortos, tomamos a rua das gardênias:
a história da mãe que velou vida em fora a morte de Pedro, recém-nascido, de apenas um mês de vida;
e que depois chorou a morte do outro, o jovem Ely, na flor dos vinte e três anos.
Das Gardênias passamos à rua dos Lírios até o lote nove de Anna, Emílio e Mingo;
No céu, no horizonte, coroando o vaso de flores sobre a branca lápide, em perspectiva: primeiro Netuno, depois Urano - nenhuma nuvem que nos separasse.
Ajoelhados, rezamos ao divino, fizemos oferenda, deixamos alimento aos espíritos e depois procedemos adiante a visita.
Pelo caminho, gerações sucedidas em urnas sobrepostas, casas, vilas, sobrados - o mausoléu dos doze
por doze defuntos habitado;
Quando enfim chegamos ao destino: a morada de Aurélio e Odete, que ensaiaram em vida um romance - casaram, tiveram filhos e morreram,
cada em sua vez,
cada em sua tristeza,
sozinhos,
com Deus.
o mestre amigo
Heladio, o alegre, o tagarela...
o encontrei num corpo envelhecido, enrijecido, que desconheci;
o encontrei com o espírito ainda aceso, a chama tremulando, pelo vento batida;
em pouco estará no vento, no mar, nas montanhas, de onde um dia veio e tornará -
Heladio, o mestre amigo.
jovem mulher
Está se tornando mulher, a minha pequena, e se distancia;
Imersa em si, no outro mundo que descortina, passa por mim e não me enxerga;
Tem outra velocidade, está noutra esfera, habita para onde os hormônios eleva;
Passa por mim, a pequena, e eu sei-quebrou o casulo, rompeu o fio, sua impaciência não mais permite a minha cadência.
Está em outra e eu percebo -
devo me afastar e lhe dar espaço, devo engolir o soluço do passado ,
ficar na última fileira, meio que na sombra;
E assistir o triunfo da borboleta que nasce, o milagre da vida pulsando a mil, o frescor da jovem mulher em seu extremo de explosiva beleza.
sábado, 5 de julho de 2014
visita no Pronto Socorro
Pelo corredor do Pronto Socorro,
passo com os residentes procurando um paciente.
Hoje são: Luís, Edson, Egídia...os nomes escritos a mão com pincel azul em folha A4, pregadas com fita adesiva nas bordas enferrujadas das macas enfileiradas...
Tantos !
Cheiro adocicado, nauseante, de sangue...mais adiante odor de corpos mal asseados, suados, febris...
Encontramos o seu Humberto, conversamos, examinamos, prescrevemos - está esperando um leito para ser internado
Depois saímos para a enfermaria, como um bando em revoada, com vontade mesmo de sair de lá
José Bitu Moreno
vida,morte,cosmo
Netuno se escondia por trás do céu de cândido azul.
Cego para esse mundo de tantos mistérios e possibilidades,
não o enxerguei na terça-feira, dia de finados;
enquanto caminhava por entre lápides.
Netuno azul
navegando no cosmo de muitas estrelas
também não me enxergou
José Bitu Moreno
despedida da infância
Sentei no meio-fio da rua de pedras e chorei.
Era noite de São João, as calçadas estavam cheias de transeuntes; as ruas, fechadas ao trânsito de carros e de animais, era margeada por pequenas barracas coloridas que se espremiam umas.de encontro às outras.,Era gente por todo lado, adultos, crianças, vozes, risos, música de alto-falantes - cantigas de ritmo alegre mas de conteúdo triste.
Nos intervalos entre as músicas, o radialista transmitia recados apaixonados, mensagens de amor, alinhavando conquistas; enquanto as moças solteiras passeavam de braços dados em volta da praça e os rapazes, sentados nos bancos, as observavam; os casais já compostos, ficavam em volta do parque de diversões, onde a roda-gigante de coloridas lâmpadas, alumiava a noite escura, desafiando as alturas.
Alguém ficou de cócoras ao meu lado e perguntou,preocupado, por que chorava.
Como era tristeza sem corpo, choro de angústia, não havia como explicar e sequer erguí a cabeça para responder, escondida entre os braços cruzados sobre as pernas encolhidas.
