quinta-feira, 26 de junho de 2014

sobre a cidade onde nasci


             Ao longo de anos a cidade quase não cresceu, pois muitos dos jovens que dela saíram jamais voltaram, espalhando-se pelo Brasil, concentrando-se mais nas capitais, retrato óbvio da migração interna para regiões onde se acumulam mão de obra e diversidade de campo de trabalho.
             Mas assim como pássaros, como as andorinhas que em vôos sazonais enchiam de movimento e leveza os ares da igreja matriz, recatada e sisuda em sua imobilidade, esses estudantes voltariam sempre, de onde estivessem, de acordo com a saudade maior, ou a qualquer descuido do tempo, de praxe no mês de agosto, para a festa do padroeiro. Foi essa enfim a sina da cidade: ser o berço, vê-los crescer e partir, e alegrar-se sempre com os retornos.  
             No percurso que fiz naquele dia para o ginásio onde estudava, sequer imaginei as mudanças que estariam por vir. Na verdade estava se completando a volta da roda, da qual eu fazia parte, a ciranda da vida para qual os habitantes daquelas cidades interioranas desde cedo se preparavam,  e foi assim conosco - papai casou-se com Ilka, filha de uma família de agricultores, juntos tiveram oito filhos (cinco homens e três mulheres), esses teriam que estudar, necessariamente, até terem um diploma de nível superior. Meus avós, pela parte de pai, haviam feito o mesmo - mudaram-se para Recife com oito dos seus filhos (um ficou, o meu pai). Assim, havia chegado a hora, teríamos que mudar de cidade.

José Bitu Moreno

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