sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sobre um certo ignorante especializado - que um dia sumiu



O impávido anda pelo corredores estreitos do hospital com as asas abertas, o avental branco tremulando, alargando ainda mais o corpanzil e preenchendo todo o espaço -
O pássaro mau, o predador.
Atrás de si uma leva de estudantes atônitos e de residentes submissos e bajuladores, o acompanham em revoada. 
Ele procura um púlpito, o professor, o doutor
E avança sempre adiante, sem cumprimentar os demais, os serviçais, até que entra em um dos quartos da enfermaria -
O cego, o curador de páginas, o ignorante especializado.
Os pacientes o assistem chegar, se empoleirar no púlpito, enfunar o peito e  vomitar um discurso de palavras difíceis e alheias - fogos de artifício. 
O público o pajeia silencioso e reverente, um paciente antigo se diverte com o circo, outro se incomoda, interrompido no meio do curativo 
Mas como começou, súbito o número termina - sorrisos e olhares cúmplices o aplaudem
O impávido agradece, abre novamente as asas e sai do quarto refazendo o cortejo peregrino, até que o espetáculo se esgota, um longo suspiro de alívio o carrega e tudo volta ao normal.
Mas em algum momento foi anormal? Alguma rusga modificou, mesmo por acaso, mesmo momentâneo, o infinito fluxo do tempo? 
A porta que ainda se balançou ao último que saiu, não guarda lembrança, as janelas que a tudo assistiram, silenciam
Tudo absolutamente normal - somente o funesto catedrático não sabia:
que o mundo dele não carecia, sobremaneira, 
e que o dia se arranja graciosamente, sem ele

(José Bitu Moreno)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Viagem para dentro de mim mesmo



Durmi numa rede, na sala de visitas, da casa da Vó Branca. Acordei às cinco da manhã. Abri a velha porta de trancas e, do calçadão que circundava a casa, avistei o terreiro que dava para o antigo curral do touro Bisão - ambos já não mais existiam. Mas era como se lá ainda estivessem...o touro branco, lento, paciente, rebolando o lombo de um lado para o outro quando andava, afobado e desajeitado quando cobria uma vaca. Depois alonguei à vista para além do curral, tentando decifrar os contornos do pasto que se impacientava para acordar. Madrugada ainda, o céu estava encoberto por um manto cravejado de estrelas. Lá estavam elas: o Cruzeiro do Sul, a Estrela d’Alva e as Três Marias, as mesmas estrelas da minha infância, que eu as havia perdido. 
“- Deus meu, eu nunca saí daqui”, pensei, enquanto do pé de algaroba do oitão da casa os pássaros desandaram a cantar.
Aos poucos a manhã tingia de luz a madrugada tarda e já dava para vislumbrar o velho pé de Coité que cobria o cacimbão desolado. Faltava o vai-e-vem de mulheres com latas d’água na cabeça transpondo o passadiço, a algazarra das crianças tomando banho de cuia... mas a manhã era a mesma.
“Adeus algarobas floridas, fique firme genipapo da beira da estrada”, despedia-me enquanto o carro subia a ladeira rumo a Fortaleza. Estava no carro o homem, ficava lá o menino, isso me reconfortava, pensei havê-lo perdido, talvez estivesse agora entre as galhas do pé de araçá.
“Chagas abertas, coração ferido, 
 Sangue derramado de Nosso Senhor Jesus Cristo
 Ficai entre nós e o perigo”
Minha mãe, sua irmã Maria e o primo Francisco, rezavam em voz alta, enquanto cortávamos a cidade deixando para trás a lagoa e a igreja de São Raimundo. Já na autovia passaram a rezar terço, os três terços -   Jesus Cristo morreu com 33 anos às três horas da tarde, e assim sua morte ainda era lembrada. 
A reza era acompanhada pelas contas dos rosários e tornou-se autômata, repetitiva, como o canto das galinhas d'angola.
Paus d’Arco floridos alternavam-se na paisagem. Em São Caetâneo mantinha-se firme uma capelinha branca, construída em 1872. Para o Poço do Mato viera uma vez quando criança, numa festa religiosa, em que houvera uma missa e uma procissão que me parecera enorme. 
De Iguatu em diante, o caminho não tinha volta. Destino: Fortaleza.
E a certeza de que a criança que fui ficara na casa da Vó Branca aguardando meu retorno.