Não sei quanto tempo durou, mas para os ditames da alma ficou guardado como algo importante, como um clarão dentre aqueles dias iguais de infância, divididos entre escola e brincadeiras. A razão do pranto, objetivamente, não encontrava, mas uma forte sensação havia de que minha infância findara ou que estava findando, caindo os últimos grãos por entre os dedos e eu, impotente, não mais a conseguia retê-la; por outro lado, era como se o rio caudaloso das tantas fantasias infantis mergulhasse sem volta, engolido pelo buraco negro e definitivo que espreita e margeia a vida. As cores se dissolvendo na noite escura.
Quantos anos eu tinha - nove, dez? - não sei...Mas jamais uma revelação sobre a passagem do tempo ou as perdas ao longo da vida me anulou tanto, me causou impacto tão arrasador.
Ao final, ergueu -se dali um outro e ficou naquele meio-fio, naquela noite escura, a criança.
E assim continuei vida adentro, sempre envelhecendo antes do tempo, antecipando-me ao ritmo dos acontecimentos, vivendo no futuro apenas presumido, engolindo com pressa o presente, sem antes saboreá-lo com calma e prazeirosamente, até o último gole.
José Bitu Moreno
brinquedos de criança 2
Voltando à casa branca, nos seus fundos havia um pé de Marí, de sombra ampla e fresca. Nessa sombra: terra frouxa, areia branca, estradinhas construídas que passavam pontes, miravam precipícios, desciam em ladeiras sinuosas, passavam por cidades de pedras...Carros de caixas de fósforos, cheios de terra, puxados por cordão. Figurinhas de barro, vacas de chifres longos, touros majestosos, bezerros, cavalos puros-sangues, selas com estribos, vaqueiros de chapéus garbosos e gibões, e até mesmo com esporas nas botas. Horas a fio brincávamos enfeitiçados nesse mundo, até que vó branca chamava da cozinha para comer.
José Bitu Moreno
brinquedos de criança
“Hora de comer, Hora do almoço.” Vó branca se esgoelava no esforço de nos encontrar. “-Por onde andam esses meninos?” Andando, correndo pelo algodoal adentro, com cavalos de paus, em torno das cacimbas; ou catando bonecas de longa cabeleleira no milharal em frente; ou cortando o pasto como flechas rumo ao banho no Impueiras, o riacho de margens vermelhas, pontuado por frondoso pé de cajá. Do barro de seu leito moldávamos a boiada, majestosos cavalos, garbosos vaqueiros, de chapéus, esporas e jibão, que deixávamos secando ao sol, o nosso brinquedo de tantas horas.
José Bitu Moreno
sexta-feira, 4 de julho de 2014
jardim da Vó à noite - reino dos tatus-bolas
É noite no jardim da Vó Ju, o reino dos tatus-bolas;
Todos dormem?
Não fora os uivos do lobo faminto, Caco - o papagaio - não abriria tantas vezes os olhos, incomodado.
Mas o que houve? Mingo, o bom fantasma, sabe?
Tampouco Vino e Bóris, os canários, nem Joaquim, o pardal, pois ainda dormem;
A tartaruga Margarita olha os astros e recomeça a sua ronda pelo reino
essa sabe, mas retém o mistério enquanto o vento sacode com força a folhagem da árvore-Vó:
Silêncio!
Pelas alamedas ouve-se agora o ronco estridente de Maríola, a velha feiticeira de cabeleira de cupim;
A seu canto o rei Sorriso, um tatu-bola, também ressona enfeitiçado:
Silêncio!
Alguns pingos de chuva dedilham as pétalas das rosas e a água fria da piscina azul;
Mas a música é suave, pois o pólen que sobe ao luar pode despertar o vô Trovão -
O seu espirro dissiparia a noite, com certeza !
Pronto, aconteceu - um, dois, três espirros
E a chuva engrossa lavando as últimas manchas escuras da noite e descobrindo o dia;
Como se combinado, Caco se acorda de vez e se espreguiça;
Espera o comando de Mingo para que se inicie a cantoria;
E é dado o sinal: Vino, Bóris e Kim se esgoelam anunciando o dia
Acordou-se reino dos tatus-bolas!
