sábado, 28 de junho de 2014

a onipresente serra Negra



Do terraço de casa se descortinava a serra Negra. Minha mãe cantarolava a história de um canário da serra, que um dia fora preso numa gaiola, e daí nunca mais cantou, até que morreu de tristeza. A rede balançava-se ao compasso da música. Eu relutava contra o sono, viajava com misto de medo e encanto pelas trilhas e segredos daquela serra tao próxima e ao mesmo tão distante, a serra Negra, a serra dos meus primeiros sonhos...
Serras haviam outras: Charneca, Crioulos... Na Charneca sucedeu que um marido enciumado foi enterrar os pedaços do que foi a sua amada. Matou-lhe inocente, por isso que do chão brotou, no lugar onde a enterrou, uma capela branquinha como se de anjo, como o peito canoro do passarinho que lavava as roupas de Deus. De lá se divisava o vale. De lá, à beira de uma estrada que riscava a serra como se giz, sentava-se por horas a fio Maria, que um dia foi de Bil, mas que agora era de todas as mulheres a simbologia, do sacrifício.

José Bitu Moreno

como assim, Morin?

Como assim, Morin?
Como assim?

Assim, efetivamente, o chefe do rebanho, o carneiro, julga que continua a comandar o rebanho que dirige, quando na realidade, obedece ao pastor e finalmente à lógica do matadouro
(Morin, E. Ciência com Consciência)

vida cigana



Já era a minha cliente há alguns anos - mulher ativa, idade beirando os 50 anos, morena, que frequentava ativamente academias de ginática e procurava de todas as formas possíveis conservar-se bonita, contra o desgaste inconsequente do tempo. Então, cerca de 3 vezes no ano, procurava-me no consultório para tratar de suas varizes ou pequenos vasinhos nas pernas. Afora isso trazia-me por vezes o marido, ou a filha, ambos com problema de circulação, porém de outra natureza.
Como não tinha um problema de saúde específico, digamos mais sério, conversávamos sobre assuntos variados, porém nunca nos orientamos para a sua vida particular. Até que um dia, dezembro, indaguei como seria o seu natal, se festejava na casa dos pais, se eles ainda eram vivos.
-Não tenho pais, Doutor – continuou – não os conheci; nem avós, nem tios, tias, nada. Sou uma pessoa sem passado.
- Como assim? - perguntei surpreso.
- Fui deixada na porta da casa de uma família, que me criou. Na época passava uma troupe de ciganos por aqui. Acho que sou filha de ciganos e a minha mãe adotiva assim também pensava.
- E o que acha de tudo isso? - perguntei.
- Eu gosto muito de dançar, adoro o flamenco, uso roupas meio extravagantes, muitos colares,  por isso acho mesmo que tenho sangue cigano. Gosto disso. Mas como estava falando, esse casal me criou, acho que me deram amor, tinham uma outra filha, mas sempre procuraram nos tratar da mesma forma. Aos 13 anos saí de casa, que era um sítio, e vim para Marília trabalhar. Meu primeiro emprego foi de babá na casa de um médico, que o senhor conhece. Trabalhei lá 2 anos. Um dia fui com uma amiga à casa do seu namorado, e lá conheci o irmão dele, que ao me ver foi logo dizendo: - “Um dia me caso com essa magrela”. E se casou, Doutor, nos casamos, tornei-me a sua esposa, e foi em pouco tempo, um ano depois.
- Mas vocês não eram muito jovens?- Dois adolescentes, doutor. Não tínhamos nada, ele também era de família humilde; trabalhamos duro no início, numa casa de jogos; eu passava a noite limpando o material do bingo, as bolas de bilhar, os tacos; mesmo quando já estava com gravidez bem adiantada, enquanto ele comandava o negócio. Tivemos duas filhas. Aos 20 anos já era mãe experimentada.
- Não, não era infeliz, não fui, não sou. Às vezes é difícil buscar uma referência familiar e enxergar somente o escuro, o fio quebrado, interrompido...Mas eu construí uma família, as filhas tornaram-se adultas, casaram-se e já me deram netos. Somos muito unidos. Crescemos também em grau social, nosso negócio deu certo, ganhamos bastante dinheiro, de forma que sou uma dama da sociedade, até certo ponto, porque na verdade somos muito caseiros e não damos atenção para as badalações. Esse é um pouco da minha história”
Enquanto falava, senti o quanto não conhecia daquela vida, que já há muito me procurava, em intervalos regulares, para o tratamento das varizes.
O movimento subterrâneo, a seiva escondida, a emoção emudecida, o vasto palco da tragédia humana soterrado – como podemos tratar os outros se não ultrapassarmos sequer a superfície esmaltada, buscando-os por detrás das palavras?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

a bem da verdade




A qualquer momento posso feder, meu amigo.
Veja, por detrás de toda essa impostura, sou suor, fezes e morte. Soa deselegante, eu sei. Mas você é capaz de também ver?
Veja essa senhora, ela pouco a pouco se desmancha, se derrete, literalmente cai.
Veja ao seu redor, a poeira de células morta, que lhe acompanha como borboletas.
É capaz de ver?
Lembre-se amigo, que do pó viemos e ao pó volveremos.
Lembre-se do barqueiro, que outrora foi forte, belo e imortal.
Ô fedido imperdenido, baixa a bola, se toca, e rápido, que a vida passa!

José Bitu Moreno

Nietzsche



Oh, tolos e enlouquedidos pelo, que não existe senão em vossas cabeças! Eu vos pergunto, o que fizestes? Quereis ser e ter o que esperais, o que perseguis, então fazei isso !
(Nietzsche – Biografia de uma tragédia, tradução: Rudiger Safranski)

no trabalho - assim deveria ser


Não ver também significa ver, porém acrescido de violência.
Não ver é o mesmo que não respeitar o outro.
Sorri condescendente, enquanto o outro se arrasta por um caminho, que você poderia tornar mais fácil, é pura mesquinhez.
Homens não são objetos que se riscam ou se apagam de uma folha. Não é tão fácil assim, e parece que estou recitando uma cartilha, de tão antigo que tudo isso é.
Chegar até o outro, esse é o ponto. Abrir as cortinas, ultrapassar a resistência inicial, e saber o que se passa. Ou apenas lhe cortejar de longe, protetor, aguardando a oportunidade de trazê-lo para a mesma estrada.
Cada um é rei, tem a sua história, o seu lar, uma esposa que lhe ama e filhos que lhe adoram. Cada um, rodeado por uma aura de dignidade, construiu o seu caminho e edificou o seu lar.
Atenção, gestores, patrões, gente que manda de uma forma geral: há que se ajudar a manter ou a reerguer a dignidade dos que lhes cercam e de alguma forma são seus dependentes.