(José Bitu Moreno)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A verdade por detrás do véu


A qualquer momento posso feder, meu amigo. 
Veja, por detrás de toda essa impostura, sou suor, excrementos e morte. 
Soa deselegante, eu sei. 
Mas você também é capaz de ver?
Veja essa senhora, ela pouco a pouco se desmancha, se derrete, encolhe. 
Veja ao seu redor, a poeira de células mortas, que dela se desintegra e lhe acompanha, adornando, como véu.
É capaz de ver?
Lembre-se amigo, que do pó viemos e ao pó volveremos.
Lembre-se de Alexandre, o Grande, que outrora foi forte e belo.
Ô fedido imperdenido, baixa a bola, se toca, e rápido, que a vida passa!

(José Bitu Moreno)

Mia, a italiana



E lá se vai Mia, a italiana, limpando,
limpando o chão, limpando as flores, os copos, as unhas, o corpo....
Mia que não se cansa, limpando, limpando...
Mas cuida, Mia, que se encheu de pó a alma.
De pó que não se enxerga, de sujeira que não se esfrega.
Cuida Mia, antes que seja tarde!

(José Bitu Moreno)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O pássaro do riacho Ursel


O Wasseramsel, o delicado pássaro, pousa sobre uma pedra nas margens do riachinho Ursel, que nasce em Feldberg e desce por Oberursel.
No seu percurso é atravessado por várias pequenas pontes de madeira até a prefeitura, onde mais parece enfeite de presépio.
Não muito longe, em Frankfurt o rio Meno, corre lento, moroso, tardo, como o berro de um boi ao final do dia...Mas apesar de largo e turvo, ninguém o escuta e segue assim o seu curso, sempre, como quem reza ou aos poucos morre. 
Bem mais ao sul, nas tardes azuis de Freiburg, o Dreisam desliza entre pedras polidas, seguindo um leito que não parece dele, pois que construído e maquiado, quase perfeito, o pobre rio sem peixes. 
Por assim falar, há ainda quem pesque no Rio do Peixe, o rio que tanto cruzei entre Marília e Paraguaçu Paulista? 
Talvez se encostando o ouvido no chão, se possa ainda ouvi-lo na longa distância. 
Como se nesse início de noite um veio se estendesse em rede entre todos os riachos e rios que conheci, formando uma rede de vida, uma rede de vasos, por meu sangue percorrido. 
Veias do rio Cocó de Fortaleza. Artérias do riacho do Machado. Partes de mim remontadas. Como um jogo. 
Não, eu não sabia antes, que o meu corpo transporia o oceano, juntando e assemelhando águas, montando essa geografia. 
Fui andando, cavucando, da Serra Negra em diante, e acontecimentos, desses que surgem estonteantes, improváveis, foram me definindo estradas, como relâmpagos na noite escura, e deles fui construindo vivências, tornando-me o que sou, essa mistura de águas, rios de cada cidade, somando-se, subtraindo-se, e permutando-se...
Como posso falar de  mim, sem falar dos meus rios? 
E você, que em rede ora se liga, o que pode saber de mim, se não consegue ouvir o pássaro das margens do riacho Ursel? 

(José Bitu Moreno)



Como se chamava a Frau?


