segunda-feira, 16 de junho de 2014
os meus rios
"O melro-d’água pousa sobre a pedra nas margens do riachinho Ursel, que nasce nas montanhas de Feldberg e desce coleando, passando por Oberursel. No percurso, é atravessado e ornamentado por pequenas pontes de madeira, até alcançar a prefeitura, onde, de tão cuidado, com margens floridas e leito de pedras lustrosas, parece criança saída do banho em roupa de passeio.
Não muito longe, em Frankfurt, o rio Meno corre lento, moroso, tardo, como o berro de um boi ao final do dia.
Apesar de largo e turvo, ninguém o escuta, mas continua seguindo o curso, como quem reza ou aos poucos morre.
Bem mais ao sul, nas tardes azuis de Freiburg, o Dreisam desliza entre pedras polidas, seguindo o leito que não parece dele, pois que construído e maquiado, parecendo perfeito, pobre rio sem peixes.
Por assim falar, há ainda quem pesque no Rio do Peixe, o rio que tanto cruzei entre Marília e Assis? Talvez, em se encostando o ouvido ao chão, possa-se ainda ouvi-lo na longa distância. Como se nesse início de noite, um veio se estendesse em rede entre todos os riachos e rios que conheci, formando uma rede viva, uma rede de vasos, do meu sangue percorrido.
Veias do rio Cocó de Fortaleza. Artérias do riacho do Machado em Várzea Alegre. Partes de mim remontadas. Como um jogo.
Não, eu sequer imaginava, que um dia meu corpo transporia o oceano, juntando e assemelhando águas, montando essa geografia. Fui andando, cavucando, da Serra Negra em diante, e acontecimentos, estonteantes, improváveis, foram me definindo estradas, como relâmpagos na noite escura e deles fui construindo vivências, tornando-me o que sou: mistura de águas, rios de cada cidade, somando-se, subtraindo-se e permutando-se.
Como posso falar de mim, sem falar dos meus rios e riachos?"
José Bitu Moreno
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário