segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Encurralado

Em meio ao fogo.

-Vou confessar o que eu penso, vou desenvolver o meu raciocínio, vou expor o meu voto...posso?
Sei bem o que me espera por detrás dessa expectativa tensa, desconfiada e reativa.
 -Será que falo?
Melhor não, talvez. Melhor me levantar e ir tomar um copo d'água, ou conversar sobre amenidades. Mas sobre o quê mesmo? Alguns assuntos são perigosos, alguns gostos, preferências...impera uma espécie de patrulhamento ao que se pensa, o politicamente correto - maneira de logo se ser rotulado e classificado.
-Vou-me embora pra Pasárgada.
Luto por ter um pensamento mais democrático. Tenho trazido desde sempre uma herança cultural de intolerância ao que não creio, ao pensamento contrário; da exaltação estúpida quando me faltam argumentos; do grito intimidante quando me sinto acuado e inseguro. Tenho tido ainda algumas convicções estúpidas que já não cabem mais nesse mundo tão esquivo e movediço, e sinto muita vergonha disto.
-É cultural?
Acho que sim, mas não importa. Já perdi muito sendo assim. Preciso mudar para aprender, preciso me abrir ao mundo, ao novo, sob pena de me cerrar num mundo esquizofrênico, a dialogar com os fantasmas do passado, das mesmas pretensas ideologias, dos mesmos tantos jargões. A conversa segue em frente enquanto me ausento em divagações. Excluído do meu próprio meio, forasteiro no meu próprio habitat, sinto-me esquisito e inadequado, como já me senti em tantos lugares. Olho ao redor e consigo quase que pegar, de tão previsíveis, as frases recitadas; antecipar as repetidas reações; adivinhar os mesmos sustos...
-Meu Deus como deixamos nos envelhecer assim ??!!!! Alguém por acaso mudou, se renovou, só um tantinho? Velhos, macilentos, inchados de tantas certezas. E o que dizer dos novos já velhos jovens
Vi hoje uma criatura tão caricata que quase não segurei o riso. Sabe daquelas que se esvaziam de todas as prudências, raciocínios, virtudes, lucidez...para se entregar a uma paixão retórica ?
-Mas como pode? São duas? É aquela mesma que antes conheci, meiga, compreensiva e tolerante?
A conversa vai e volta, estou incomodado, sinto-me prisioneiro de uma intolerância arredia e fraterna. Foi assim o dia todo.
-Por que não falo?
Porque corro o risco de cair num diálogo inglório, daí a preguiça. Mas de frente às paredes embrutecidas e gastas, decido-me: -Preciso me sentir livre, preciso sair deste lugar-comum e me abrir ao mundo que me rodeia. Vou falar, então:
-Não vou votar nesta candidata, odeio o PT, escolhi outro e...me considero uma pessoa absolutamente normal! Era somente isto.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Visita Materna

Visita materna Ela é um graveto soprado ao mundo, nos meados do século, no ano da grande seca de 1932, uma pena, um chumaço, um gemido calado, um susurro baixinho. Mesmo o sol inclemente não calou o seu choro na teimosia de nascer, e de viver? Morou muito tempo em Várzea-Alegre, a minha pequena e ingênua cidade, afastada do pesado hálito do mundo. Por isso sobreviveu? Não, vieram o casamento, os filhos e depois os acontecimentos e imprevistos da fortuna, que a afastaram da vida calma, e os fizeram mudar-se para a capital, Fortaleza, puxando atrás de si uma corda de 8 meninos, o marido e sua mãe, vó Biluca. Daí o bafo quente do mundo egoísta e desumano a pegou de cheio. Cambaleou. Caiu? Caminha em casa e não se nota. Reza, o tempo todo reza, reza para si, reza para todos, encolhidinha na cama, debulhando o rosário, recontando a vida, os anos, enfrentando os medos, repassando-os, repassando-se, para Deus, e para os seus que já se foram. É uma criatura do amor, o seu sujeito é o ser humano, a sua referência, o seu motivo. Indistintamente e de imediato considera e tem respeito ao outro. Subjuga e é subjugada pelas regras da convivência, do inter-relacionamento pessoal. Sofre por bem amar, por enxergar o próximo. E nesse jeito extremamente humano só se lembra de gente, só referencia gente, só chora por causa de gente. Portanto também tem inveja, tem medo, faz intrigas, enfim: também é pequena, humanamente pequena, um pequeno graveto, que uma mão desavisada pode quebrar. Mas na sua delicadeza, na sua humanidade, concentra o mistério, todo colorido e toda a fortaleza do mundo, por isso sobreviveu, e sobrevive, incansável, como as gotas de vida que perpetuam a espécie. Por isso tem seu lugar onde estiver, uma criatura universal, que logo encanta,.uma mãe para quem já não mais tem, ou que está distante, uma avó para quem dela se aproxime, carinhosa, poliglota em seu silêncio de rugas, que já não mais precisa demonstrar nada, pois sua presença por si já basta. Fala não ter ódio, sequer raiva. A vida seguiu seu curso, teve muitos filhos, cuidou com deslevo da mãe e do marido já nos seus últimos anos de vida, cuidou de netos, reza horas a fio cuidando dos outros...Os filhos casaram-se e formaram-se, hoje passeia visitando os filhos, veste-se elegante, tem os trocados da aposentadoria que a mão não acostumada teima em retê-los, anda firme e com aprumo, relembra a vida sem arrependimentos, rebusca planos para o futuro, e cuida da saúde como quem não para para sofrer com a realidade da morte. Descemos as escadas de madrugada para irmos para o aeroporto. Embaixo, enquanto a esperava, pensei assim: de tão leve, passará pelos sensores das lâmpadas do prédio sem que seja notada. E as luzes não se acenderam. E ninguém acordou. O avião a enguliu e deu um salto para bem longe. Não chorei, estava contente por tê-la e por ainda ter podido me reconfortar na sua luz. André, meu filho, de manhã cedo quando acordou, chorou muito ao saber que tinha partido, mas quando calou, estava sereno – a Vó passou a viver nele, e ele nem percebeu.

terça-feira, 22 de julho de 2014

aos amigos da noite escura

Um brinde aos amigos da noite avançada, do avesso, do errado
Amigos do riso, da ilusão, do palco e do picadeiro, da dor e do desespero
Amigos do passado humilde, da modesta escola, dos pés descalços, dos tristes Natais, das noites de frio e das dificuldades,
Amigos que jamais se enquadram, que chutam o tapete e desprezam etiquetas
Que também construíram, venceram como se diz, mas não frequentam igreja, não rezam, nem tomam chá com bolachas ao cair da tarde
Um brinde aos amigos calejados, vitoriosos, fracassados, de tanta luta marcados - cicatrizes, traumas, dores-fantasma
Que afrontam e dominam, mas com o tempo desistem, do demasiado sol, da ordenada vida; ou por sabedoria dão um basta ao exagero, ao dinheiro e à avareza...
A vocês, meus amigos, ao velho boteco do Sato que nos agrupa, aos poetas, aos pubs, aos bares - um brinde, um forte e afetuoso abraço

na rampa do Pronto Socorro

Na rampa de acesso ao Hospital de Clínicas, onde outrora os formandos se reuniam para a foto de despedida, hoje corre um rio de lágrimas

sábado, 19 de julho de 2014

na sala de espera do Pronto Socorro

Na sala de espera, um tumulto: a senhora idosa, aos prantos, se debruça sobre o companheiro que convulsiona no chão do Pronto Socorro. A jovem ao lado grita pedindo ajuda; outros se levantam e se aproximam curiosos; com pouco chega a maca onde é colocado o corpo que ainda se agita em convulsões. A senhora, apavorada, corre ao lado da maca, tentando limpar a calça úmida de urina e fezes do esposo. Na entrada da sala de emergência, ela é contida, enquanto a maca segue e desaparece entre os aventais do médico e de um cordão de estudantes. Depois de algum tempo vem o residente e lhe pergunta, a história do paciente: queixa atual, doenças do passado, remédios ...ela responde, enumera, recorda, completa: -É grave, doutor? Vai ficar bom? Sabe, doutor, ele não é assim como agora aparenta - sempre foi limpo, asseado. Um pai de família responsável e cumpridor dos deveres. Ela estava muito assustada, nunca o viu assim, tão velho e frágil; mas enquanto falava, buscando nas lembranças os fatos, era o outro que teimava em lhe aparecer - o jovem que conheceu e que tanto amou; o marido hígido e atencioso. A vontade era gritar: -Gente, enfermeiros, doutor, meu marido não é somente esse corpo doente...é uma história, uma vida construída, vocês não o conheceram? Não enxergam os traços do jovem que foi? O estudante assente com a cabeça, parece impaciente e dá uma resposta evasiva à pergunta. Na verdade não a ouve, preocupado que está em voltar com as informações. A cansada senhora percebe, desiste, e passa a dialogar consigo mesma.

