Ontem,
uma, duas luzes amigas se apagaram
na estrada
o riso, o plano, a vida
foram ceifados
- súbito -
interrompidos
por uma carreta
no descuido fatal
-
sem aviso
sem premeditação
o choque
a explosão
-
Era noite, um breu
quando aconteceu
a lua que fazia vigília
não percebeu
-ainda conta as luzes
que se apagam
de tantas
nas estradas?-
O vento que soprava
entre os destroços
fumegantes
sobre as lívidas faces
no sangue
derramado
no asfalto
coagulado
-gravou o grito de dor
a última fala,
naquela estrada?
e se gravou,
para onde levou?-
Ah, levou para a mãe
a notícia, na noite
entrou de chofre
sem bater
na câmara do peito
apagando a chama
que relutou, sem entender
coração de mãe
coração supremo
supremo horror
-como suportar tanta dor
como cabe
e não morre
e não para?
Há um cordão de dor
que suporta o mundo,
que o consola;
um cordão de mães em vigília
em silenciosa prece,
acudindo, confortando
conduzindo
na solidão do suspiro
último
cada jovem que a violência
apaga, destrói;
cada nova mãe
que recebe a notícia
na noite escura;
Um cordão de puro amor
que ressuscita
que garante
entrementes
o tempo
a seiva, o vale, o sol
a luz, a conformação
a vida e sua
infinita
continuação
(José Bitu Moreno)