José Bitu Moreno

quinta-feira, 26 de junho de 2014

a loucura necessária


Em Oberursel uma velhinha anda descalça pelas ruas, com trajes mínimos, coloridos, velhos de tão repetidos, arrastando um velho e obediente cão atrás de si.
A que mais se assemelha?
De bem distante,  com o seu exotismo, talvez  queira personificar uma índia, o sonho de algum lugar distante...uma ilha de pessoas livres, extravagantes, diferentes...onde o sol brilha todos os dias e as pessoas são menos egoístas e materialistas...
Anda que anda pelas ruas, entra em todas as lojas, sempre com um sorriso nos lábios, o cão sorrindo igual, tirando os outros da rotina, que por isso a repelem...talvez por que os faz lembrar dos seus sonhos de há muito adormecidos.

parodiando Dante



Há uma árvore frondosa na estrada, com boa sombra, e agora é hora de descanso. Não o descanso da vida, mas o da rotina, o das participações. Há muito tempo me distanciei de mim mesmo, e de alguma forma venho adiando esse reencontro. No silêncio da sombra, em contato com a natureza, talvez eu me obrigue de vez a me tornar o ser humano que tenho por direito ser, desprovido das redes de mentiras, em que apoiei minha vida.

José Bitu Moreno

sobre a humildade intelectual



          Amigos leiam essa preciosidade extraída do livro "Em busca de um mundo melhor", do grande filósofo Karl R. Popper, sobre conhecimento e ignorância. Depois de lido, respondam por favor essa pergunta: há espaço nesse mundo para a arrogância?
         "Todos os grandes cientistas foram intelectualmente modestos, e Newton fala por todos ao dizer:
         "Não sei como pareço para o mundo. A mim mesmo pareço um menino brincando na praia. Divirto-me em apanhar aqui e    ali um seixo mais liso do que os outros, ou uma concha mais bonita - enquanto o grande oceano da verdade se estende à minha frente inexplorado."
          Einstein chamou sua teoria da relatividade geral de um vôo de efemérida.
          E todo grande cientista enxergou que toda solução de um problema científico provoca muitos outros problemas não solucionados. Quanto mais aprendemos sobre o mundo, mais consciente, mais detalhado e mais exato se torna nosso conhecimento sobre problemas ainda sem solução, nosso conhecimento socrático da ignorância. A investigação científica é, com efeito, o melhor método para nos pôr ao corrente de nós mesmos e de nossa ignorância. Ela nos conduz à importante noção de que nós, humanos, somos muito diferentes no tocante às ninharias das quais talvez tenhamos algum conhecimento. Mas em nossa infinita ignorância somos todos iguais."

José Bitu Moreno


história de uma brava corveta que zarpou para salvar náufragos na isolada Antártica



Numa fria manhã de outubro zarpou a corveta rumo aos mares austrais.
Do continente gelado trouxe vidas, a pequena corveta Uruguay hoje museu
a se balançar nas águas do Prata;
As pequenas marolas que lhe batem no casco, o cantar casual dos pássaros nas margens
O bater de remos de esportistas nas águas - nada nem de longe lembra o vigor, o destemor
O ranger das madeiras contra geleiras, o jogar-se impetuoso contra as ondas
Pelos mais frios, traiçoeiros e tempestuosos mares
Até o estreito Bransfield no mar de Larsen,na Ilha de Snow Hill, começo do fim do mundo;
Foi, voltou, destemido, trazendo a tripulação salva, herói do impossível
Mas agora só se balança, de leve, dançando no dorso camarada do rio
Poucos dos turistas que nele entra sequer imagina o que um dia foi.

José Bitu Moreno

vivenciando o primeiro trabalho



             Pelas calçadas desviava-me deles, "os carreteiros" como eram indevidamente chamados, porque descarregavam e carregavam as carretas. Eles passavam em passo apressado, pois que forçads pelo saco de sessenta quilos que traziam na cabeça. Trajavam bermudas feitas da própria sacaria dos cerais, andavam descalços, com os torsos nus, suados, cheirando a pinga, em eterno vaivém, do escuro dos armazéns aos caminhões estacionados em fila. Contratados por serviço ou com trabalho fixo, montavam e desmontavam pilhas de sacos de cereais ou de caixas de mantimentos.
             Esses trabalhadores buscavam a necessária energia às custas de cachaça, enquanto alimentavam-se mal e inadequadamente, fazendo-os presas fáceis de doenças, que mais implacáveis que o tempo, diminuíam as expectativas de vida. De dentro do armazém, atendendo no balcão, por vezes no caixa, outras vezes embalando cereais, eu assistia a tudo assustado e me sentia profundamente deslocado. Aos sábados, o movimento de compras era maior, trabalhava-se desde sete da manhã até dezesseis ou dezessete horas, com intervalo exíguo para o almoço, normalmente um lanche rápido no boteco sujo da esquina.

José Bitu Moreno

na rua do meu primeiro trabalho



      As prostitutas passavam vendendo café e chá, em bules que carregavam sobre estruturas de madeira amarradas às cinturas. Eram mulheres envelhecidas precocemente, com os corpos marcados por sucessivas partos -“buchos quebrados” como se dizia - porém amigas dos homens também sofridos; solícitas e compreensivas, eram como flores de humanização naquele ambiente por demais árido.

José Bitu Moreno

a mudança da família



Mas enfim chegamos ao novo lar: a casa amarela de esquina na rua Monsenhor Otávio de Castro, com um grande quintal aos fundos. 
E Fortaleza foi para mim um novo e complexo mundo: cidade grande, anonimato, acentuação extremada de contrastes, como um botão que se roda e o claro-escuro vai se evidenciando mais e mais, os contornos tornando-se bem mais nítidos - rico versus pobre, bonito versus feio, interior versus capital... A escola, a nova escola, era um pequeno retrato acabado da sociedade: diferença social, consumismo e preconceito.

José Bitu Moreno

sobre a cidade onde nasci


             Ao longo de anos a cidade quase não cresceu, pois muitos dos jovens que dela saíram jamais voltaram, espalhando-se pelo Brasil, concentrando-se mais nas capitais, retrato óbvio da migração interna para regiões onde se acumulam mão de obra e diversidade de campo de trabalho.
             Mas assim como pássaros, como as andorinhas que em vôos sazonais enchiam de movimento e leveza os ares da igreja matriz, recatada e sisuda em sua imobilidade, esses estudantes voltariam sempre, de onde estivessem, de acordo com a saudade maior, ou a qualquer descuido do tempo, de praxe no mês de agosto, para a festa do padroeiro. Foi essa enfim a sina da cidade: ser o berço, vê-los crescer e partir, e alegrar-se sempre com os retornos.  
             No percurso que fiz naquele dia para o ginásio onde estudava, sequer imaginei as mudanças que estariam por vir. Na verdade estava se completando a volta da roda, da qual eu fazia parte, a ciranda da vida para qual os habitantes daquelas cidades interioranas desde cedo se preparavam,  e foi assim conosco - papai casou-se com Ilka, filha de uma família de agricultores, juntos tiveram oito filhos (cinco homens e três mulheres), esses teriam que estudar, necessariamente, até terem um diploma de nível superior. Meus avós, pela parte de pai, haviam feito o mesmo - mudaram-se para Recife com oito dos seus filhos (um ficou, o meu pai). Assim, havia chegado a hora, teríamos que mudar de cidade.