O lobo calou e as aranhas Zenilda e Leopoldo iniciam a lida -
Zenilda se equilibrando no céu, Leopoldo construindo fórmulas e esquisitices;
O menino índio, Deco, príncipe do reino, passa a revista matinal;
Vó - árvore, calma e sábia, se refresca ao vento,
Vô- trovão foi passear.
Ávara, a águia de nariz adunco e olhos verdes, penetrantes,
sobrevoava o reino, atrás dos tatus-bolas, para a sua coleção.
Deo, a fada morena, dona de todas as trilhas e de todos os segredos, acompanha de longe o movimento
Enquanto Coriza, rainha lânguida, princesa de vidro, vai tomar café
Não tarda, a Meninhinha, vem recolher o manto de música,que todos os dias cerze, para agasalhar o reino nas noites de frio.
Uma tropa de tatus-bola reclama holofote
Todos a postos
Vamos agradecer por mais um dia!
José Bitu Moreno
na piscina azul da Vó Ju - 1
A piscina azul no quintal da Vovó Ju,
Voz de Vô Valdir tonitroante preenchendo espaços
Jardim de frutas de Manuelita, a tartaruga
Reino encantado de Caco, o papagaio
Canários e casinha de Tio Mingo, a um canto
Lá tem pés de caqui, manjericão e acerola,
Pés de jaboticaba, figo e manga rosa
Que circundam o espaço azul da piscina, protegendo, apurando
Enquanto a folhagem verde-escura se debruça
mirando-se no espelho d’água
De dentro do segredo azul
Nasceu o cortado do céu, o firmamento
que cobre exatamente esse espaço;
De forma que um vira o outro, intermitentes:
ora piscina, ora céu, e vice-versa
Quando flutuamos em um,
o outro aparece direto, sem cortinas;
A piscina pode até mesmo virar mar, de muitas ondas,
Quando chegam em algazarra as crianças
e pulam sem jeito em sua água
Ou pode tornar-se rio, imenso, silencioso,
Correndo por entre árvores, de muitas folhas;
Guardando dos pássaros as cores e o canto;
Sempre atento às ordens de Caco, comandante e
seguindo a rota de Mingo, o almirante
Tio Mingo de tantas rugas, afinou, emagreceu
Como folha que no outono amarelece;
O canário na gaiola, emudeceu, ambos velhos:
Mingo e o canário
se dissolvendo contra a parede do quintal,
se confundindo na cor neutra entre as trepadeiras
Rio, lago, céu, ou mar, ninguém sabe ao certo
Nem mesmo Caco, sequer sabia Preta
A cachorra companheira, que bebia cerveja
Junto ao Vô Valdir, enquanto anoitecia
E Manuelita fechava a cortina do dia
Aquele espaço é um reino de muitas maneiras:
De plantas, bichos, príncipes e princesas;
Tem Cacá, a menininha, André o sapequinha
Júlia e os Joãos (Víctor e Pedro), todos tornados duplos,
Um o adulto que se torna, outro a criança que ficou
José Bitu Moreno
outro momento
Há uma árvore frondosa na estrada, com boa sombra, e agora é hora de descanso. Não o descanso da vida, mas o da rotina, o das participações. Há muito tempo me distanciei de mim mesmo, e de alguma forma venho adiando esse reencontro. No silêncio da sombra, em contato com a natureza, talvez eu me obrigue de vez a me tornar o ser humano que tenho por direito ser, desprovido das redes de mentiras, em que apoiei minha vida.
José Bitu Moreno
banho da alma
A água morna bate no rosto e escorre carinhosa pela face; estendo a cabeça para trás e, com a ajuda das mãos, ela agora envolve os cabelos, infiltra-se na alma, em cada canto; depois desce pelo tórax, pelas costas, acariciando...
A toalha grande, felpuda, macia, me abraça aquecendo - aquele abraço gostoso e repousante.
Pela claraboia raios de sol desenham na parede bege, ouço o canto de pássaros, muitos; conta-se que agora fogem do campo, com pouca comida, e invadem as cidades, bem-vindo sejam: que alegrem esse bairro ainda calmo e enfeitem essas manhãs por sorte ainda pouco invadidas por carros e multidões.
