quinta-feira, 19 de junho de 2014
a infância na casa branca
" Demorava-me olhando o fundo do cacimbão de tijolos vermelhos, atravessado por troncos de madeira nodosa, e povoado por águas escuras e distantes. Catava pedrinhas e as jogava, avaliando o tempo gasto até ouvi-las: o baque surdo, as vozes escuras nas águas pesadas que se debatiam em ondas de encontro à parede lodosa. Entre as falhas dos tijolos, sapos, rãs descansavam e conversavam. Contava-se da história de uma jovem que caiu naquela solidão profunda, e foi engulida. Uma história imprecisa, mal contada, que de tão antiga parecia até mesmo fábula, como as de Lampião, como a da finada Maria de Bil, a da capelinha branca no alto da serra. Difícil imaginá-las na realidade de dias tão pacatos e ingênuos, logo pertenciam ao reino da fantasia, do mito,das de histórias de trancoso.
O cacimbão ficava no meio do algodoal, alcançado por trilha de terra e pedregulhos. Para nos protegermos das cobras, cobríamos em pouco tempo o trecho, repetindo entre dentes a oração: “São Bento e água benta, Jesus Cristo do altar, o que estiver neste caminho, arrede e nos deixe passar...” A mesma trilha também nos levava, mais adiante, à mata de árvores secas e retorcidas, de moitas espinhentas de jurema e unha-de-gato. Dela tirávamos a madeira para construirmos baladeiras, badoques, arapucas e cavalinhos de pau. Os galhos para os cavalinhos tinham de ser verdes, para que com a ponta da faca talhássemos desenhos em toda sua extensão - cavalinhos malhados, garbosos, pedaços retos de pau, com rédeas de cordão, em que montávamos e disputávamos corridas."
José Bitu Moreno
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