no plantão do Pronto Socorro

A doutora falou, do corredor escuro alguém gritou - havia um paciente morto!
De maca em maca, tocando os corpos, procurou o defunto.
Assim, pelo tato, chegaria ao corpo frio - sem mais calor, sem vida.
Um após outro, descartando, já se sentia até feliz: ninguém morrera, como anunciado.
Enquanto assim procedia lembrou do que falara um estudante:
 -Doutora, isso aqui parece o purgatório, das tantas mãos que se erguem das macas
  das sombras, suplicantes, enquanto passamos.
Mas eis que ao toque percebe o frio da morte, estático, imóvel, inconfundível...era verdade
A vida se fora, assim anônima, sem luz, sem cerimônias
Na solidão do Pronto Socorro lotado

totalitarismo

nos corredores mal iluminados, o medo é endêmico, roliço, gosmento se esconde por detrás das portas, nas fechaduras escuras, nas enfermarias, na ferrugem da máquina a vapor da lavanderia nas paredes amarelas da instituição onde trabalho, o medo se emplastra, se hospeda, bactéria, vírus, no ar, no peito, na luz tão concreto que se ergue como muros e aprisiona tão contagiante que a todos adoece e aos poucos mata

sexta-feira, 18 de julho de 2014

na igrejinha de São Francisco

Para onde apontas, meu santinho Quem és, quem fostes tanto Que impresso ficastes no tempo No tecido dos séculos? Por que te postas assim Tão bondoso, tão ingênuo Emanando essa luz que Nos faz tão bem? Em volta pessoas se ajoelham Se confessam, choram... Por que meu santinho Por que oram em voz surrada Por que depois ficam em paz Assim: do nada, sem que se saiba? Ah, meu santinho milagreiro Aqui me ajoelho e reverencio Peço a tua benção Rogo a tua guia

pronto socorro 5

Pelos corredores do hospital de ensino...becos, labirintos, paredes sujas, descascadas, janelas enferrujadas, emperradas; Passando a visita cruzo, quase esbarro, com estudantes, residentes, auxiliares de enfermagem, funcionários da limpeza...a fábrica. Nas enfermarias, os pacientes - em quartos inapropriados e mal ventilados; em camas desconfortáveis, com colchões duros e quentes, revestidos de plástico; Das janelas pendem lençóis brancos, encardidos, feito cortinas, ondulando como bandeiras...bandeiras do destino posto. No Pronto Socorro...a fileira interminável de macas preenchendo o corredor...Josés, Marias, Conceição, Edivaldo, Moisés...corpos enfileirados, com os nomes pendendo de papéis afixados nas paredes, nas macas...apenas nomes...impessoais, anônimos, marginais...vidas sofridas, silenciosas...vidas que fenecem; O que fazer ? O sofrimento, a morte, se automatiza, se banaliza...o que fazer? Um paredão veda as saídas, um paredão que se foi construindo...de ignorância, insensibilidade, incompetência, irresponsabilidade...um paredão construído sob os nossos olhos plácidos, egoístas e coniventes; Um paredão que nos prende e nos narcotiza e nos deixa presos. Não foi com isso que sonhei, que sonhamos; não foi para isso que preparei a vida, que preparamos; não é nesse lodo que quero enterrar o futuro, o nosso; não é assim que se deve cuidar de vidas...mas por que continuamos? Por que? Por que continuamos nessa prisão? Presos no sistema que ajudamos a construir; presos na maquinaria que nos emplastifica; máquina sequiosa que vai ceifando ideais, esperanças, daqueles que chegam, dos que já se vão... Para além dos muros uma estrada linear que não se vê o fim: instituição, municípios, regiões, estado, governo federal...Meu Deus, meu bom Deus, não tem fim... Não tem fim mesmo?????????????????????????????????????? José Bitu Moreno

quinta-feira, 17 de julho de 2014

pronto socorro 4

Ana Maria, Dorival, Benedita, corpos deitados, rendidos; Matheus, Terezinha, Dona Santa em macas sequenciais, enfileiradas. Com esparadrapo pregado na parede suja o alerta: "Aqui o remédio também é o silêncio." Na área restrita, leito quarenta e dois; senhor José Teodoro, maca colada à parede de remendos; bruta e vertical - como uma sentença