José Bitu Moreno

geografia da loucura

             Ele cantava, em voz de tenor, músicas antigas sobre amores desfeitos e  outras dores da vida. Dizia-se que foi muito bonito. Quando saía A passear pelas ruas da cidade, nos dias de mansidão, trazia os cabelos lisos penteados para trás, sob efeito do gel “Brilhantina”, muito usado na época e vestia um paletó branco, com cravo na lapela. Contava-se ter sido aluno brilhante que alcançou os bancos da faculdade, quase um doutor, quando a imprevisibilidade do destino o traiu e os livros, portas do saber, levaram-no ao turbilhão misterioso da loucura.
             -“Cuidado com os livros, quem muito lê, quem muito estuda, pode enlouquecer!”
             Assim se falava, comentando o caso. Perdeu-se, pois, nos labirintos que a sabedoria esconde, sendo cuspido depois como um inválido.

José Bitu Moreno

o relógio do tempo



             Nos terreiros, soltos e em bando, o martelar interminável dos capotes, ou galinhas d’angola. Relógio daqueles dias quentes, tique-taque acentuando o calor e a inércia das horas. O tempo espreguiçando-se em frondosa sombra, dava idéia de não passar.

José Bitu Moreno

saudades




De quando chovia e o trovão fazia a terra tremer;
do entardecer;
Das noites de lua cheia, quando a família se reunia;
Quanta falta faz, quanta falta.

José Bitu Moreno

Guimarães Rosa 2



Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.

Guimarães Rosa, Grandes Sertões: Veredas

sobre a morte e a medicina


             Mas o que vinha a ser a morte? Como lidar com ela? Se era tão presente no nosso dia a dia de estudantes de medicina, por que não nos preparavam para lidar com ela? Como cuidar somente da vida se a morte a ela está intrinsecamente ligada? Jogavam-nos assim ao seu contato, insensíveis aos nossos sentimentos e emoções, como somos jogados aos cadáveres formolizados nos porões dos cursos de medicina.

José Bitu Moreno

Pronto Socorro de uma grande cidade



             Mas, junte-se o trágico, o absurdo, o monstruoso da vida em sociedade e da própria condição humana, junte-se a isso medidas heróicas, júbilo extremo e a mais profunda tristeza ou desespero...O Pronto-Socorro de uma grande cidade. Uma cena?  Um jovem morto, deixado na maca a um canto, com o corpo mutilado por múltiplas fraturas, que deixaram as pernas em posição de bailarina...a um canto, só, na solidão da morte...

José Bitu Moreno

pela dignidade da vida


Grande parte dos que lá trabalhavam, não tinha como enfoque o homem, a pessoa, mas a doença, o tipo de urgência, os procedimentos técnicos. Muitas vezes fiquei em temerosa espera naqueles corredores e salas vazios esperando o barulho da sirene, o correr apressado de macas, o corpo ensanguentado, os membros da família apavorados, o murmurar incompreensível da vítima misturado a cheiro de pinga... Muito me marcou a pobreza, a tragédia vária, a crueza e a comicidade de situações que igualhavam o homem a estúpidos objetos à mercê do destino desgovernado e marginalizado. A indiferença e o  descaso eram o escudo dos responsáveis pelo cuidado.

José Bitu Moreno

quarta-feira, 25 de junho de 2014

no dia das mães







Meus amigos quero hoje render minha homenagem às mães. Sou um pai, mas reconheço que a maternidade é o mais próximo do divino que existe. Eu me rendo a isso e reverencio e me afasto um pouco, dou passagem, para que os meus filhos sejam banhados pela maravilhosa luz da maternidade. Porque antes de tudo, desde quando tudo começou, sou um filho, recebi o amor incondicional de uma mãe, que me tornou humano, e, como tão bem falou André Comte-Sponville:
"Antes do homem, ou seja, antes de um ser humano qualquer, há uma mulher. Sempre. O pai? A rigor, seria possível prescindir dele.....É frequente não o conhecer, ele mesmo ignorar sua fecundidade, sua paternidade, sua descendência.....
Com a mãe é diferente. Como todos os mamíferos ela não se contenta em transmitir a vida: acolhe-a, carrega-a, nutre-a. Como ela poderia ignorá-la por completo? Entre os humanos, deverá proteger o bebê - às vezes, inclusive, contra o pai - durante anos, niná-lo, consolá-lo, lavá-lo, amá-lo, falar-lhe, escutá-lo, educá-lo...A humanidade é uma invenção das mulheres. Mesmo em nossas sociedades modernas, a mãe quase sempre é o primeiro amor e às vezes, o último. É porque foi ela quem primeiro amou.
Note que pouco importa se se trata ou não da mãe biológica....Uma mãe adotiva é uma mãe. Uma mãe biológica só é realmente mãe pelos cuidados dados, pela atenção, educação, pelo amor"....Mas mesmo assim, mesmo ignorando tudo sobre os filhos (se os abandonou, se os tomaram dela)", continua Comte-Sponville, "não pode ignorar que os carregou no ventre e os colocou no mundo. A maternidade está inscrita em seu corpo (enquanto a paternidade só o está em papéis ou genes). Ser pai é uma função inicialmente biológica e depois simbólica. Ser mãe, uma função fisiológica, alimentar, vital. O pai é biologicamente necessário. A mãe, ou uma mãe, humanamente quase indispensável".
O que mais posso falar?

José Bitu Moreno

saudades do meu pai

Transportando-me no tempo para o momento em que ora escrevo, quarenta anos depois, sinto muito a falta daquele que preenchia de sentido os momentos vividos - o meu pai - que se foi em janeiro de 2003, com setenta e três anos. 
Adormeceu, simples como veio ao mundo, sem nenhum adereço especial, sem nenhuma riqueza material acumulada. 
Foi enterrado com o terno surrado, sapatos já gastos, e eu o observava sem entender como a morte podia apagar uma vida tão densa assim - como se apaga uma vela. 
O sopro súbito tornando o corpo imóvel, tão pequeno para o tamanho que foi em vida; tão estéril para  as tantas vidas que alimentou. 
Talvez tenha ido realizado, com os filhos educados e bem encaminhados. Talvez tenha até antecipado a hora, de tão cansativa e atribulada a vida.

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 8



Do alto de Santorini, observando o mar, o barco que o singrava
Aos poucos se distanciando, sumindo no horizonte
Restou somente a vela, diminuindo, se perdendo no mar azul:
O barco, a vela abanando e o adeus se demorando.

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 7



Quer ver um barquinho mais leve, mais lépido, que ao sopro do vento
Flutua como um papel?
O balanço das ondas, o perfil das águas, o risco sinuoso do mar?
As igrejinhas brancas e azuis dependuradas nas escarpas?

