Já era a minha cliente há alguns anos - mulher ativa, idade beirando os 50 anos, morena, que frequentava ativamente academias de ginática e procurava de todas as formas possíveis conservar-se bonita, contra o desgaste inconsequente do tempo. Então, cerca de 3 vezes no ano, procurava-me no consultório para tratar de suas varizes ou pequenos vasinhos nas pernas. Afora isso trazia-me por vezes o marido, ou a filha, ambos com problema de circulação, porém de outra natureza.
Como não tinha um problema de saúde específico, digamos mais sério, conversávamos sobre assuntos variados, porém nunca nos orientamos para a sua vida particular. Até que um dia, dezembro, indaguei como seria o seu natal, se festejava na casa dos pais, se eles ainda eram vivos.
-Não tenho pais, Doutor – continuou – não os conheci; nem avós, nem tios, tias, nada. Sou uma pessoa sem passado.
- Como assim? - perguntei surpreso.
- Fui deixada na porta da casa de uma família, que me criou. Na época passava uma troupe de ciganos por aqui. Acho que sou filha de ciganos e a minha mãe adotiva assim também pensava.
- E o que acha de tudo isso? - perguntei.
- Eu gosto muito de dançar, adoro o flamenco, uso roupas meio extravagantes, muitos colares, por isso acho mesmo que tenho sangue cigano. Gosto disso. Mas como estava falando, esse casal me criou, acho que me deram amor, tinham uma outra filha, mas sempre procuraram nos tratar da mesma forma. Aos 13 anos saí de casa, que era um sítio, e vim para Marília trabalhar. Meu primeiro emprego foi de babá na casa de um médico, que o senhor conhece. Trabalhei lá 2 anos. Um dia fui com uma amiga à casa do seu namorado, e lá conheci o irmão dele, que ao me ver foi logo dizendo: - “Um dia me caso com essa magrela”. E se casou, Doutor, nos casamos, tornei-me a sua esposa, e foi em pouco tempo, um ano depois.
- Mas vocês não eram muito jovens?- Dois adolescentes, doutor. Não tínhamos nada, ele também era de família humilde; trabalhamos duro no início, numa casa de jogos; eu passava a noite limpando o material do bingo, as bolas de bilhar, os tacos; mesmo quando já estava com gravidez bem adiantada, enquanto ele comandava o negócio. Tivemos duas filhas. Aos 20 anos já era mãe experimentada.
- Não, não era infeliz, não fui, não sou. Às vezes é difícil buscar uma referência familiar e enxergar somente o escuro, o fio quebrado, interrompido...Mas eu construí uma família, as filhas tornaram-se adultas, casaram-se e já me deram netos. Somos muito unidos. Crescemos também em grau social, nosso negócio deu certo, ganhamos bastante dinheiro, de forma que sou uma dama da sociedade, até certo ponto, porque na verdade somos muito caseiros e não damos atenção para as badalações. Esse é um pouco da minha história”
Enquanto falava, senti o quanto não conhecia daquela vida, que já há muito me procurava, em intervalos regulares, para o tratamento das varizes.
O movimento subterrâneo, a seiva escondida, a emoção emudecida, o vasto palco da tragédia humana soterrado – como podemos tratar os outros se não ultrapassarmos sequer a superfície esmaltada, buscando-os por detrás das palavras?