quarta-feira, 29 de abril de 2015

Reconhece o barulho da chave na porta; Reconhece os passos, pressente o cheiro; Ouve até a fala ainda não formulada; E seu grito ecoa por todo o apartamento; Alegre, urgente, estridente; Súbito, desvencilhando-se do grito, Surge a criatura ágil, roliça, miúda, Esbaforida, no próprio limite – só sorrisos; E seus braços me envolvem – essa árvore já encurvada; E seus beijos são pássaros, pequenos, em bando; Pousando nos já encrostados galhos; Mas então se desgarra, E correndo é agora impaciente pônei, Que dispara pelo espaço imaginário, Sem cercados, para bem longe, Do meu alcance. (José Bitu Moreno)

visita materna

Ela, um graveto soprado ao mundo, nos meados do século, no ano da grande seca de 1932, uma pena, chumaço, sussurro, um gemido calado. Mesmo o sol inclemente não calou o choro na teimosia de nascer e de viver? Morou muito tempo em Várzea Alegre, pequena e ingênua cidade, afastada do pesado hálito do mundo. Por isso sobreviveu? Não, vieram o casamento, filhos e, depois, acontecimentos e imprevistos da fortuna, que a afastaram da vida calma, e fizeram-na mudar-se para a capital, Fortaleza, puxando atrás de si uma corda de 8 meninos, marido, mãe, e vó Branca. Daí o bafo quente do mundo, egoísta e desumano, a pegou de cheio. Cambaleou. Caiu? Caminha em casa e não se nota. Reza, o tempo todo reza, reza para si, reza para todos, encolhidinha na cama, debulhando o rosário, recontando a vida, os anos, enfrentando os medos, repassando-os, repassando-se, para Deus e para os seus que já se foram. É uma criatura do amor, o seu sujeito é o ser humano, a sua referência, o seu motivo. Indistintamente e de imediato considera e tem respeito ao outro. Subjuga e é subjugada pelas regras da convivência, do relacionamento interpessoal. Sofre por bem amar, por enxergar o próximo. E nesse jeito extremamente humano só se lembra de gente, só referencia gente, só chora por causa de gente. Por assim ser, também tem inveja, tem medo, enfim: também é pequena, humanamente pequena, um pequeno graveto, que uma mão desavisada pode quebrar. Mas na delicadeza, na humanidade, concentra o mistério, todo colorido e toda fortaleza do mundo, por isso sobreviveu e sobrevive, incansável, como as gotas de vida que perpetuam a espécie. Assim, tem seu lugar onde estiver, criatura universal, que logo encanta,.mãe para quem já não mais tem ou está distante, avó para quem dela se aproxime, carinhosa, poliglota em seu silêncio de rugas, que já não mais precisa demonstrar nada, pois sua presença por si basta. Fala não ter ódio, sequer raiva. A vida seguiu o curso, cuidou dos filhos, cuidou com deslevo da mãe com Alzheimer e do marido, totalmente dependentes, nos últimos anos de vida. Cuida de netos, reza horas a fio cuidando dos outros... Hoje passeia visitando os filhos, veste-se elegante, tem os trocados da aposentadoria que a mão não acostumada teima em retê-los, anda firme e com aprumo, relembra a vida sem arrependimentos, rebusca planos para o futuro, e cuida da saúde como quem não para, a sofrer, com a realidade da morte. Descemos as escadas de madrugada para irmos para o aeroporto. Embaixo, enquanto a esperava, pensei assim: de tão leve, passará pelos sensores de lâmpadas do prédio sem que seja notada. E as luzes não se acenderam. E ninguém acordou. O avião a enguliu e saltou para bem longe. Não chorei, estava contente por tê-la e por ainda ter podido me reconfortar em sua luz. Dré, meu filho, de manhã cedo, quando acordou, chorou ao saber que tinha partido, mas quando calou, estava sereno – a avó passou a viver nele, e ele nem percebeu. (José Bitu Moreno)