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 6



A menina ao sol
O sol invadiu o céu, povoou a Terra, coloriu as casas
O sol riscou um sorriso de ponta a ponta na barra

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 5



Na Grécia o peixe voa  
O pássaro mergulha
O azul a tudo confunde
E o espírito da Terra dança
O sol, a rosa, a borboleta
Vertical seiva da vida
Explosão de vida.

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 4



Do alto, o mar prateado, 
vontade de deitar nesse grande mar
Puxar a coberta azul-metálica e repousar.

José Bitu Moreno


viagem a Grécia 3



Do porto, os degraus de Santorini dão no céu
Lá no alto, agarrado nas nuvens, flutuando feito pássaro
O homem feliz.
Embaixo, o vento forte, sem descanso, chicoteando as ondas
Liquidificando o ar


José Bitu Moreno


viagem a Grécia 2



No espaço azul, sem nuvens
entre o céu e a terra
um avião levanta vôo
pula na imensidão
Tanto azul, tanto


viagem à Grécia 1



       "O azul do mar e do céu, porto de Santorini;
O navio Aída pousado na baía, à nossa espera;
No porto, casinhas brancas alinhadas;
Embarcados, logo o mar ficou bravo
De muitas ondas encarapitado; de muito vento ensandecido;
E o navio em velocidade cortava as ondas e voava;
Furava o mar como espada
Até a chegada em porto firme, Mykonos dourada -
Sol, céu, mar, pássaros, alegria
Margaridas roxas e casas de branco caiadas
O sol espalhando o azul do mar"

José Bitu Moreno

terça-feira, 24 de junho de 2014

reféns da Medicina



"Estou em um ambulatório de cirurgia especializada. Pode ser em Frankfurt, em Freiburg, em Marília, em qualquer lugar dessa Abendland. O médico, que se protege em sua sala, manda chamar os pacientes, um após o outro. O paciente já chega temeroso, em ambiente hostil, longe de suas referências. O médico, sem que ao menos o encontre nos olhos, direciona-se para a parte de seu corpo que geme, conversa em código com esta, tentando enquadrá-la em alguma de suas fórmulas para diagnóstico. A doença é então ajustada em uma das fórmulas, transformada em número, e acionada numa viagem por entre diversos aparelhos. O paciente levando a sua parte doente, entra nessa ciranda como se fosse uma máquina também, rodopiando como um objeto, numa viagem pela tecnologia e pelo descaso, de onde vai sair com um laudo, confirmando o diagnóstico e indicando uma causa. Próximo passo, também orientado por uma fórmula: o tratamento. Óleo diesel ou mudar de peça? Tem como reparar, doutor? O tratamento é para a parte que geme, não importando o resto da carcaça. E agora, já que foi feita a receita, entrega-se ao preenchimento de papéis. O paciente, como uma máquina, vai para casa, guardando na memória o nome da doença, que passa até a exibi-la, como uma placa, e numa sacola os medicamentos. Após uma satisfatória mas breve melhora, a doença recrudesce, é clara, desde que não fora sequer compreendida em sua complexidade e multicausalidafe. O paciente volta ao consultório, é novamente enquadrado, protocolado, medicado, melhorado; enfim, tudo se reinicia, repetindo-se o ciclo, e a doença tranforma-se em processo crônico, que se auto-alimenta, e se reproduz continuadamente. O homem, o paciente, torna-se refém da doença e da medicina."

José Bitu Moremo

carta a papai Noel


Olá, papai Noel,

Eu estou esperando o Natal.
Eu quero no Natal esses dois presentes, que colei nessa folha.
Eu já arrumei todo o meu quarto.
Como vai o Polo Norte?
Comigo, aqui na Alemanha, está bem. Quer dizer, eu, o André, estou bem.
Eu vou ser muito bonzinho, igual a vovó Ilka.
Eu arranjei, aqui na Alemanha, muitos amigos.
Eu gosto muito do Natal.
Depois do Natal, eu vou para o Brasil.
Se lembra daquele Natal, que a gente costurou um saco verde, que esquecemos no quintal, e ele depois apareceu todo cheinho?
Nessa carta estou lhe mandando um colarzinho que eu fiz para você. Eu espero que você goste dele. Desculpa por uma bolinha que está faltando, eu tentei colocar, mas é que ela estragou.
O que mais você ganha de Natal (além do colar que estou lhe mandando)? Deve ser muito legal, pois se dá presentes tão bons, deve receber também.
Minha irmã já mandou uma carta para você. Se não receber, mande algum sinal.
Com um grande abraço,

André (aos 6 anos)

José Bitu Moreno


no Pronto Socorro do hospital universitário


"Macas enfileiradas:
Cabeças brancas se tocando, horizontalmente
Posição fetal, fraldão,  coberta pequena,  puída
Manhã que nasce fria e mal consegue diluir
O cheiro desprendido, dominante
Da dor extemporânea.
Súbito um ruído que aumenta: tumulto, parada cardíorespiratória
Estudantes correm e se agrupam em círculo, a cena, o espetáculo,
Desfibrilador que catapulta  o espírito
Alma que se desprende e flutua sobre o caos: nada entende
Depois se deixa envolver na luz branca, do esquecimento
Enquanto o corpo fica: abandonado, sem vênia, sem reza, nem coberta, assistólico.
O ancião a um canto vê a branca luz e grita, meio sussurrado:
"Por caridade, me leva daqui!"
Mais adiante algazarra, na sala VIP, assim a denominam:
Depósito de loucos, alcoólatras, drogadritos receita:
Fenergan, policia, e aldol.
Alhures eleva-se uma súplica:
"Mãe, me leva para o céu!!! "
De uma senhora, de dores vencida, Alguém diz: -queixa-se assim, todos os dias, na mesma hora
-Há quantos dias está ali a esperar um leito pra subir?
Não existem vagas no hospital e assim, de doentes, miseráveis
Se enche  o corredor do pronto socorro
E é essa a única porta emergencial da população de sessenta municípios
O que fazem os prefeitos agora ? E os secretários e demais gestores? Na segurança dos seus lares? Nada ouvem?
É grito alheio assim tão débil e distante mesmo estando o gestor a um passo geográfico
É que a distância entre almas, meus caros, pode ser outra, bem outra - - sem justiça, sem amor, sem alteridade, torna-se inalcansável"

José Bitu Moreno

jovem mulher


"Está se tornando mulher, a minha pequena, e se distancia; passa por mim e não me enxerga, demasiado imersa em si mesma, no outro mundo que se lhe descortina; nos risos, na outra velocidade, na outra esfera a qual os hormônios eleva.
Passa por mim, a minha pequena, e eu sei, quebrou o casulo, rompeu o fio, sua impaciência não mais permite minha cadência.
Está em outra e eu percebo -
devo me afastar e lhe dar espaço, devo engolir o soluço do passado ,
ficar na última fileira, meio que na sombra;
E assistir o triunfo da borboleta que nasce, o milagre da vida pulsando a mil;
O frescor da jovem mulher em seu extremo de explosiva beleza."