Agora, o perfume que gosto, o protetor solar, minhas coisas dispostas, calça, cueca, camisa; preparo-me para o dia, preparo-me para o sol que nesses dias visita céus de poucas nuvens e nos cumprimenta sem mais cerimônias.
Estou em casa, minha casa; já deixei as crianças na escola, minhas crianças, a esposa há pouco saiu...
Nesses momentos, revendo, penso ser um milagre como criei essa possibilidade, como fui capaz de construir, de ter filhos, uma casa, a toalha que gosto, o sabonete cheiroso à mão, esse quadrado de sol, esse instante de música..
Como aconteceu assim, ao cabo dos anos, nesse meu atropelo de ser e de me tornar?
Agora calço as meias, os sapatos, aqueles que gosto, e assim vou mergulhar no dia, fresco do banho, perfumado e muito agradecido pelo coro de pássaros que me acompanha.
José Bitu Moreno
quinta-feira, 3 de julho de 2014
prisão no paraíso social e econômico
Hoje é quarta-feira e o dia de Natal foi neste ano de 2006 numa segunda-feira. Tenho ficado em casa todos esses dias. Hoje cedo, assim que acordei, fui para o quarto de André e deitei-me com ele. Dormia ainda. Queria muito congelar o instante, reter em minha lembrança aquele corpo quentinho, que crescia a cada dia; aquela vida palpitante, cheia de tanta fantasia.
Tem agora seis anos e se adapta aos poucos a um apartamento e às regras sociais de uma cidade da Europa Central. O apartamento é suficiente para nós, com três quartos, uma sala, dois banheiros e cozinha; mas parece de casca de ovo, pois que dentro nos sentimos vigiados, e cada ato parece limitado pelas amarras das tantas leis sociais.
As crianças não podem correr livremente, gritar, pular, nem chorar alto. Mas que são crianças sem essas formas de expressão? É certo, morávamos em uma casa no Brasil, mas com crianças torna-se necessário que se tolerem alguns decibéis a mais.
A meu ver, essa rigidez - talvez necessária para a ordem - se avizinha bastante a uma afronta à liberdade do homem. A própria sociedade organizada já impõe os seus limites, porém quanto mais se organiza, mais sufocante fica.
O pensamento tem de ser bem pesado e avaliado antes da formulação, para que não resulte em palavras ou atos politicamente incorretos.
O trânsito truncado mas ordenado, o fluxo de pessoas nas calçadas, nas escadas rolantes, nos bondes; o silêncio soturno, noturno, abafando a loucura; a intolerância com as crianças...
Enquanto nas cabeças, nos corações, grassa a solidão.
Uma receita? Um pouco de caos nessa ordem, uma maior ênfase no homem e não nas regras, no controle. A organização dessa forma, congelada, trancafia o homem dentro de sua própria solidão.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
uma criança apenas
Quando André chegou na Alemanha era frio e havia muita neve. Na sua escolinha - o Kindergarten - também era frio. Lá ele se tornou uma criança problema – precisava brincar fora com as outras criancas e ele nao ia; precisava comer na mesa junto com os outros e ele nao comia; precisava se comportar igual às outras cr
Quando André chegou na Alemanha era frio e havia muita neve. Na sua escolinha - o Kindergarten - também era frio.
Lá ele se tornou uma criança problema: precisava brincar fora com as outras crianças e ele não brincava; precisava comer na mesa junto com os outros e ele não comia; precisava se comportar igual às outras crianças, falar baixo, respeitar as regras e ter sobretudo muito respeito às professoras, que não eram tias, mas gigantescas Fraus...e ele...
- Resultado de toda essa pressão?
- André tinha cinco anos incompletos, mas juntamente com outra criança imigrante, polonesa - seu melhor amigo - lhes provocou ira, muita ira: ele as imitava, lhes mostrava a língua; nada comia do que lhe serviam, e teimava em não sair para o frio e a neve. Um dia se recusou a fazer xixi frente a uma rigorosa Frau e terminou fazendo nas calças.
