- “Chica do Rato, Chica do Rato!”
As crianças a seguiam gritando. Ela se virava desfiando um rosário de imprecações. Novo revide das crianças e ela seguia resmungando com a voz rouca, falando consigo mesma, equilibrada em dois ágeis cambitos, vestida em andrajos coloridos, com lantejoulas, brilhos e penduricalhos que ganhasse ou que por acaso achasse. Os braços finos carregavam pulseiras que, pelo tilintar, a antecipavam; do cabelo brotavam laços, tiaras e outros adereços, como uma medusa do bem, estilizada, ou como uma princesa, a princesa das ruas de sol, dos dias de estonteante claridade, dos borrifos brancos de nuvens espalhadas no céu azul.
Seu pai se chamava Abel, a mãe, Maria, Maria de Abel, ambos "doidos varridos". Maria escrevia cartas para Juscelino Kubitschek, cobrando dívidas imaginárias ao erário. Abel tinha um reino, no seu reino existia uma pedra, “A pedra de Clarianã”.
- “Eram malucos ou seres desse outro reino?”
- “Devia o nosso presidente àquele reino?.”
Eles moravam num quartinho, cedido por um senhor caridoso da cidade, no beco de Seu Dirceu, onde um dia Maria de Abel foi encontrada morta, sozinha e abandonada.
- “Que semelhança havia entre as Marias?”
- “A Maria de Bil morreu esquartejada pelo machismo brutal do mundo. A de Abel foi vítima do preconceito e da pobreza, que também tantas mulheres dizimou- escravas da ignorância e sem emprego.”
Tinha mais dois filhos além de Chica: José e Levi. O primeiro normal do juízo e o outro igual a Chica.
- “Chica, Chica do Rato, Chica do Rato.”
Ela seguia em frente, pura alegria e movimento, até entrar em outra casa. As senhoras, que ela chamava de madrinhas, lhe abriam as portas - todas a queriam, aquela louca mansa, alegre. Ela comia aqui, jantava acolá, ganhava de uns sapatos usados e de outros colares de pedras falsas, mas deixava alegria em troca, ou até mesmo a satisfação do outro, ao se comparar com ela, se sentir são.
Ainda hoje está descendo pelas ruas de pedras, vestida como princesa reluzente, puxando um cordão de crianças: -" Chica do céu. Princesa do “Reino de Clarianã”!
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