tango no Almacen Viejo

No almacen viejo como pássaros como penas ao vento corpos compactos em improvável vôo pouso gracioso, máquina músculos emoldurados anulando a gravidade em terra, o embate busca apaixonada ternura desesperada dança forte, intensa, passional coito, cio, traição, encanto embriaguez, reencontro pernas que se cruzam olhos se buscando corpos febris a musica porejando, comandando, paixão,ardor,arte, sedução tango

na cidade dos mortos

Na cidade dos mortos, tomamos a rua das gardênias: a história da mãe que velou vida em fora a morte de Pedro, recém-nascido, de apenas um mês de vida; e que depois chorou a morte do outro, o jovem Ely, na flor dos vinte e três anos. Das Gardênias passamos à rua dos Lírios até o lote nove de Anna, Emílio e Mingo; No céu, no horizonte, coroando o vaso de flores sobre a branca lápide, em perspectiva: primeiro Netuno, depois Urano - nenhuma nuvem que nos separasse. Ajoelhados, rezamos ao divino, fizemos oferenda, deixamos alimento aos espíritos e depois procedemos adiante a visita. Pelo caminho, gerações sucedidas em urnas sobrepostas, casas, vilas, sobrados - o mausoléu dos doze por doze defuntos habitado; Quando enfim chegamos ao destino: a morada de Aurélio e Odete, que ensaiaram em vida um romance - casaram, tiveram filhos e morreram, cada em sua vez, cada em sua tristeza, sozinhos, com Deus.

o mestre amigo

Heladio, o alegre, o tagarela... o encontrei num corpo envelhecido, enrijecido, que desconheci; o encontrei com o espírito ainda aceso, a chama tremulando, pelo vento batida; em pouco estará no vento, no mar, nas montanhas, de onde um dia veio e tornará - Heladio, o mestre amigo.

jovem mulher

Está se tornando mulher, a minha pequena, e se distancia; Imersa em si, no outro mundo que descortina, passa por mim e não me enxerga; Tem outra velocidade, está noutra esfera, habita para onde os hormônios eleva; Passa por mim, a pequena, e eu sei-quebrou o casulo, rompeu o fio, sua impaciência não mais permite a minha cadência. Está em outra e eu percebo - devo me afastar e lhe dar espaço, devo engolir o soluço do passado , ficar na última fileira, meio que na sombra; E assistir o triunfo da borboleta que nasce, o milagre da vida pulsando a mil, o frescor da jovem mulher em seu extremo de explosiva beleza.

sábado, 5 de julho de 2014

visita no Pronto Socorro



Pelo corredor do Pronto Socorro,
passo com os residentes procurando um paciente.
Hoje são: Luís, Edson, Egídia...os nomes escritos a mão com pincel azul em folha A4, pregadas com fita adesiva nas bordas enferrujadas das macas enfileiradas...
Tantos !
Cheiro adocicado, nauseante, de sangue...mais adiante odor de corpos mal asseados, suados, febris...
Encontramos o seu Humberto, conversamos, examinamos, prescrevemos - está esperando um leito para ser internado
Depois saímos para a enfermaria, como um bando em revoada, com vontade mesmo de sair de lá

José Bitu Moreno

vida,morte,cosmo



Netuno se escondia por trás do céu de cândido azul.
Cego para esse mundo de tantos mistérios e possibilidades,
não o enxerguei na terça-feira, dia de finados;
enquanto caminhava por entre lápides.
Netuno azul
navegando no cosmo de muitas estrelas
também não me enxergou