Como se chamava a Frau?
De onde veio, qual era sua história?
Teve uma infância feliz ou ainda viveu sob a penúria da guerra? Foi uma bela jovem, decerto. Independente, voluntariosa, destemida e cheia de si. Uma gravata com os seus músculos das coxas, derrubava de gozo qualquer homem. Ah, era intensa, tinha sede, tinha fogo! Quem não se lembra de suas escandalosas gozadas?
Agora está aqui, imóvel, guardada, etiquetada, sob narcose.
Agora está aqui: um outro corpo, velho, esquálido, que uma jovem há muito abandonou. Uma casa velha. Pelo menos assim é tratada:
-A paciente tem câncer de pulmão e a cirurgia é iniciada: anestesia rápida e eficaz, corpo posicionado, campos postos, o bisturi em precisa inclinação abre de uma só feita um talho no tórax, em passos sucessivos chega-se ao pulmão. Lá está o sujeito passivo, o fole vazio, a capa rosada, de preto moteada, imóvel, ao lado de coração que bate como um autômato, incomodado. Onde o câncer? Onde os tentáculos, as garras, a foice, o avanço? Onde a lama, o líquido viscoso, o asqueroso, invadindo? Nada, só o silêncio, mas aos poucos, apalpando-se, ei-lo: num lugar, como que deixado ao acaso,  meio escamoteado, imitando pulmão, um bicho-camaleão, só mesmo apalpando-se para perceber, o cranco, endurecido entre dois dedos. À sua volta pequenos gânglios escurecidos, infartados, pareciam nada aos nossos olhos desarmados. Mas lá movimentava-se, subterrânea, a onda negra, a que ia consumindo, apagando, até o breu... E a velha dama assim invadida era um corpo, uma carcaça, sem nome, sem referência.
Quem dela se lembrava?
A jovem, a fogosa, a que viveu para si?
A quem mesmo isso tudo interessava? A cirurgia já há muito acabara e na ante-sala se anestesiava um outro corpo sem história e sem memória.

(José Bitu Moreno)


A educação do medo


A criança, lápis de cor na mão, risca a folha branca, deixando imagens de vulcões cuspindo fogo, céu pontilhado de nuvens, árvores amontoadas a um canto e dinossauros de pescoço longo, que em alguns desenhos morrem, mas que no outro já de novo estão vivos.
Depois de pronto, colorido, pleno de fantasia e originalidade, eis que se esqueceu de um detalhe e sem mais delongas adiciona vários traços novos, tortos e imprecisos à obra de arte supostamente acabada.  
Ante meu espanto e o impulso para impedir que estrague a obra, esbarro em sua absoluta segurança e senso de propriedade, como se o que houvera configurado no cérebro fosse encontrar a exata representação no papel. O processo, a intencionalidade sobrepondo-se ao produto estético final.
Tornei-me adulto e sei que ao longo do tempo, a escola, o meio cultural, a vida foram me tirando o potencial criativo e a fantasia. 
Veio a conformidade com obras pretensamente prontas;
Veio o medo de ferir os espaços de folha branca, com traços a mais que desfigurassem uma paisagem ainda tímida, mas mesmo assim acabada, prematuramente acabada, morta.
Veio o medo de perder as pipas na profundidade do céu azul. 
Veio a sensação de não pertencer ao meio em que vivo, como um eterno estrangeiro nas estradas da vida.

(José Bitu Moreno)

domingo, 25 de janeiro de 2015

De encontro à lucidez


Estou lúcido agora, ao sol, liberto -
O antidepressivo aprisiona a alma, adormece
O antidepressivo emplastifica o espírito
Descaracteriza, como cirurgia que
Despersonaliza num sorriso igual;
Agora posso ser triste, posso chorar
Viver o tempo presente, o tempo real
Eu na companhia de mim mesmo

(José Bitu Moreno)

Sobre a indiferença


Não ver também significa ver, porém acrescido de violência.
Não ver é o mesmo que o não respeito.
Sorrir condescendente, enquanto o outro se arrasta por um caminho, que você poderia tornar mais fácil, é pura mesquinhez. 

(José Bitu Moreno)

À espera da neve



Cai neve, cai, mas cai sem demora. Vem bojuda, felpuda, agoldoada, e dançando no ar. 
Vem sem barulho, sem molhar, no rosto, nas vidraças, pelas ruas...  Neve branca, neve pura.  
Vem pelas crianças, alegres, iguais a tu.   
Pela monotonia desse inverno cinza. Flocos grandes que se esparramam, flocos leves que flutuam e dançam, por que demoram tanto nesse ano? 