José Bitu Moreno

mundo encantado



"ele sorri mirando o nada

 e agita as mãos como se aplaudisse:

um palhacinho faz estripolias no ar

dá cambalhotas, canta, chora

e tropeça nos sapatos de pau

ele sorri decerto encantado

e o palhacinho o olha com a cara gozada

não perceberam, assim, os dois anões

que entram correndo em cena

nem a porta que se fechou

e me trancafiou do outro lado"


José Bitu Moreno

momento de sabedoria


-“Papai, a gente morre para viver e vive para morrer”
-“Como assim filho?”
-“Simples, quando estamos no céu morremos para viver na terra
e quando estamos aqui vivendo, morremos para voltar ao céu”

Assim dito, encerra-se na sua sapiência de oito anos de vida, fecha mais uma página de seu livro de enigmas e se dá por satisfeito.


José Bitu Moreno

instantâneo 9


"A água da fonte,no jardim, esnoba o tempo fugaz
- com pressa, estamos com pressa -
O lagarto que passeia na sombra úmida nos desconhece"

José Bitu Moreno

a chacina



"Ele matou vários numa chacina, inclusive um jovem que por acaso estava perto, no lugar errado, na hora errada.
Foi condenado a 43 anos de prisão, está no jornal.
Penso na dona Eulália mãe do jovem que morreu por acaso; esposa de Francisco que morreu em consequência;
Como estarsá ecebendo essa notícia?
Francisco morreu aos poucos, seis anos após o crime. Nunca mais foi o mesmo, largou a cidade, a família, a alegria e se refugiou no sítio. Viveu como eremita. Às vezes dona Eulália ia lhe fazer visita. Até que morreu, bêbado, infeliz...
Dona Eulália não morreu ainda, mas se equilibra em vida, sempre com aquele peso no coração, crônico, sempre com aquela falta, que mata.
Como estará se sentindo agora, lendo a notícia?
Há seis anos o crápula matou o filho e a condenou para sempre e a sua família;
Agora se fez justiça, vai para a prisão,
Depois de tantos anos,
Enfim, o descanso?"

José Bitu Moreno

segunda-feira, 23 de junho de 2014

ao som de Brahms



"Pode-se proteger uma família de classe média alta, morando em casa própria, em bairro abastado e tranqüilo, nos arredores de alguma cidade na Europa Central.
Pode-se protegê-los e o estado os protege com extrema competência e inegável astúcia.
Passear por esses bairros é um exercício de grato deslumbramento: ruas limpas, pintadas em cores fortes, jardins graciosos e meticulosamente cuidados, casas bonitas, enfeitadas e elegantes, como se recém-saídas do banho, carros novos e silenciosos...
Sente-se como se esses espaços fossem imunes ao sofrimento, à tristeza, e até aos pensamentos ruins. Como se a civilização houvesse chegado a um padrão de mais elevado requinte e o comportamento humano houvesse se assenhorado de tanta sabedoria, que tudo o que houvesse de mais pérfido na natureza do homem, como preconceito, racismo, inveja, perversão sexual...em outro distante mundo existisse e lá não tivesse acesso.
Esse seria o retrato perfeito, o projeto vitorioso da modernidade. O empresário, assim como o político -que trabalham para permitir a existência desse projeto -  voltam de um dia de trabalho e se refestelam nesse mundo de maravilhosa fantasia. Os filhos que só têm sentimentos bons correm aos seus encontro. As esposas lhes pedem opinião sobre uma campanha beneficiente para crianças famintas de algum lugar miserável do globo. 
(O político e o empresário, em seus escritórios, distantes de casa, articulam guerras, pressionam países endividados, trapaceiam-nos no comércio, empobrecem-nos mais, distroem-nos, inclusive as florestas, e vem a esposa arrecardando roupas para campanhas humanitárias).
A senhora que esbarro na rua e que me identifico como brasileiro, comove-se até o mais profundo do seu ser ao falar sobre imagens de violência, de pobreza, e de destruição da natureza, que às vezes vê estampadas em algum jornal ou programa de TV.
São as bolhas multi-coloridas desse mundo de ilusão: senhoras, senhores. sentados em cada bolha, reconfortados, tomando vinho,licor; fumando charutos, discutindo amenidades, sorrindo, enquanto as bolhas revoam ao som de uma música de Brahms."

José Bitu Moreno.

ode à vida


Uma "ode à vida e ao planeta Terra", assim classifico esse trecho magistral, fundamental - por sua lucidez, singeleza, simplicidade e sabedoria- do grande filósofo alemão Karl R. Popper. 

"Atribui-se a um dos primeiros astronautas que participaram da primeira alunissagem uma observação simples e inteligente que ele teria feito após seu retorno (cito de memória): "Também vi outros planetas em minha vida, mas a Terra é o melhor". Creio que isso não é apenas sabedoria, mas sabedoria filosófica. Não sabemos como se deve explicar ou se é que se pode explicar que vivamos neste pequeno planeta maravilhoso, ou por que há algo como a vida que torna nosso planeta tão belo. Mas aqui estamos nós e temos toda razão para nos maravilhar com ele e ser gratos por ele. É, de fato, um milagre. Por tudo o que a ciência nos pode dizer, o universo e quase vazio: muito espaço vazio e pouca matéria; e, onde há matéria, ela está quase em toda parte em turbulência caótica e é inabitável. Pode haver muitos outros planetas que abriguem a vida. Mas, se escolhermos ao acaso um lugar no universo, a probabilidade (calculada com base em nossa cosmologia atual) de encontrar um corpo que seja portador de vida é quase zero. Portanto, a vida, em todo caso, tem valor de raridade: e preciosa. Tendemos a esquecer isso e a subestimar a vida, talvez por distração, ou talvez porque nossa bela Terra esteja m pouco superpovoada.
Todos os homens são filósofos, pois assumem uma ou outra posição perante a vida e a morte. Há aqueles que consideram a vida algo sem valor porque ela tem um fim. Não percebem que o argumento contrário pode ser igualmente alegado: se não houvesse um fim, a vida não teria nenhum valor. Não percebem que, em parte, é o perigo sempre presente de perder a vida que nos ajuda a apreender a vida".

