terça-feira, 17 de junho de 2014

contando histórias

"E nesta sede, neste burburinho, começo a ter uma história para contar. Lembranças, acenos de amigos que ficaram pela estrada, a desenfreada infância, a conturbada adolescência, o jovem tímido e ambicioso, o médico, o imigrante em tantas terras, o marido, o pai... E tantos anos já passaram! Em volta desfolham-se e renovam-se as árvores, o frio vem e vai, passa e repassa a temporada das flores, por longos meses encurtam-se os dias, depois se alongam em delicioso bocejo. Nada há que interfira nesse ritmo. Houve somas e subtrações, perdas e ganhos, lenta transformação, não sentida, somente agora, que paro e penso e lembro-me. Ou me tornei múltiplos? Pois na verdade sinto a infância incólume, o menino continua sonhando lá no pé de araçá, defronte à casa branca. Ele nem morreu, nem se transformou, continua o mesmo, esperando que se lhe dê a mão e se lhe conte histórias. E agora sinto-me confortável para contar histórias, talvez as possa contá-las por longas horas, pequenas passagens, pedaços que a memória traz, rosário de contas, relatório de vida." José Bitu Moreno

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