segunda-feira, 23 de junho de 2014

ao som de Brahms



"Pode-se proteger uma família de classe média alta, morando em casa própria, em bairro abastado e tranqüilo, nos arredores de alguma cidade na Europa Central.
Pode-se protegê-los e o estado os protege com extrema competência e inegável astúcia.
Passear por esses bairros é um exercício de grato deslumbramento: ruas limpas, pintadas em cores fortes, jardins graciosos e meticulosamente cuidados, casas bonitas, enfeitadas e elegantes, como se recém-saídas do banho, carros novos e silenciosos...
Sente-se como se esses espaços fossem imunes ao sofrimento, à tristeza, e até aos pensamentos ruins. Como se a civilização houvesse chegado a um padrão de mais elevado requinte e o comportamento humano houvesse se assenhorado de tanta sabedoria, que tudo o que houvesse de mais pérfido na natureza do homem, como preconceito, racismo, inveja, perversão sexual...em outro distante mundo existisse e lá não tivesse acesso.
Esse seria o retrato perfeito, o projeto vitorioso da modernidade. O empresário, assim como o político -que trabalham para permitir a existência desse projeto -  voltam de um dia de trabalho e se refestelam nesse mundo de maravilhosa fantasia. Os filhos que só têm sentimentos bons correm aos seus encontro. As esposas lhes pedem opinião sobre uma campanha beneficiente para crianças famintas de algum lugar miserável do globo. 
(O político e o empresário, em seus escritórios, distantes de casa, articulam guerras, pressionam países endividados, trapaceiam-nos no comércio, empobrecem-nos mais, distroem-nos, inclusive as florestas, e vem a esposa arrecardando roupas para campanhas humanitárias).
A senhora que esbarro na rua e que me identifico como brasileiro, comove-se até o mais profundo do seu ser ao falar sobre imagens de violência, de pobreza, e de destruição da natureza, que às vezes vê estampadas em algum jornal ou programa de TV.
São as bolhas multi-coloridas desse mundo de ilusão: senhoras, senhores. sentados em cada bolha, reconfortados, tomando vinho,licor; fumando charutos, discutindo amenidades, sorrindo, enquanto as bolhas revoam ao som de uma música de Brahms."

José Bitu Moreno.

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