segunda-feira, 9 de junho de 2014

revisitando o meu pai



"Fui envolvido pelas luminosas manhãs do sertão, coloridas de branco, azul e dourado, que preencheram minh’alma. Depois, fui abandonado pelas mesmas manhãs, quando o sol do meio-dia as afugentou. Chorei quando as busquei e não as encontrei nas tardes vastas, nos solitários crepúsculos, nas incontáveis noites que se sucederam como uma corrente de dores e de alegrias, cujos elos lembravam o relógio que não parava, a areia se derramando na ampulheta do tempo, as gotas se sucedendo na torneira aberta da vida.
Significou que fui, uma vez na vida, de forma plena? Significou que a partir de então foi em suma a caminhada de perdas?  A vida seria assim, alçada do céu e rolando pela encosta de encontro ao nada absoluto, ao último minuto em que já estaríamos despidos de tudo? Desmanchados? Nus?
Encontrei o meu pai na laje fria do necrotério, reconheci o sapato simples, a roupa lisa, um tanto frouxa, parecia ainda menor do que era, naquele recinto apertado e sem vida. Hoje, acordei pensando nele, ou talvez tenha sido a manhã de luz que o trouxe. Chegou pela estradinha branca, eu pude vê-lo desde que emergiu ao pé da ladeira de  muitas árvores, e se aproximou a trote no cavalo castanho. Carregava chapéu de feltro e vestia-se em terno branco, de brim. Como era bonito o meu pai! Sentamo-nos na varanda de sombra fresca e carinhoso vento e miramos as plantações em silêncio. Estava triste, como sempre, mas somente um tantinho assim, que não lhe apagava o brilho...
Um carro passa súbito e me arranca dos devaneios. Sorrio agradecido para o vento e para a manhã que já se adianta.  Outras virão e trarão de novo o meu pai."

José Bitu Moreno

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