O impávido anda pelo corredores estreitos do hospital com as asas abertas, o avental branco tremulando, alargando ainda mais o corpanzil e preenchendo todo o espaço -
O pássaro mau, o predador.
Atrás de si uma leva de estudantes atônitos e de residentes submissos e bajuladores, o acompanham em revoada.
Ele procura um púlpito, o professor, o doutor
E avança sempre adiante, sem cumprimentar os demais, os serviçais, até que entra em um dos quartos da enfermaria -
O cego, o curador de páginas, o ignorante especializado.
Os pacientes o assistem chegar, se empoleirar no púlpito, enfunar o peito e vomitar um discurso de palavras difíceis e alheias - fogos de artifício.
O público o pajeia silencioso e reverente, um paciente antigo se diverte com o circo, outro se incomoda, interrompido no meio do curativo
Mas como começou, súbito o número termina - sorrisos e olhares cúmplices o aplaudem
O impávido agradece, abre novamente as asas e sai do quarto refazendo o cortejo peregrino, até que o espetáculo se esgota, um longo suspiro de alívio o carrega e tudo volta ao normal.
Mas em algum momento foi anormal? Alguma rusga modificou, mesmo por acaso, mesmo momentâneo, o infinito fluxo do tempo?
A porta que ainda se balançou ao último que saiu, não guarda lembrança, as janelas que a tudo assistiram, silenciam
Tudo absolutamente normal - somente o funesto catedrático não sabia:
que o mundo dele não carecia, sobremaneira,
e que o dia se arranja graciosamente, sem ele
(José Bitu Moreno)
