"A paciente tem câncer de pulmão e a cirurgia é iniciada: anestesia rápida e eficaz, corpo posicionado, campos postos, e o bisturi em precisa inclinação abre de uma só feita um talho no tórax, alcançando, em passos sucessivos, o pulmão. Lá está o sujeito passivo, o fole vazio, de capa rosada com manchas pretas moteada, pegadas indeléveis do cigarro. Lá o encontra o cirurgião, o órgão imóvel, ao lado de coração que bate como um autômato, incomodado.
- Onde o câncer? Onde os tentáculos, as garras, a foice, o avanço? Onde a lama, o líquido viscoso, o asqueroso, invadindo? Nada, só o silêncio, mas aos poucos, tateando-se, ei-lo: num lugar qualquer, como que deixado ao acaso, meio escamoteado, disfarçado, imitando pulmão, um bicho-camaleão, só mesmo apalpando-se para percebê-lo, o cranco endurecido entre dois dedos. À sua volta pequenos gânglios escurecidos, infartados, pareciam nada aos olhos desarmados. Mas se movimentava, subterrânea, a onda negra, a que ia consumindo o corpo, apagando a vida, até o breu...
E a velha dama assim invadida era um corpo, uma carcaça, sem nome, sem dignidade.
- Quem dela se lembrava? A jovem, a fogosa, a que viveu para si? A quem mesmo isso tudo interessava?
A cirurgia já há muito acabara e na ante-sala se anestesiava outro corpo sem história e sem memória."
Trecho do livro "Camisa nova, seu doutor?" de José Bitu Moreno
Nenhum comentário:
Postar um comentário