- Ele é apenas uma criança numa terra e situação completamente estranhas. Nao deve ser fácil para ele: não vai brincar com os outros porque faz frio lá fora, faz muito frio e isso não existia no Brasil. Não come aqui, porque é diverso o tempero das comidas, muito diverso. Ele lhe imita porque é a sua forma atual de se expressar, de contestar, ademais ele desconhece a língua. Como educadora, devia entendê-lo e ter mais paciência. Talvez nesse instante devesse receber uma atençao mais individualizada – expliquei para uma das Fraus, profundamente ressentida e atingida pelos desrespeito e indiferença do meu filho.
E assim foram passando os dias e as semanas. Uma ocasião de uma festa na escolinha, na primavera, ele me levou ao jardim - aquele muito frio, da neve - e me mostrou uma pequena árvore de densa folhagem, cujos galhos se arrastavam no chão. A árvore ficava junto a uma cerca viva, fazendo divisa com uma casa de idosos. Esse limite, as crianças nao podiam ultrapassá-lo, mas André o ultrapassava e era castigado por isso, na cadeira do castigo.
- Papai, venha ver, esse é o meu esconderijo, aqui onde venho me esconder para chorar....
(Ah, aquele formidável guerreiro, cujas lágrimas escondia, mas que não cedia. Aquela pequena criança, encolhida, no frio, chorando, por falta de compreensao...numa pré-escola)
Veio a copa do mundo de futebol, era 2006 e foi na Alemanha. André em revide saía a gritar nos corredores:
-Alemanha: Buh - quando ela perdeu.
- Mas pai, quando o Brasil perdeu ele ficaram me gozando - me explicou quando eu lhe repreendi.
Eu acompanhava aquela luta desigual e aplaudia - lógico que às vezes em silêncio - cada atitude dele, que defendia-se como podia.
(Ah meu caro André, quantas vezes naqueles dias invejei a sua força e auto-confiança. Quanto orgulho sentia daquele pequeno ser se impondo e já pontuando num mundo tao desigual!)
- Nao, impossível, é meu filho e o conheço, é carinhoso e amável; nao deve ter lhe xingado em português, estava apenas com raiva e tentou lhe exprimir isso - eu retruquei à incompreensão da professora.
Passaram-se dez meses. André aprendeu e falava alemão com desenvoltura. No Kindergarten se destacou por sua amabilidade, disponibilidade, alegria e carinho pelas crianças menores. As Fraus lhe queriam muito e lhe respeitavam muito também.ianças, falar baixo, respeitar as regras e ter sobretudo muito respeito pelas professoras, que nao eram tias, mas gigantescas Fraus...e ele...
- Resultado de toda essa pressão?
- André lhes provocou ira, muita ira: ele as imitava, lhes mostrava a lingua; nada comia do que lhe serviam, e teimava em não sair para o frio e a neve. Um dia se recusou a fazer xixi frente a uma rigorosa Frau e terminou fazendo nas calças.
- Ele é apenas uma criança numa terra e situação completamente estranhas. Nao deve ser fácil para ele: não vai brincar com os outros porque faz frio lá fora, faz muito frio e isso não existia no Brasil. Não come aqui, porque é diverso o tempero das comidas, muito diverso. Ele lhe imita porque é a sua forma atual de se expressar, de contestar, ademais ele desconhece a língua. Como educadora, devia entendê-lo e ter mais paciência. Talvez nesse instante devesse receber uma atençao mais individualizada – expliquei para uma das Fraus, profundamente ressentida e atingida pelos desrespeito e indiferença do meu filho.
E assim foram passando os dias e as semanas. Uma ocasião de uma festa na escolinha, na primavera, ele me levou ao jardim - aquele muito frio, da neve - e me mostrou uma pequena árvore de densa folhagem, cujos galhos se arrastavam no chão. A árvore ficava junto a uma cerca viva, fazendo divisa com uma casa de idosos. Esse limite, as crianças nao podiam ultrapassá-lo, mas André o ultrapassava e era castigado por isso, na cadeira do castigo.
- Papai, venha ver, esse é o meu esconderijo, aqui onde venho me esconder para chorar....