(José Bitu Moreno)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A colação de grau



Chegou enfim o dia da colação de grau. Chegou assim mesmo, como agora posto, sem grandes arroubos.
A festa se deu num ginásio de esportes coberto, estávamos eu e mamãe, chegou-se ao meu nome e fui receber o diploma sob, parcos aplausos; papai ficou em casa - não havia razão para excessos, com os irmãos também fora assim.
Depois voltamos para casa, uma noite normal após um dia cansativo. Desfilei com a roupa da formatura, "a beca", frente aos pais orgulhosos. Inagina que deveriam estar muito felizes, agora que sou pai, e que tenham confidenciado entre si, a esse respeito, já deitados, um pouco antes de dormir.

(José Bitu Moreno)

No internato de Medicina II - estágio de pediatria


No estágio da pediatria, o nordeste do Brasil estava saindo de um período de quase cinco anos de estiagem - faltavam água e alimentos, crianças morriam e os nordestinos abandonavam o campo, em êxodo para os centros urbanos. 

A fome - essa epidemia crônica que sempre castigou o sertão, essa guerra silenciosa que já dizimou e dizima ainda tantas crianças ou as mata aos poucos, ao longo de uma vida adulta doentia e imbecil. 

Eu, em confronto súbito e direto com aquela realidade: subnutrição extrema, marasmo, morte...fiquei de princípio preso a uma esquisita dormência, uma anestesia de sentimentos, rechaçados com violência a um canto; embutidos, engolidos a contragosto.
A fome, a morte, passaram a ser rotineiros, urgia a cuidado, sem espaço para a reflexão, a discussão, o sentimento...
E foi assim que como estudante fui sendo formado - aprendendo sozinho a moldar a solidão. As Faculdades de Medicina nos programam somente para salvar, para vencer a morte, para não errarmos..,O erro seria a condenação definitiva, a fraqueza um defeito lamentável e os sentimentos um instrumento a ser separado do corpo.
Dessa forma, somente na solidão, confrontamos nossa face humana, nosso medo, nossos erros...médicos da solidão dos hospitais e da alma, dos limites extremados, da infalibilidade.
E, de estágio em estágio, prossegui, profissão, vida em fora, tentando salvar a vida, mas sem entender a dor e a morte.

(José Bitu Moreno)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

No internato da Medicina I


No estágio de ginecologia e obstetrícia, ao mesmo tempo que fiz muitos partos, convivi de perto com as muitas mazelas de nossa sociedade: aborto criminoso, gravidez indesejada, médicos e parteiras mal preparadas, falta de respeito humano e grosserias inaceitáveis.
Presenciei cenas em que o grito de dor da gestante em trabalho de parto, era respondido por imprecações pelas auxiliares de enfermagem, tais como: 
"-Por que fez a criança? Na hora do bem bom, não pensou nas consequências! "
Era como se ali estivessem juntos o que havia de mais animalesco no homem e de mais deplorável na sociedade. Como se condições sociais, analfabetismo, fatores culturais... descaracterizassem o "humano" nas pessoas e, portanto, tudo fosse assim permitido.
Frente a tudo, senti de início um verdadeiro asco da sala de parto, simbolizado pela nauseante mistura de líquido amniótico, sangue e imprecações; até que certa manhã assisti a um parto diferente: a luta gloriosa da mãe, o contentamento por entre os espasmos de dor, a voz de extrema doçura chamando o filho por vir, o largo sorriso quando concebeu, a criança acolhida em seus braços, buscando com sofreguidão seus seios, enfim a cândida magia da natalidade.
Momento belíssimo, único e inesquecível.

(José Bitu Moreno)