José Bitu Moremo

apenas ilusão


"

A paisagem era a mesma. Era outono no parque de bancos envelhecidos, quase encobertos pelas folhas coloridas de árvores centenárias. Por entre as copas e os troncos escuros das árvores, deixavam-se filtrar  fachos dourados de luz solar, que ressaltavam ainda mais a beleza circunspecta e misteriosa do lugar... Parecia uma daquelas paisagens paradisíacas de calendários, postais, ou telas de computador, enfeitando paredes, mesas de trabalho e salas de aula.
Quantas vezes, cansados da rotina enfadonha do trabalho e da vida, não olhamos de forma sonhadora para esses impressos??!!
- "Lá, era lá que deveríamos estar!", assim pensávamos.
Mas outra foi a realidade, pulei para dentro, entrei no quadro e observei consternado: faltava o homem no banco. Faltavam crianças brincando por entre as árvores. Além disso fazia frio, muito frio, que nem mesmo os raios de sol foram capazes de esquentar.
"Mesmo porque não se podia mesmo senti-los - calor, sol, frio -  quando apenas observava o quadro, o calendário, antes de nele entrar. E se crianças existissem, tampouco poderiam correr, gritar, falar alto, porque seria proibido. Bastava que antes tivesse olhado com mais cuidado - um pouco para depois das árvores era uma zona habitacional,onde as casas de tão lindas pareciam de boneca.
Nessas casas morava gente, gente que odiava barulho e que costumava preferir cachorros a crianças; portanto: mais uma mentira dos posters - cenários fictícios se espalhando por toda a Alemanha. Os rios e os riachos que cortavam as cidades, estavam lá somente para embelezá-las."
- Quem já viu rios sem peixes ou sem crianças vencendo as águas?
"As casas tinham os enfeites voltados para a rua, não para o conforto e prazer do morador. Dentro, não moravam fadas, mas pessoas velhas, solitárias e emburradas; mesmo jovens, com uma grande verruga no nariz e com a idéia de que o outro só lhe perturbaria a paz. E depois tudo era tão organizado, mas tão nos mínimos detalhes, que as pessoas se tornavam secundárias às regras, à ordem, por isso não apareciam nas fotos e paisagens. A pessoa era apenas parte de uma grande engrenagem, em que não se podia ultrapassar o risco, a borda, o grito, o riso, o muro – a tentativa de ser feliz."
Desisti e pulei para fora do quadro - aquele paraíso que via era apenas um grande embuste, não se encontrava onde busquei.
Não encontrei no Brasil tampouco.

José Bitu Moreno

domingo, 22 de junho de 2014

lembranças de Anna quando criança



       "Ah, esse outono que quer chegar antes
Minha filha me detém
Com um gesto interpela a sombra que me ameaça
“Papai, você não está feliz ?
“Eu estou feliz”, continua
E procura meus olhos e sorri e faz gracinhas
Espera  enfim um sorriso
“Papai, fica feliz comigo”
Minha filha, como fazer, como faço
Com a sombra que onipresente se me interpõe?
Um novo riso, ela tenta me trazer de volta
Os grandes olhos atentos, ameaçando choro
“Sim filha, o papai está feliz, muito feliz”
E mergulho na cândida alegria
Esquecido"

José Bitu Moreno

André, meu filho



"Reconhece o barulho da chave na porta
Reconhece os passos, pressente o cheiro
Ouve até a fala ainda não formulada
E seu grito ecoa por todo o apartamento
Alegre, urgente, estridente
Súbito, desvencilhando-se do grito,
Surge a criatura ágil, roliça, miúda
Esbaforida, no próprio limite – só sorrisos
E seus braços me envolvem – essa árvore já encurvada
E seus beijos são pássaros, pequenos, em bando
Pousando nos já encrostados galhos
Mas então se desgarra
E correndo é agora impaciente pônei
Que dispara  pelo espaço imaginário
Sem cercados, para bem longe
Do meu alcance"

José Bitu Moreno


a colorida loucura


              - “Chica do Rato, Chica do Rato!”
             As crianças a seguiam gritando. Ela se virava desfiando um rosário de imprecações. Novo revide das crianças e ela seguia resmungando com a voz rouca, falando consigo mesma, equilibrada em dois ágeis cambitos, vestida em andrajos coloridos, com lantejoulas, brilhos e penduricalhos que ganhasse ou que por acaso achasse. Os braços finos carregavam pulseiras que, pelo tilintar, a antecipavam; do cabelo brotavam laços, tiaras e outros adereços, como uma medusa do bem, estilizada, ou como uma princesa, a princesa das ruas de sol, dos dias de estonteante claridade, dos borrifos brancos de nuvens espalhadas no céu azul.
             Seu pai se chamava Abel, a mãe, Maria, Maria de Abel, ambos "doidos varridos". Maria escrevia cartas para Juscelino Kubitschek, cobrando dívidas imaginárias ao erário. Abel tinha um reino, no seu reino existia uma pedra, “A pedra de Clarianã”.
             - “Eram malucos ou seres desse outro reino?”
             - “Devia o nosso presidente àquele reino?.”
             Eles moravam num quartinho, cedido por um senhor caridoso da cidade, no beco de Seu Dirceu, onde um dia Maria de Abel foi encontrada morta, sozinha e abandonada.
             - “Que semelhança havia entre as Marias?”
             - “A Maria de Bil  morreu esquartejada pelo machismo brutal do mundo. A de Abel foi vítima do preconceito e da pobreza, que também tantas mulheres dizimou- escravas da ignorância e sem emprego.”
             Tinha mais dois filhos além de Chica: José e Levi. O primeiro normal do juízo e o outro igual a Chica.
             - “Chica, Chica do Rato, Chica do Rato.”
             Ela seguia em frente, pura alegria e movimento, até entrar em outra casa. As senhoras, que ela chamava de madrinhas, lhe abriam as portas - todas a queriam, aquela louca mansa, alegre. Ela comia aqui, jantava acolá, ganhava de uns sapatos usados e de outros colares de pedras falsas, mas deixava alegria em troca, ou até mesmo a satisfação do outro, ao se comparar com ela, se sentir são.
             Ainda hoje está descendo pelas ruas de pedras, vestida como princesa reluzente, puxando um cordão de crianças: -" Chica do céu.  Princesa  do “Reino de Clarianã”!

bola de meia



" A bola era de meia, preenchida por algodão socado, tiras de pano, outras meias, ou o que houvesse de macio que não machucasse. O campo eram as calçadas desiguais, as ruas de terra batida ou, até mesmo, as de paralelepípedos mais uniformes.  As traves do goleiro eram tijolos, pedras, ou gravetos fincados no chão. O horário, qualquer um. E assim, tinha-se uma partida de futebol. Um problema era o tamanho pequeno da bola, o fato de correr rasteira, sem quicar, e a irregularidade do campo, o que ocasionava frequentes topadas. Saía-se então com a unha levantada, sangue escorrendo pelos cantos, geralmente no dedão do pé direito. Bom, na verdade, não era bem contusão, fazia até parte, pela freqüência com que ocorria.
Impulsionados pela mão direita, pneus grandes e gastos de carros eram conduzidos pelas calçadas, virando nos becos, seguindo caminhos imaginários, demorando-se nas subidas, correndo disparados nas descidas, respondendo à velocidade e maestria do bom motorista. Eram nossos carros de corrida e o autódromo era a cidade. Com pneus menores, de velocípede, se utilizava um tipo de armação de arame para conduzí-los, de forma que ficavam  firmes, velozes, obedientes, sujeitos a manobras inesperadas, na medida justa da competência da mão condutora.
Bola de meia, carrinhos de caixa de fósforos, bonecas de espiga de  milho, cavalos de pau; bodoques e baladeiras feitas à mão, peões de madeira, bolinhas de gude, boiadas de barro, corridas de pneus... Toda infância utilizamos  brinquedos que nós mesmos construíamos."