(Ah, aquele formidável guerreiro, cujas lágrimas escondia, mas que não cedia. Aquela pequena criança, encolhida, no frio, chorando, por falta de compreensao...numa pré-escola)
Veio a copa do mundo de futebol, era 2006 e foi na Alemanha. André em revide saía a gritar nos corredores:
-Alemanha: Buh - quando ela perdeu.
- Mas pai, quando o Brasil perdeu ele ficaram me gozando - me explicou quando eu lhe repreendi.
Eu acompanhava aquela luta desigual e aplaudia - lógico que às vezes em silêncio - cada atitude dele, que defendia-se como podia.
(Ah meu caro André, quantas vezes naqueles dias invejei a sua força e auto-confiança. Quanto orgulho sentia daquele pequeno ser se impondo e já pontuando num mundo tao desigual!)
- Nao, impossível, é meu filho e o conheço, é carinhoso e amável; nao deve ter lhe xingado em português, estava apenas com raiva e tentou lhe exprimir isso - eu retruquei à incompreensão da professora.
Passaram-se dez meses e André aprendeu o alemão e falava com desenvoltura. No Kindergarten se destacava por sua amabilidade, disponibilidade, alegria e carinho pelas crianças menores. As Fraus lhe queriam muito e também lhe respeitavam muito.
Nietzsche
A sensação de não sucumbir na universalidade me impeliu para os braços da ciència rigorosa. Depois a nostalgia, de salvar-me da rápida alternância de sentimentos das tendências artísticas no porto da objetividade (J5,250)
(Nietzsche – Biografia de uma tragédia, Rudiger Safranski)
rigor alemão
Percebi que já a cerca de 60 metros ela parecia nervosa e me olhava apreensiva. Parecia incomodada e como que lutava por tomar uma decisão, reação que li nos olhos inquietos, quando já distava de nós uns 20 metros. Era uma mulher jovem, que trajava um comportado conjunto de saia, blusa e jaqueta, do mesmo tom creme, e sapatos pretos de saltos. Eu diria que trabalhava em banco, ou nalguma repartição pública alemã e que estava em pausa do almoço. Quando a nossa aproximação se intensificou mais, e a sua perturbação atingiu níveis insuportáveis, à beira de uma decisão súbita e tempestuosa, afastei-me um pouco para trás das duas crianças, de forma que ficamos em fila, arranjando-lhe um espaço para que passasse - no lado certo da sua mão de tráfego, desde que eu estava desaforadamente na sua linha preferencial. À partir desse exato momento, senti as linhas retesados do seu rosto relaxarem, precipitando até a formação de um sorriso e os olhos se desanuviarem, agradecida que estava pela continuidade da organização espacial do seu dia e relaxada por termos sido tão somente uma ameça projetada que por sorte não se confirmou.
o meu pé de araçá
O pé de araçá ao lado da estrada, havia que pular a cerca para alcançá-lo. Ficava a um canto e por certo fora gigante enquanto eu criança. Brinquei nos seus galhos, chorei e sonhei. Não sei se mais existe....Decerto viveu muitos anos. O pé de araçá que antecipava o milharal, guardou consigo a minha alma de criança.
José Bitu
o cinema
O cinema ficava na mesma rua onde morava, a uns 100 metros, um pouco antes da padaria, a meio-caminho do loja do papai, ou melhor a uma curta distância entre mim e o mundo. Não sei quantas vezes assisti aos filmes de Tarzan e do Velho Oeste, em preto-e-branco. Não lembro de outros filmes passando. Mas o que via, naquele cinema adaptado, era simplesmente maravilhoso.
Vó branca estava em casa, em pouco seria a última refeição, a do entardecer; algum tipo de sopa como de costume e pão, Vó me pediu que fosse à padaria, só que no caminho havia, entre mim e o mundo o acordo tácito, a encruzilhada, após cem metros existia...Tarzan voando pelos cipós entre as árvores, Jane branca e bela, as estripulias da sua macaquinha...Parei frente aos cartazes com cenas do filme. Parei e não resisti, com o dinheiro dos pães comprei o bilhete, sentei-me como um rei numa das filas, a sala quase vazia, depois me esqueci totalmente das horas, perdido numa daquela aventuras estonteantes do rei da selva. Até que as luzes acenderam, o filme terminou, le lá fora já era escuro.