domingo, 18 de janeiro de 2015

As histórias de Tonho e Domí


Antônia - de apelido Toinha - e sua familia moravam bem no alto da ladeira, logo que essa emergia do abraço apertado das árvores e da solidão da cruz. 
Era uma casa de taipa, costurada por estacas, o chão de barro, um pote e um quarto. De lá se avistava a casa da Vó Branca.
Ela era negra e seu esposo também, um tipo calado, reticente... Tinham ate então dois filhos. Eu passava às vezes por lá para brincar com o filho mais velho, de nome esquisito. 
Toinha era franzina, muito ativa, que fumava cachimbo enquanto mexia no fogão de lenha; trabalhava também na casa das Vó Branca e lhe fazia companhia..
Apareceram um dia por aqueles rincões e, da mesma forma como apareceram, um dia se foram. Que destino os levou? Por onde anda o filho de nome esquisito? Leva uma vida igual à dos pais? 
Como comparar essas vidas, de um que virou doutor e de outro que talvez ainda corra descalço por entre as moitas de jurema e mufumbo? 
Não se pode comparar de tão distintas. Mas ser feliz é um outro assunto, Ele, se ainda vivo, talvez tenha encontrado um equilíbrio na vida, que ainda nao encontrei. O conhecimento que se acumula na escola e nos livros, pode se tornar apenas lixo, se vier somente para aumentar a distância  entre o que se pensa e o que se faz.
Mas mesmo assim é tão desigual essa rinha, em que a um se dão as armas todas para se ser livre e ao outro apenas a enxada e o horizonte de chão batido e informe.
Bem, esses foram meus amigos de infância.
Nos “Gibões” , um quilombola, não muito longe dali,  moravam Domi e Tonho. A comunidade dos "Gibões" era uma fileira de casas simples, de tijolo e barro vermelhos, margeando por trás as terras da Vó Branca. Os moradores, que trabalhavam as terras por ameia, já estavam lá há muito mais tempo do que eu, do que minha mãe, de modo que, eu entrava e saía daquelas casas, sem a menor cerimônia. Eram negros e mulatos em sua maioria. Mamãe a todos conhecia, era madrinha e amiga.
Com o tempo os filhos dos Gibões foram embora para São Paulo, São Bernardo dos Campos, e o sonho de uma vida melhor. 
Um ou outro morreu, algum envolvido pela criminalidade, mas a maioria encontrou emprego e mudou em definitivo sua pespectiva de vida. Domi e Tonho também migraram para a metrópole - o primeiro morreu assassinado e o segundo se aprumou na vida: trabalhou, casou e teve filhos.
Nas sombras da periferia, sob o manto acinzentado da garoa, Domi foi encontrado morto, enquanto Tonho ajudava a montar os carros que despejavam medo e poluição na cidade fria  - a que não para, aquela que nunca dorme.
 (José Bitu-Moreno)

Histórias do Seu Antônio


Seu Antônio tinha uma filha, Jacinta, e uma esposa que se tornou louca. Moravam numa casa nos arredores da cidade, margeando estreita ruela de terra, a uma distância da qual se podia vê-la dos fundos das lojas da rua principal, que lhe davam as costas. 
Era uma casa de taipa, de chão de barro, com um jardim bem cuidado, de exuberantes rosas vermelhas. 
Jacinta tinha cabelos pretos, longos e lisos, até a cintura, os olhos e as feições de india, como a mãe, e dava sempre a impressão de pertencer a uma outra epoca, que houvera então nascido por mero descuido, escapara, era somente uma personagem de uma historia, e que portanto nao estava valendo dessa vez a vida. 
Ela e a  mãe, viviam juntas, calavam-se juntas, vieram juntas para viver entre as flores e as paredes toscas, e na limitação de uma vida que era somente silêncio  e doença . 
Sua mãe  escavava a parede de barro para comer. Sua mãe  rasgava a roupa do corpo e vivia com a nudez mal escondida por trapos, um fantasma, branca e magra. 
Jacinta era sua mãe. Seu Antonio era o silêncio . Essas três criaturas não eram desse mundo.
 (José Bitu-Moreno)

Tio Ivan


Tio Ivan morreu num dia qualquer, o que importam datas?, morreu já cansado que estava de tanto tatear na negritude de uma vida trágica. Uma pistola, um tiro à queima-roupa, na cabeça, e enfim o silêncio total, o breu do esquecimento, o nada e o descanso que já há tanto merecia.