casa vazia, ecos do passado

Noite distante e fria. Sou uma casa vazia, velho sobrado de escadarias, onde ecos de passos se acumularam ao longo dos anos. Pode-se ouví-los na noite que teima em não dormir. Aos poucos as lembranças vão se enchendo de passos, quando silenciam, e, a um canto, sentado à mesa, magras pernas cruzadas, revejo o saudoso amigo e professor, o mesmo que me acolheu enquanto vivi em Marília. O cigarro à mão, com a outra afasta os cabelos lisos que lhe caem sobre os olhos. Apruma-se um pouco na cadeira, toma um gole de cerveja, e se põe a recitar Fernando Pessoa. Ele nasceu em fazenda, no Triângulo Mineiro, onde o pai trabalhava como empregado, e a mãe cuidava dos filhos. Venceu a infância, em que perdeu os dentes, andou descalço, e as unhas dos pés ficaram para sempre deformadas por micoses. Venceu a pressão de organização social e política, que tornava o analfabetismo e a pobreza capitanias hereditárias, alienando crianças e forçando-as a seguir o mesmo caminho dos pais. Entrou na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, e se sustentou, pagando os próprios estudos. Deu plantões. Foi aluno brilhante. Terminados os estudos, especializou-se em cirurgia vascular, casou-se e, por várias circunstâncias, foi parar em Marília, interior de São Paulo. Lá, foi um dos primeiros e dos melhores professores da Faculdade de Medicina, onde participou na formação de médicos. A história poderia parar assim, culpa de relatos técnicos, em que as palavras se destacam mais que os personagens. Mas ele foi personagem por demais vivo, interessante, criativo, inteligente, provocador, para ser alfinetado numa folha como inseto morto. Foi um neurônio esticado ao máximo, com sensibilidade tão aguçada, que o barulho do mundo, o tato, o sopro, os mesmos que lhe trouxeram vida e movimento, aproximaram-no da doença e da morte. Não se sabe bem o que lhe aprontou a vida, as cicatrizes que deixou, mas o fato é que se afogou paulatinamente na poesia e na bebida. Enquanto o corpo ruía, o espírito resistia, triste decerto, mas entremeado com desconcertante humor. Permaneceu sempre generoso, sempre ágil, de assombrosa memória, reunindo jovens em torno de si, apontando caminhos, enquanto foi descendo o seu próprio. Às vezes paro e observo meu filho brincando, tento fotografá-lo nas lembranças, memorizá-lo na lucidez do momento, e torná-lo eterno... Tentei isso algumas vezes com ele? Deixei a pessoa, por trás do professor, se confundir com o frio e desumano cotidiano, perdendo-o muitas vezes, sem ouví-lo como devia? Decerto. Decerto. Mas sei que naqueles momentos, encurralado por minhas próprias limitações, fiz o melhor que pude e fui o que poderia ter sido. Ele me respeitou como eu fui. E eu o guardo assim, carinhosamente, na minha lembrança. José Bitu Moreno

pó na mesa de trabalho

Minhas palavras batiam de encontro aos olhos opacos do promotor e caíam como pássaros. Formou-se na córnea uma parede branca que refletia a luz, de nada adiantava, Ao final do discurso, me vi só, terrivelmente só, as pessoas eram miragens, e somente a cabeça do promotor falava, com os olhos mortos, parede branca, incandiando No pó de sua mesa de trabalho, as palavras jaziam mortas, e de nada adiantava, a lembrança do vôo, do canto, a projeção do céu cortando um naco da janela entreaberta, de nada adiantava mais Agora era eu, parado, e a minha alma se fechando, como se fizesse noite adiantada, como se a mente escura do magistrado tivesse o poder de anular a luz e chacoalhar as sombras Virei-me, dei de costas, ficou ele lá, brincando com as leis de plástico, jogando aviãozinhos de papel no espaço caduco, saturado, de sombras, preconceitos e de mofo. José Bitu Moreno

está a um canto silenciosa

Está a um canto agora parecendo silenciosa; Aproximo e escuto o seu silêncio; A um passo de entrar no seu mundo; “Papai vem, você é o príncipe, bom dia príncipe”; Conduz-me no diálogo passando-me as falas; Como cheguei me vou, sem sequer ter importunado o silêncio, que de novo a envolve, com manto de muitas cores. (dedicado à minha filha, Anna Carolina, Cacá) José Bitu Moreno

