" Em uma semana o ar lhe faltou de forma mais intensa. Nos últimos dias, batalhou com bravura, buscando o ar de forma cada vez mais desesperada - o rosto lívido, o frio suor porejando e atestando a sua luta desproporcional. Nos seus momentos finais me chamou e se agarrou às minhas mãos como quem se afoga e procurou os meus olhos como quem roga por socorro - estava com muito medo. Mas aos poucos foi se acalmando e então as nossas mãos eram um pacto de conforto e segurança; foi quando percebi a mansidão e a gratidão nos seus olhos, assim como um outro brilho, jovial, especial, como se sorrisse...e era um sorriso de menina, a menina que nunca deixou de ser, que fora arremetida com frieza e descaso a um canto, pela vida, mas que agora era de novo livre, e sorria pelos olhos como se por janelas, como quem se despede.
Despediu-se de mim a pequena e se foi, arrastando a boneca pelo chão da enfermaria, até alcançar o céu."
Do livro "Camisa nova, seu doutor?" de José Bitu Morenp
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