Entrei pelas portas da frente, que como sempre só estavam encostadas, percorri o corredor escuro, até alcançar a sala enluminada e com vozes - o pai já havia chegado; apesar dos meus passos cuidadosos, querendo a custo puxar a escuridão sobre mim, como uma coberta, um dos irmãos me viu e de repente me vi frente a um tribunal. Onde estivera, onde estavam os pães, há tempo me procuravam, estavam todos preocupados...Com voz sumida, agora já com plena idéia da dimensão que tudo havia tomado, contei o sucedido. Em pouco tempo, o pai puxou o seu cinturão das calças e levei uma das surras inesquecíveis de minha vida.Segurava-me com um braço, enquanto me açoitava com o outro, permanecendo em um centro, enquanto eu rodava em círculo. Quanto mais apanhava, mais ficava em silêncio, sem chorar, o que aumentava a raiva do papai e em seguida a força com que batia. Eu não chorei.t
riacho do Machado
E quando chovia por dias seguidos, renasciam como por milagre os riachos. De repente lá estavam: riacho do Machado, riacho do Meio, Mocotó, riacho do Feijão, e da Fortuna... O riacho do Machado era tão somente um esquálido riacho na maior parte do ano, mas se chovia bem, virava valente e escandaloso. Passado o tempo das chuvas, perdia as forças e ia minguando, minguando, pouco a pouco se desnudando, até mostrar de todo e sem recato o seu leito branco...Dava pena vê-lo assim! Vezes sem fim como que perdia de vez as forças e quase morria. Mas de pena e novena era o que menos carecia aquele riacho, bastava que se ouvisse na barra os trovões, ou que chicoteasse os ares um relâmpago, de pronto estava ele lá, de tocaia, retesado e nervoso - era o seu espírito que nunca morria, e que o guardava nos dias de seca, seu rumo e seu prumo, de modo que com as primeiras águas era como um próprio arco que se diparasse em flecha, ou como um machado que se pusesse a limpar como louco as margens, pois passava derrubando arbustos, transportando troncos e tudo que estivesse ao alcance das aguas. Era como um vaqueiro que descesse correndo ate alcançar suas próprias águas, depois seguisse aboiando e enchendo a terra de magia. Enchendo as várzeas, ungia aquelas terras de fartura. O riacho do Machado era igualzinho ao rio Nilo.
José Bitu Moreno
construindo, vivendo
Por que escrevo? A minha história é igual a de tantos outros, brasileiros, que de família humilde, com uma carga extra de esforço e sacrifício, conseguiram uma profissão estável e a possibilidade de dar um futuro também mais estável aos filhos, digo: uma profissão, a autonomia, a liberdade.
O tamanho do pulo é relativo, o significado porém é o mesmo. E em todo esse diverso mundo, as histórias se repetem com diferentes roupagens. Heróis anônimos, encontros, desencontros, fatalidades...alguns finais felizes, mas uma grande maioria soçobrando frente a um destino mais implacável ou imprevisível.
Muitas dessas histórias são enroladas como pergaminhos e guardadas em velhos baús ou gavetas empoeiradas - verdadeiras jóias, tesouros riquíssimos, não percebidos. Sabedoria que morre.
Mas o tesouro e objetivo final é a vida em si. E se vivemos e se podemos contar um pouco de nós, o que é mais uma manifestaçao da vida, como respirar, ou sonhar, por que não contar e dividir a nossa vivência como ora faço?
Divido também a solidão. A alegria. A dor. E nessa divisão, como quando se constrói uma casa, nos irmanamos numa aventura conjunta.
José Bitu Moreno
terça-feira, 1 de julho de 2014
a fuga
O carro já chegou?
A manhã nasceu chuvosa, para o nosso azar. Passamos a noite arrumando a nossa mudança em caixas, que as trouxemos com discrição, uma após outra, ao longo dos dias - do contrário descobririam o plano de mudança, ou de fuga guardadas as circunstâncias. O nosso advogado assim nos aconselhara, nada havia a temer, deveríamos pois agora abandonar de vez aquela casa, cheia de fungos, que alugáramos enganados e a ela ficáramos preso por um contrato mal intencionado.
