segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O cordão de mães



Ontem,
uma, duas luzes amigas se apagaram 
na estrada
o riso, o plano, a vida
foram ceifados
- súbito -
interrompidos
por uma carreta
no descuido fatal

-
sem aviso
sem premeditação
o choque
a explosão
-

Era noite, um breu
quando aconteceu
a lua que fazia vigília
não percebeu

-ainda conta as luzes
que se apagam
de tantas
nas estradas?-

O vento que soprava
entre os destroços
fumegantes
sobre as lívidas faces
no sangue 
derramado
no asfalto
coagulado

-gravou o grito de dor
a última fala,
naquela estrada?
e se gravou,
para onde levou?-

Ah, levou para a mãe 
a notícia, na noite
entrou de chofre
sem bater
na câmara do peito
apagando a chama 
que relutou, sem entender
coração de mãe
coração supremo
supremo horror

-como suportar tanta dor
como cabe
e não morre
e não para?

Há um cordão de dor
que suporta o mundo,
que o consola;
um cordão de mães em vigília
em silenciosa prece,
acudindo, confortando
conduzindo 
na solidão do suspiro
último
cada jovem que a violência
apaga, destrói;
cada nova mãe
que recebe a notícia 
na noite escura;

Um cordão de puro amor 
que ressuscita
que garante 
entrementes
o tempo
a seiva, o vale, o sol
a luz, a conformação
a vida e sua 
infinita
continuação

(José Bitu Moreno)