(Jose Bitu-Moreno)

sábado, 17 de janeiro de 2015

Violência institucionalizada


Não é tanto a perseguição- é mais a falta de perspectivas, a escuridão;
A hostilidade até fere, mas não tanto quanto a destruição gradual da auto-confiança;
O que a perda financeira poderia causar em nada equivale à indiferença institucionalizada;
Não é a prisão - mas a falta de janelas que possam ser abertas;
Não é a desmotivação - mas a falta de estímulos, de esperança semeada;
Sem educação, sem oportunidades, morrem as  potencialidades, embota-se o crescimento;
Fica-se assim  prisioneiro - do desencanto, do ócio e do tédio;
Não por que  se quer, por que se gosta, mas essa inércia é lodosa, é grudenta - paralisa, imobiliza;
Porque a ausência de governo é perversa -como o abandono, a desistência - bem mais do que a truculenta presença;
Quando não a ausência - o despreparo e a incompetência  de quem governa- essa é virulenta, dissemina e cega
Vive-se assim -nos locais de trabalho, nas instituições públicas, na vida vivida, em todos os seus ciclos...
Vive-se assim no Brasil
(José Bitu Moreno)

Llosa



Eles davam mais importância à morte que à vida. Tinham vivido no mais completo desamparo e tudo o que queriam era um bom enterro.(Llosa)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O tempo fugaz


A água da fonte,no jardim, esnoba o tempo fugaz
- estamos com pressa
A sombra úmida onde passeia um lagarto nos desconhece
- para onde vamos?

(José Bitu Moreno)

Vovó Biluca

Vovó Biluca - Por Dr. José Bitu Moreno.

Da esquerda para direita: Ilka Bitu, Maria Bitu, Julio Bitu, Dr. Luis Bitu, Assis Bitu e a matriarca Dona Biluca na comemoração dos seus 92 anos.
Cronica do Dr. Jose Bitu Moreno.

Numa bela manhã de primavera, sento-me para sonhar. Abril se aproxima rápido, trazendo na sacola, mais um aniversário. Ah, esse tempo poderia ser mais lento!! Como na infância, em que as horas se espreguiçam na divertida vida, e assim demoram a passar. Talvez também seja assim na velhice, tal qual a idosa senhora que mora sozinha no andar de cima, que impossibilitada de vencer as escadas, escolheu a cozinha para passar os dias, e sua janela como o relógio da vida.

Mas nessa manhã, quero escolher as doces lembranças como um travesseiro, onde vou me afundar e sonhar de novo, como se a vida que já foi, pudesse novamente vir a ser. A vida que foi boa, posso contar pelas manhãs. As manhãs da infância com Vovó Biluca na sua casa branca. Após as noites de chuva, as manhãs claras e límpidas de Várzea-Alegre, com suas ruas de pedras, que o sol ajudava a polir. As manhãs de domingo em Fortaleza, onde a praia do Futuro nos preenchia de sol e mar, alimentando a alma de energia e beleza. A manhã em que cheguei em Marília, a cidade que do alto do espigão ainda se enrolava na névoa, espreguiçando-se...Bela Marília, linda menina, formosa senhora. Por suas ruas silenciosas, puxando as cortinas das tantas manhãs, eu e Natha nos dirigíamos para a FAMEMA, ouvindo no rádio os lamentos apaixonados das músicas de raízes. O Hospital de Clínicas aparecia muitas vezes como se assentado em nuvens, da névoa que subia dos vales, embranquecendo a cidade em clima de sonho.

Veneza me surgiu numa manhã clara, após uma cansativa noite de trem, como a súbita revelação de um paraíso terreno, como uma bela jovem saída de um quadro renascentista, mostrando sua virginal nudez, e eu parasse estupefado frente a tanta beleza. Na ilha de Capri sentado no alto de uma escarpa, mirando o azul profundo do mar, sentindo as fragâncias de limões nos pomares, senti pela primeira vez que minha mulher era aquela ilha, era o meu sonho do distante, do belo, do indefinido... A poesia de meus melhores dias. E para que as manhãs se fizessem, foram necessários os galos e os pássaros. No tempo da casa branca, no Inharé, os galos se esgoelavam festejando o dia e espalhando orvalho. Mas aqui, na Alemanha, têm sido os pássaros...Fui com Anna Carolina para a escola e no caminho lhe lembrei de silenciar os outros barulhos do dia, para que ouvisse a algazarra dos pássaros. Quando levei André lhe falei baixinho de um passarinho que entre os galhos de uma árvore se escondia, chamando-o pelo nome. Meus dois filhos são dois pequenos passarinhos que enfeitam e fazem todas as manhãs dos meu dias.

