segunda-feira, 23 de junho de 2014

apenas ilusão


"

A paisagem era a mesma. Era outono no parque de bancos envelhecidos, quase encobertos pelas folhas coloridas de árvores centenárias. Por entre as copas e os troncos escuros das árvores, deixavam-se filtrar  fachos dourados de luz solar, que ressaltavam ainda mais a beleza circunspecta e misteriosa do lugar... Parecia uma daquelas paisagens paradisíacas de calendários, postais, ou telas de computador, enfeitando paredes, mesas de trabalho e salas de aula.
Quantas vezes, cansados da rotina enfadonha do trabalho e da vida, não olhamos de forma sonhadora para esses impressos??!!
- "Lá, era lá que deveríamos estar!", assim pensávamos.
Mas outra foi a realidade, pulei para dentro, entrei no quadro e observei consternado: faltava o homem no banco. Faltavam crianças brincando por entre as árvores. Além disso fazia frio, muito frio, que nem mesmo os raios de sol foram capazes de esquentar.
"Mesmo porque não se podia mesmo senti-los - calor, sol, frio -  quando apenas observava o quadro, o calendário, antes de nele entrar. E se crianças existissem, tampouco poderiam correr, gritar, falar alto, porque seria proibido. Bastava que antes tivesse olhado com mais cuidado - um pouco para depois das árvores era uma zona habitacional,onde as casas de tão lindas pareciam de boneca.
Nessas casas morava gente, gente que odiava barulho e que costumava preferir cachorros a crianças; portanto: mais uma mentira dos posters - cenários fictícios se espalhando por toda a Alemanha. Os rios e os riachos que cortavam as cidades, estavam lá somente para embelezá-las."
- Quem já viu rios sem peixes ou sem crianças vencendo as águas?
"As casas tinham os enfeites voltados para a rua, não para o conforto e prazer do morador. Dentro, não moravam fadas, mas pessoas velhas, solitárias e emburradas; mesmo jovens, com uma grande verruga no nariz e com a idéia de que o outro só lhe perturbaria a paz. E depois tudo era tão organizado, mas tão nos mínimos detalhes, que as pessoas se tornavam secundárias às regras, à ordem, por isso não apareciam nas fotos e paisagens. A pessoa era apenas parte de uma grande engrenagem, em que não se podia ultrapassar o risco, a borda, o grito, o riso, o muro – a tentativa de ser feliz."
Desisti e pulei para fora do quadro - aquele paraíso que via era apenas um grande embuste, não se encontrava onde busquei.
Não encontrei no Brasil tampouco.

José Bitu Moreno

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