A noite foi passada em claro, pois nos desfizéramos de muito nos dias anteriores e ficara apenas o mínimo necessário para se viver - nada de móveis, eletrodomésticos ou equipamentos eletrônicos, somente algumas caixas com brinquedos e pertences infantis; além de alguns produtos de extrema necessidade e as malas, que as arrumamos no mais completo silêncio; pois o casal de velhos do apartamento embaixo, os caseiros, nâo podiam nos ouvir.
Assim se foi a noite, eu me ocupei de início da nossa filha, Anna Carolina, de três anos de idade. Deveríamos brincar até que dormisse, mas crianças sentem no ar a energia dessas situações e só à custo e já tarde adormeceu; enquanto a esposa, Ieda, se ocupava das arrumações e dos cuidados para que o apartamento ficasse limpo e em ordem, dos quais logo também me ocupei, até que a manhã nos surpreendeu ainda firmes. De resto foi a espera. Interminável espera.
Na realidade esperávamos que nos deixassem ir em paz e que apenas nos observassem à distância, mesmo porque o nossa batalha era agora judicial.
Súbito o toque da companhia: chegou o Peter, nosso amigo alemão e de residência médica. Chegada a hora: iniciamos rapidamente a descida dos caixotes e das malas, a escada de madeira rangendo sob o peso e a velocidade dos nossos passos, três lances a vencer - depois a liberdade!
Mas antes da liberdade...a chuva se tornou mais forte e houve a chegada súbita do casal de proprietários - gritando, como loucos, a nos ameaçar, que a tal ponto não imaginávamos fossem capazes. Absurdo ato, extremada violência.
Peter se ocupou da nossa Anna, protegendo-a, enquanto continuamos, sem interromper em nenhum instante a nossa lida, sem nos afastamos da nossa meta - objetivo maior do casal, soltando ódio, desfiando impropérios, com um alemão que já não entendíamos, enquanto prosseguíamos firmemente no ir e vir rápido pelas escadas, o carro de passeio já se atulhando de coisas, a chuva caindo impiedosa, a proprietária anotando dados, examinando as caixas, sugerindo a possibilidade de que estivéssemos roubando.
Prontos.
Hora de partirmos - dentro do carro, portas fechadas, vidros erguidos, a nossa filha a um canto assustada, batidas de punho contra a lataria, partida do carro...carro que parte...que partiu...que nos levou para bem longe daquele inferno - o alívio, as lágrimas nos olhos, o espanto pela violência de como tudo se passou, mas a satisfação do combate vencido...o carro seguindo estrada afora - liberdade adentro, rumo a uma outra casa, a um outro começo, cruzando o centro antigo de Freiburg, do outro lado do mundo, para uma outra forma de vida !!!
José Bitu Moreno
na rampa do Pronto Socorro
Na rampa do Pronto Socorro uma velha ambulância para, o motor resfolegando como um animal cansado. Das portas traseiras - que rangem como as de um velho guarda-roupa - um paciente é despejado. É um caminhão adaptado, quente e desconfortável - essas as ambulâncias que transportam vidas entre hospitais do vasto interior do Brasil.
Um conhecido, ao voltar numa dessas ambulâncias após seção de quimioterapia em outra cidade, foi ejetado para fora de carroceira durante um solavanco, e caiu surfando de costas na maca rasteira pelo asfalto abaixo.
Sobreviveu ao acidente e à leucemia.
Sobreviveu às estradas bexiguentas do Brasil, repletas de buracos.
Esses velhos furgões, chamados de ambulâncias, transportam a incompetência e a irresponsabilidade de um lado para outro, tratando os cidadãos como objetos a serem descartados, problemas a serem transferidos, camuflados, despejados.
Gestores públicos do Brasil cumpri com as vossas obrigações de proteger e de cuidar dos cidadãos brasileiros !!!
A urgência e a emergência de cada município, é de vossa responsabilidade. Ao transferi-las de uns para os outros, enchei as nossas estradas de cruzes e de covas rasas!
José Bitu Moreno
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