ele sorri mirando o nada

ele sorri mirando o nada, e agita as mãos como se aplaudisse: um palhacinho faz estripolias no ar, dá cambalhotas, canta, chora, e tropeça nos sapatos de pau; ele sorri encantado, o palhacinho o olha gozado, não percebem os dois anões que entram, o trapezista, a bailarina, o tigre, nem a porta que se fecha, e me trancafia do outro lado. (dedicado ao meu filho André, quando criança) José Bitu Moreno

sexta-feira, 24 de abril de 2015

vai com Deus, meu caro irmão

Enquanto o irmãozinho de nós se despede A chuva de meteoros das Lirídeas enfeita o céu Dia de festa no universo Jose Bitu Moreno

domingo, 19 de abril de 2015

O último aniversário do Soldadinho-do-Araripe

Corre lépido e sinuoso, declive abaixo,o riacho de águas claras margeado por densa folhagem verde. É bem raso, somente uma fina lâmina d'água sobre um leito de pedras lisas e lodosas; O pequeno pássaro pula do ninho flutuante, ancorado numa das margens, para o banho matinal O sol é manso e se filtra entre as copas das árvores O pequeno pousa no riacho raso e, cantando, abana fremente as asas azuis, esparramando gotas translúcidas de água no corpo de branco incólume e na cabeça de vermelho puro Poesia e magia, espetáculo único e belo, parece até que naquele instante das margens, a espessa folhagem; do alto, o azul do céu sem nuvens, existem somente para venerá-lo: o milagre, o aniversário do singular ser Que dos infindáveis lugares deste vasto mundo somente ali ainda existe, o passarinho, o Soldadinho-do-Araripe, Que vive rodeado de sertão, de sol tórrido e de aridez, mas naquele oásis, na chapada do Araripe, houve de encontrar o seu reino E ali mesmo, onde houve o milagre da vida, corre o risco de desaparecer Como assim? De definitivamente sumir, ser exterminado, depois de um inquebrantável elo de milhões e milhões de gerações, levando adiante esse espetacular projeto de vida ? Logo ali num sertão de tanta seca e fome e morte? Sertanejos bravos e de bom coração, poetas conterrâneos, sábios, acudam o pequeno pássaro, não deixem que no coração do sertão o milagre da criação seja assim tão aviltado e renegado Salvem o Soldadinho-do-Araripe do extermínio, da extinção! José Bitu Moreno

sábado, 18 de abril de 2015

Uma história alemã


Quando menina, abria as janelas da casa para que entrasse ar fresco, assim lhe ensinou o pai
Cuidava da casa, cuidava do pai que era médico na pequena cidade onde moravam
Adolescente, fugiram, ela e o pai, num trem, da antiga Alemanha Oriental, para Berlim Ocidental - quase morreram
Hoje trabalha no laboratório do Departamento de Cirurgia da Universidade de Frankfurt e em pouco se aposenta
É silenciosa, meticulosa, também bondosa, ama música e arte, suas férias são sempre na Itália
E todo santo dia, bem cedo ainda, mesmo muito frio, nunca esquece de abrir as janelas do laboratório
Para que entre ar fresco

José Bitu Moreno

A curta história de Jesus


O corpo de Eduardo de Jesus foi enterrado na cidade de Corrente no Piauí
Ele tinha apenas dez anos e assistia televisão com sua mãe no Complexo do Alemão, onde moravam
Ouviu vozes no beco e resolveu sair por um instante da sala para a calçada com um celular na mão
De Jesus foi alvejado com um tiro de fuzil, na cabeça, e teve morte súbita - da favela foi para o céu
Tão rápido juntou-se aos anjos, que nem mesmo a mãe Terezinha o conseguiu reter, abraçada a seu corpo, em desespero
"Não era um bandido minha criança, não tinha arma na mão, era apenas um celular..."
Ficou o sangue misturado na areia, ficou o beco mergulhado na noite escura, ficou a mãe ajoelhada ante as estrelas
Ficou o corpo sem vida - dobrado sobre si, como um ponto de interrogação:

De Jesus foi crucificado
Em vão
Aqui na Terra?

José Bitu Moreno