terça-feira, 24 de junho de 2014

reféns da Medicina



"Estou em um ambulatório de cirurgia especializada. Pode ser em Frankfurt, em Freiburg, em Marília, em qualquer lugar dessa Abendland. O médico, que se protege em sua sala, manda chamar os pacientes, um após o outro. O paciente já chega temeroso, em ambiente hostil, longe de suas referências. O médico, sem que ao menos o encontre nos olhos, direciona-se para a parte de seu corpo que geme, conversa em código com esta, tentando enquadrá-la em alguma de suas fórmulas para diagnóstico. A doença é então ajustada em uma das fórmulas, transformada em número, e acionada numa viagem por entre diversos aparelhos. O paciente levando a sua parte doente, entra nessa ciranda como se fosse uma máquina também, rodopiando como um objeto, numa viagem pela tecnologia e pelo descaso, de onde vai sair com um laudo, confirmando o diagnóstico e indicando uma causa. Próximo passo, também orientado por uma fórmula: o tratamento. Óleo diesel ou mudar de peça? Tem como reparar, doutor? O tratamento é para a parte que geme, não importando o resto da carcaça. E agora, já que foi feita a receita, entrega-se ao preenchimento de papéis. O paciente, como uma máquina, vai para casa, guardando na memória o nome da doença, que passa até a exibi-la, como uma placa, e numa sacola os medicamentos. Após uma satisfatória mas breve melhora, a doença recrudesce, é clara, desde que não fora sequer compreendida em sua complexidade e multicausalidafe. O paciente volta ao consultório, é novamente enquadrado, protocolado, medicado, melhorado; enfim, tudo se reinicia, repetindo-se o ciclo, e a doença tranforma-se em processo crônico, que se auto-alimenta, e se reproduz continuadamente. O homem, o paciente, torna-se refém da doença e da medicina."

José Bitu Moremo

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