Do terraço de casa se descortinava a serra Negra. Minha mãe cantarolava a história de um canário da serra, que um dia fora preso numa gaiola, e daí nunca mais cantou, até que morreu de tristeza. A rede balançava-se ao compasso da música. Eu relutava contra o sono, viajava com misto de medo e encanto pelas trilhas e segredos daquela serra tao próxima e ao mesmo tão distante, a serra Negra, a serra dos meus primeiros sonhos...
Serras haviam outras: Charneca, Crioulos... Na Charneca sucedeu que um marido enciumado foi enterrar os pedaços do que foi a sua amada. Matou-lhe inocente, por isso que do chão brotou, no lugar onde a enterrou, uma capela branquinha como se de anjo, como o peito canoro do passarinho que lavava as roupas de Deus. De lá se divisava o vale. De lá, à beira de uma estrada que riscava a serra como se giz, sentava-se por horas a fio Maria, que um dia foi de Bil, mas que agora era de todas as mulheres a simbologia, do sacrifício.
José Bitu Moreno
Nenhum comentário:
Postar um comentário