E se apenas uma foto houvesse que recordasse ou resumisse todas as manhãs que tive, as minhas manhãs, uma existe em que estamos reunidos no clube recreativo de Várzea-Alegre, minha família, papai de chapéu de feltro, mamãe em vestido estampado de seda, as irmãs de saias brancas plinçadas e blusas azul-marinho, e os filhos homens em roupa domingueira, mas de calças curtas, botas e meias até metade das canelas . Estamos felizes e paira certa ingenuidade no ar, razões porque se tornou muito antiga a foto, utópica, etérea, totalmente deslocada pelo tempo. Mirávamos um futuro que nos desmentiria. Sonhávamos uma vida que jamais existiria. Fomos naquele instante, o que jamais tornaríamos a ser. Aquela manhã, jamais se repetiria. Mas o instantâneo do retrato, ficou para sempre.
Grande abraço,

José Bitu

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Saudade do mar


Saudade

Do afago morno da areia nos pés descalços
Da tepidez manhosa das piscinas na maré seca
Das conchas desenhando ondas na areia branca

Da cantiga do mar dia, noite adentro
Dos navios carregados de sonhos na barra
Do mergulho do sol na remota tarde

Do afago viril da noturna brisa - nos coqueiros, nos telhados
Do remanso do vento tardo continental
atenuando sombras, antecipando o dia

Correndo livre na manhã ensolarada
Acariciando e se enroscando no entorpecido peito
E se embrenhando nos recessos da praia

Até que tudo se acalma

(José Bitu Moreno)

Sobre a violação de uma tumba no Egito


A “cantora de Amón” que cantava e dançava nos templos egípcios,
Caiu há milênios no sono eterno, pronta para atravessar o rio subterrâneo
A "cantora de Amón" que nos templos dançava em adoração a Amon-Rá, o rei dos deuses.
Foi traída pela posteridade, violaram sua esfinge, arrancaram-na do caminho.
Teria ela já chegado na outra margem, na eternidade?
(José Bitu Moreno)

Pipas no domingo azul


Na avenida das Esmeraldas, ao lado de movimentado centro de compras
O senhor e a criança descobriram um espaço descampado de carros e de gente 
Um céu lisinho de nuvens e de fiação elétrica
Uma manhã de domingo livre de obrigações e de patrões
Uma pausa na vida de perdas e de tristezas
Pois bem, o senhor estacionou o carro, abriu o porta-malas, de lá retirou: um estrado, um balaio de pães
E duas pipas coloridas que empinaram na imensidão azul enquanto ouviam música e se entregavam aos sonhos

no silêncio e na ignorância


Seriam os anos que inventamos como contas iguais de um rosário que o tempo reza desde primordiais eras?
Não tiritamos, nós, num universo de luzes que não vemos, de vozes que não ouvimos e de mistérios que não desvendamos?
- Silêncio...escutemos a prece do mundo...Ele (o Criador) não quer nos dizer algo, não nos deixou outros recados?
- Ouviu?
- Não, nada, outra é a sintonia...então continuemos assim: a contar o tempo no calendário de folhinhas e a comemorá-lo, ano após ano, com Boas Festas
(José Bitu Moreno)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O vento a fez e a desfez


Dona Nair que perdeu o marido tão cedo e ficou com três filhas pequenas para criar
Dona Nair a criança, a jovem mãe, a viúva, a costureira, descansa agora suave, dormindo, entre flores 
Vai para o céu para o descanso eterno junto à Virgem Maria
De tão rápida, a vida terrena logo escoou e voa agora por campos e campinas verdejantes
Assim entoa o padre franciscano na capela branca
O vento a fez e na continuação a desfez - ela nem percebeu
(José Bitu Moreno)