José Bitu Moreno

na temporada das chuvas



 "Com chuva por dias seguidos, renasciam como por milagre os riachos. De repente lá estavam: riacho do Machado, riacho do Meio, Mocotó, riacho do Feijão, e o da Fortuna. Eles desapareciam nos verões quentes, de sol posto por meses seguidos, mas ressurgiam logo nas primeiras chuvaradas; de repente lá estavam - redivivos, alegres, valentes, caudalosos. Interessante como guardavam na memória o rumo e o prumo, mesmo após longo tempo de espera: as águas iam em frente, confiantes, farejando os leitos estreitos e os preenchendo; de forma que logo estavam de novo desenhados, revisitando margens, inundando  várzeas, levando promessas de boas colheitas de arroz e de fartura.
Com os riachos cheios, também logo se enchiam os açudes, tantos e tão bonitos; pequenos é certo, comparados aos do vasto mundo, mas encantadores até mesmo nos nomes: Vacaria, Mameluco, Olho D’Água... Os nomes em si, já não traziam a magia e o encanto? Como as árvores, arbustos, matas, que de cinzas e desfolhadas, emaranhados de galhos secos e espinhos, esqueletos da natureza que se imaginava morta, de pronto se tornavam bonitas, verdes, frescas, viçosas... As flores? Bastava que se olhasse os campos, repletos de marias-brancas, de campânulas roxas, azuis, invadindo cercas, eitos, paus, estradas e brejos,  numa boniteza que não tinha tamanho.
E assim avançavam as águas para depois das arredias ruas, retintando de alegria as pessoas, pelos riachos velozes, enfeitando de flores os campos, transbordando as lagoas - lagoa de Dentro, lagoa de Iputi, lagoa de São Raimundo."

José Bitu Moreno

sábado, 21 de junho de 2014

as fragâncias, a memória


            "A laranjeira ficava ao pé da cerca, a poucos metros da casa.  Estava sempre verde. Quando florescia, outras flores não havia em delicadeza e perfume. As pétalas sedosas, alvas, destacavam-se contra a tosca cerca de madeiras escuras e arame farpado, sobre a qual se apoiavam.
             Ao anoitecer, com os ruídos do dia se recolhendo, colhíamos folhas para o chá. Vó Branca o preparava, e tomávamos em pequenos goles de tão quente, soprando, cuidadosamente, e sentindo aquele aroma doce e tranquilizante. Vó falava que era bom para os nervos, e um bom sonífero. Depois caía a noite de estrelas.
             E assim, ficaram com esse cheiro todos os crepúsculos, fragâncias que a memória exala, e que nos acompanham em todos os cantos, vida afora..."

José Bitu Moreno

enquanto isso, na Índia


"Segurou o último suspiro até ouvir o nome de Deus

Seu corpo está adornado com flores na pira

O filho mais velho ateia o fogo que devora o corpo e transfere o espírito

E no rio sagrado, pedaços carbonizados do que foi flutuam e se dissolvem

De volta ao cosmo"

José Bitu Moreno



a história da cadela princesa e do seu amigo que partiu


"A cadela princesa, acompanhou a ambulância por quadras e mais quadras
Até o hospital São Lucas em Vitória
onde João faleceu;
Ficou fora, na calçada, esperando, e até hoje espera
O companheiro, o mendigo, aquele um
Que a ninguém mais fez falta...
Como o cachorro Hachiko
De nobre estirpe, no Japão
Que espera na estação de trem
O retorno do dono que partiu
E nunca mais voltou"

José Bitu Moreno

impressões de São Paulo



"Amanheceu ainda garoando. O barulho onipresente dos carros não incomoda mais - soa como a música de fundo de São Paulo. Estranho o tempo, um pouco de frio para início de dezembro.
Pela janela do hotel, os edifícios que parecem vazios, se perfilam e, na tênue neblina, uns parecem submergir aos outros, nas pontas dos pés, procurando ar.
A neblina poluída e pegajosa, semelha um cachecol sufocando a cidade.
Daqui, de onde estou, com a família, conservo a identidade e o meu mundo. Sorte que a metrópole não me vem de um só golpe - se mostra aos poucos, compartimentalizada, dissimulada, disfarçada; enquanto esmaga como rolo compressor o lixo, os rastros de sangue, as diferenças...
Os humanos são figurantes e o enorme dossel de concreto isola o riso solto, o desesperado pranto...em cubículos.
Mas reluta e teima em acontecer, o desencontro das vidas, o colorido individual, o coletivo privado, o dinheiro, o luxo descomedido, o orgasmo despersonalizado, a auto-suficiência...
Está bom assim?
Não para os ouvidos destreinados, o faro despreparado, a vista afeita ao horizonte, ao riso compartilhado.
É estranho, sou estranho, alguém me ouviria se desta varanda gritasse, ou se desta altura pulasse?
A neblina a tudo cala e ensurdesse. O anonimato salva a cidade."

José Bitu Moreno

sexta-feira, 20 de junho de 2014

a serra Negra, depois o mar



"Mais tarde, o mar exerceria a mesma atração. Adolescente, já morando em Fortaleza, por vezes demorava horas a fio mirando a linha do horizonte, recortada entre o céu e o mar, o ir e vir de jangadas e de navios,  o porto. O cheiro de terras distantes era o do mar nesses instantes, e eu viajava nas lembranças de lugares onde nunca estivera e de povos que jamais conhecera."

José Bitu Moreno

a serra Negra 1



" Do terraço de casa descortinava a serra Negra. Minha mãe cantarolava a história do canário da serra, que um menino prendeu na gaiola e ele nunca mais cantou, até morrer de tristeza. A rede balançava ao compasso da música. Eu relutava contra o sono, viajava com um misto de medo e encanto pelas trilhas e segredos daquela serra tão próxima e ao mesmo tempo tão distante - a serra Negra, a serra dos meus primeiros sonhos...
Sentada na barra, em majestade, com a lombada se dobrando de lado, parecia touro manso, silencioso, impenetrável, ruminando segredos e eternidade.
Representava o intangível, o mistério...e intrigava-me saber o que existiria para depois dela, ou se era tão grandiosa que não me permitiria a possibilidade de outras, numa sucessão sem fim.
Penso hoje que daquela atração sucedeu o lento formular de perguntas, o nascimento de esquisita melancolia ou ânsia que seja, que me fez, adulto, trocar cidades, atravessar mares e conhecer outras terras."

José Bitu Moreno

o mar e a saudade



                   “Mãe, que é que é o mar, mãe? Mar era longe, muito longe dali, espécie de lagoa enorme, um mundo d’água sem fim. Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. ‘Pois mãe, então o mar é o que a gente tem saudade?’