Até que o tempo a tudo esqueça


Pelo hospital de paredes amarelo-escuras ouço o incessante martelar nas paredes
da enfermaria em reforma
Enquanto espremidos em leitos estreitos e enferrujados
pacientes internados minguam com parcos recursos - medicamentos vitais, acessórios básicos.
Enquanto no pronto socorro, na UTI, muitos se enfileiram, peças de dominó, esperando atendimento
No futuro um jovem médico aqui passará e quiçá não ouça sob as camadas sucessivas de tinta os gritos emudecidos do passado
Pisará sem perceber onde outrora macas foram leitos 
e tantos morreram sem socorro
Satisfeito com o mármore e o granito não perceberá que na verdade são lápides
de um período em que vidas significaram menos que construções
É, ele não saberá, o presente que agora vivo passará, eu passarei 
E todas as injustiças e sofrimentos aqui perpetrados também serão esquecidos
lamentavelmente

domingo, 4 de janeiro de 2015

Plutão ou Paquistão



Depois de uma jornada de bilhões de km e um longo período de hibernação a sonda New Horizons acordou e chegou ao seu destino o diminuto e congelado Plutão, o planeta anão, e o seu lar: o Cinturão de Kuiper, onde tb orbitam os miniplanetas congelados
Uma rima fácil? Para quê mexer com Plutão se aqui arde o Paquistão?

A pedrinha jogada por Deus


A sonda Rosetta viajou pelo sistema solar por bilhões de quilômetros 
Levou consigo o robô Philae - passearam em volta da Terra, circularam o planeta Marte
Depois, na escuridão do cosmo, hibernaram longos três anos à espera da luz do Sol
Que por fim se fez e assim seguiram viagem
Até encontrarem o esquisito cometa, 67P, de gases formado e de poeira de gelo
que vaga no ocaso há bilhões e bilhões de anos
Talvez desde quando tudo começou - uma distraída pedrinha que Deus jogou

A história de Titã


Titã, a lua, permanece envolta em densa névoa desde longínquas eras
Formada em semelhança à Terra, foi a noiva que nunca casou, o útero que nunca gerou,
a história que jamais continuou...
Em órbita perpétua pelos anéis de Saturno entre nuvens de caramelo, fala-se que
Guarda em si a cápsula do tempo, há bilhões de ano congelada - a resposta ao mistério
O que aconteceu, Titã? Como a luz se fez, o flash, a explosão?
Como foi o princípio do mundo, de nós, do universo?
(José Bitu Moreno)

O retorno dos pássaros



As pardilheiras voltaram aos sapais restaurados da Mesopotâmia
Já era sem tempo pois o pântano redivivo  estava já esperando
Ao represarem os rios Tigre e Eufrates, barraram a vazante, secaram os sapais
Mas neste 2014, flamingos rosados, pelicanos, patos-do-bico-vermelho
desde as distantes montanhas da Anatólia
preencheram de novo, de vida, os campos alagados beira rios;
Embora nem tão longe dali, tanques e soldados banhem de sangue
os solos do Irã e do Iraque, as terras sagradas da Mesopotàmia
(José Bitu Moreno)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Votos para 2015

Hoje acordei ouvindo um dos noticiários da TV - a saída das pessoas para comemorar a entrada de ano, os votos de tempos bons, as superstições, o trânsito nas estradas, as praias superlotadas, acidentes, mortes...
Eu pensei: Deus, já ouvi tudo isso antes!
Era como se estivesse acordando há dez anos..em 2004 ou outro ano que fosse.
Como essa manhã que tanto simula as de outrora, continuei o mesmo não obstante o tempo?
A gente só repete a mesma reza a cada ano, a mesma ciranda, o mesmo jogo de amarelinha, a repetida partida de futebol?
Eu me vi o mesmo hoje, envolvido na mesma manhã e temi não estar cumprindo o compromisso com a vida -esse dom supremo, por demais valioso - e temi não estar à altura dela.
Cresci, tornei-me mais sábio, mais humano, mais fraterno, mais bondoso nesses tantos anos, dias, horas, minutos, vividos?
É, acho que não foi o bastante, acho que estou em falta - comigo e com todos.
Estou em falta com Deus!
Pudera nesse ano que entra ficar quites com a vida e tudo o que ela significa!
Pudera!
A todos vocês, meus caros amigos, desejo um Ano Novo de muita aproximação entre sentimento e atitude, pensamento e ação, sonhos e realidade.
Uma palavra? - A esperança.

(José Bitu Moreno)