(Guimarães Rosa, Campo Geral)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

o tiro súbito




"O tiro súbito
Interrompeu a vida:
Acabou tudo !"

sobre a morte de Brian, um anjinho boliviano



Brian estava chorando no colo da mãe, assustado com os ladrões;
Brian tinha apenas cinco anos e era muito o barulho, o medo, a violência:
"Não matem a minha mãe"
O cano da arma espreitando, sequioso, ameaçando:
"Não me matem, não me matem, não quero morrer"
O choro, a droga, a maldade e o disparo - a língua de fogo exterminando;
O cérebro expelido como estilhaços
na parede, no chão;
A alma esfarelada, o corpo inerte, o sangue de Brian na roupa da mãe;

A pequena, a humilde mãe boliviana, a ferida eterna no peito - a torneira aberta de dor...

Vieram pra São Paulo buscar o futuro, fazer de Brian um homem livre.
Justiça para os imigrantes, Brasil!!!!
Basta de hipocrisia, de preconceito, de racismo!!

As velas acesas vigiam no asfalto remendado, rezam em silêncio a alma de Brian;
A mãe chora o filho crucificado;
As mães do mundo inteiro estão de luto.

Enquanto isso, no bairro pobre onde Brian vivia, a mancha de sangue já está sendo lavada e em breve outros bolivianos virão.

José Bitu Moreno

reunião acadêmica2



- Blá Blá Blá Blá
Os olhos pesam, as pernas se inquietam .
- Blá Blá Blá Blá
O sopro do ventilador espalha o torpor, o automatismo;
As palavras deslizam compassadas - como o comportado veio d'água
que escorre pela pequena fonte made in China sobre o armário;
Estranha e tirana engrenagem de relógio
circulando a água, monopolizando o tempo;
Esquisita reunião que nunca acaba desperdiçando a vida

cordões de fogo



"Pela estrada Rosa Luxemburg faço parte do cordão de luzes: cordão que vai para Bad Homburg, cordões que se cruzam até Frankfurt. Enquanto aguardo no semáforo, vejo fila       interminável de carros.
- Como cabem tantos?
- Quantos caminhos levam a Frankfurt?
- Quantos cordões se entrecruzam na Alemanha, como emaranhado de vasos sanguíneos?
Em pouco deixo a Rosa Luxemburg e recebo permissão para entrar noutro cordão, destino: Nordwest Krankenhaus, hospital, onde devo chegar ainda para a primeira cirurgia da manhã. O carro é um Opell 1995 vermelho. Pela frente vejo agora no máximo três ou quatro carros, para trás também, tenho a impressão que somos apenas nós, a pequena comunidade de carros que nosso campo de visão alcança...Como os guetos nas metrópoles, o naco de pessoas que se organizam em nós de uma corda linear, onde não se enxerga início e fim, onde se tem a ilusão de liberdade e individualidade. Um indivíduo, mas só até onde a vida alcança, ou engana(-se), perdido na paisagem adulterada e pré-fabricada.
Entre Marília e Assis, nesse momento, deve ser assim também, carros avançando pela estrada Wahdir Farid, passando a Serra dos Gaviões, depois os vales verdejantes até a outra serra, onde a pequena Echaporã se equilibra. Assis se encontra ao final de ondulante reta, como a coluna vertebral, por onde os cordões de carros são a medula, elétrica, ferida aberta, nervos que intercomunicam o mundo em um só.
Cordões de fogo da Alemanha, estradas de Marília, vales que conduzem a Assis, maquinaria que governa o mundo, me respondam o que somente e a bem da verdade me angustia: onde encontrar o contentamento que tanto se procura?"

José Bitu Moreno

instantâneo8



mar azul céu
azul
a tartaruga passeia na tarde
fechando a cortina do dia
o papagaio do alto observa
pássaros se esgoelam
devagar anoitece


José Bitu Moreno

desenlaçando lembranças



"No quarto de dormir, ficavam quatro baús grandes. Aos domingos, manhã ainda fresca e cheirosa pelo orvalhado perfume das flores, tomado o banho de cuia e sabão de pedra no cacimbão, encontrava vó Biluca, a vó Branca, sentada no chão, desmontando os baús, peça por peça, com gestos lentos, pensativa, como viajando em lembranças. Assim, desenlaçava pacotes, abria pequenas latas coloridas, desfazia trochinhas de pano cheirando lavanda, reencontrava fotos, velhos perfumes, sabonetes no pacote original; marcas de momentos perdidos, que os envolviam por horas a fio, como mansa e lenta poeira a se acomodar. Depois, lembranças abertas e desfeitas, eram de novo embaladas e meticulosamente guardadas."

José Bitu Moreno

a vida, o vagão, o destino



"E das diferentes vidas que vivi, iniciei por essa mais acanhada, numa cidade imersa em si mesma, sustentada por sua própria história, apartada que era do burburinho do mundo. Estranho como esses primeiros passos não fazem parte dos currículos, como essa primeira vida desmancha-se contra a rispidez das regras adultas, como essas pequenas peças vão desaparecendo aos poucos, a um canto esquecidas, do quebra-cabeças em que nos tornamos. Como se de determinado ponto, um vento tempestuoso surgisse, jogando-nos num vagão, na estação que não escolhemos, rumo a um destino de casualidades distante e desconectado daquela primeira vida que ficou para trás, como retratos descoloridos pelo tempo no empoeirado álbum de fotografias."

José Bitu Moreno

as ruas de pedras



" A rua de pedras Major Joaquim Alves, em Várzea Alegre, onde nasci, era a mesma Kaiser Josef Strasse em Freiburg, onde eu morava. Uma era a continuação da outra, por elas passaram, e passam, a mesma procissão de almas, as mesmas urnas funerárias - caixões, caixotes azuis de crianças mortas, anjinhos, passando, relembrando a pergunta, refazendo a questão.
 - Para quê? Por quê? Para onde?
O arcabouço era outro, as lapidadas culturais me fizeram um vaqueiro disfarçado, enquanto ali, em plena Europa, uma poeira de letras acompanhava os passos das pessoas, letras que o vento levava, como folhas, e que depois secavam ao sol em algum parque. Para que serviram, o que trouxeram, o que contribuiram para a felicidade daqueles que as buscaram sedentoss e depois deixaram as bibliotecas vaidosos? Contribuiram para que se tornassem mais virtuosas? Tornaram-se mais sábias as pessoas, mais felizes? Ou os livros somente as levaram, apressadas, para as seus bunkers - refúgios de solidão, silêncio e hipocrisia?
As maravilhas da civilização e da tecnologia. Futilidades!
O terno que então usava no salão da casa de óperas, mal disfarçava o antigo de algodão barato. Mas o que isso importava? A rua Major Joaquim Alves era a mesma Hohemarkstrasse, em Oberursel, onde levei as crianças para a escola. 
Tentei me iludir, fazendo-me crer que estava no grande palco de um mundo civilizado, onde somente em ali se estando, tinha-se o passe para um paraíso de vida ética, decente e feliz... ingenuidade, ilusão. De noite, quando dava-me olhando as estrelas, era como se estivesse contemplando a ampla e inesquecível noite do sertão."

José Bitu Moreno