José Bitu Moreno

despedida da infância


Sentei no meio-fio da rua de pedras e chorei.
Era noite de São João, as calçadas estavam cheias de transeuntes; as ruas, fechadas ao trânsito de carros e de animais, era margeada por pequenas barracas coloridas que se espremiam umas.de encontro às outras.,Era gente por todo lado, adultos, crianças, vozes, risos, música de alto-falantes - cantigas de ritmo alegre mas de conteúdo triste.
Nos intervalos entre as músicas, o radialista transmitia recados apaixonados, mensagens de amor, alinhavando conquistas; enquanto as moças solteiras passeavam de braços dados em volta da praça e os rapazes, sentados nos bancos, as observavam;  os casais já compostos, ficavam em volta do parque de diversões, onde a roda-gigante de coloridas lâmpadas, alumiava a noite escura, desafiando as alturas.
Alguém ficou de cócoras ao meu lado e perguntou,preocupado, por que chorava.
Como era tristeza sem corpo, choro de angústia, não havia como explicar e sequer erguí a cabeça para responder, escondida entre os braços cruzados sobre as pernas encolhidas.
Não sei quanto tempo durou, mas para os ditames da alma ficou guardado como algo importante, como um clarão dentre aqueles dias iguais de infância, divididos entre escola e brincadeiras. A razão do pranto, objetivamente, não encontrava, mas uma forte sensação  havia de que minha infância findara ou que estava findando, caindo os últimos grãos por entre os dedos e eu, impotente, não mais a conseguia retê-la; por outro lado, era como se o rio caudaloso das tantas fantasias infantis mergulhasse sem volta, engolido pelo buraco negro e definitivo que espreita e margeia a vida. As cores se dissolvendo na noite escura.
Quantos anos eu tinha - nove, dez? - não sei...Mas jamais uma revelação sobre a passagem do tempo ou as perdas ao longo da vida me anulou tanto, me causou impacto tão arrasador.
Ao final, ergueu -se dali um outro e ficou naquele meio-fio, naquela noite escura, a criança.
E assim continuei vida adentro, sempre envelhecendo antes do tempo, antecipando-me ao ritmo dos acontecimentos, vivendo no futuro apenas presumido, engolindo com pressa o presente, sem antes saboreá-lo com calma e prazeirosamente, até o último gole.

José Bitu Moreno

brinquedos de criança 2



Voltando à casa branca, nos seus fundos havia um pé de Marí, de sombra ampla e fresca. Nessa sombra: terra frouxa, areia branca, estradinhas construídas que passavam pontes, miravam precipícios, desciam em ladeiras sinuosas, passavam por cidades de pedras...Carros de caixas de fósforos, cheios de terra, puxados por cordão. Figurinhas de barro, vacas de chifres longos, touros majestosos, bezerros, cavalos puros-sangues, selas com estribos, vaqueiros de chapéus garbosos e gibões, e até mesmo com esporas nas botas. Horas a fio brincávamos enfeitiçados nesse mundo, até que vó branca chamava da cozinha para comer.

José Bitu Moreno

brinquedos de criança



“Hora de comer, Hora do almoço.” Vó branca se esgoelava no esforço de nos encontrar. “-Por onde andam esses meninos?” Andando, correndo pelo algodoal adentro, com cavalos de paus, em torno das cacimbas; ou catando bonecas de longa cabeleleira no milharal em frente; ou cortando o pasto como flechas rumo ao banho no Impueiras, o riacho de margens vermelhas, pontuado por frondoso pé de cajá. Do barro de seu leito moldávamos a boiada, majestosos cavalos, garbosos vaqueiros, de chapéus, esporas e jibão, que deixávamos secando ao sol, o nosso brinquedo de tantas horas.

José Bitu Moreno

sexta-feira, 4 de julho de 2014

jardim da Vó à noite - reino dos tatus-bolas



É noite no jardim da Vó Ju, o reino dos tatus-bolas;
Todos dormem?
Não fora os uivos do lobo faminto, Caco - o papagaio - não abriria tantas vezes os olhos, incomodado.

Mas o que houve? Mingo, o bom fantasma, sabe?

Tampouco Vino e Bóris, os canários, nem Joaquim, o pardal, pois ainda dormem;
A tartaruga Margarita olha os astros e recomeça a sua ronda pelo reino
essa sabe, mas retém o mistério enquanto o vento sacode com força a folhagem da árvore-Vó:

Silêncio!

Pelas alamedas ouve-se agora o ronco estridente de Maríola, a velha feiticeira de cabeleira de cupim;
A seu canto o rei Sorriso, um tatu-bola, também ressona enfeitiçado:

Silêncio!

Alguns pingos de chuva dedilham as pétalas das rosas e a água fria da piscina azul;
Mas a música é suave, pois o pólen que sobe ao luar pode despertar o vô Trovão -
O seu espirro dissiparia a noite, com certeza !

Pronto, aconteceu - um, dois, três espirros
E a chuva engrossa lavando as últimas manchas escuras da noite e descobrindo o dia;

Como se combinado, Caco se acorda de vez e se espreguiça;
Espera o comando de Mingo para que se inicie a cantoria;
E é dado o sinal: Vino, Bóris e Kim se esgoelam anunciando o dia
Acordou-se reino dos tatus-bolas!

O lobo calou e as aranhas Zenilda e Leopoldo iniciam a lida -
Zenilda se equilibrando  no céu, Leopoldo construindo fórmulas e esquisitices;
O menino índio, Deco, príncipe do reino,  passa a revista matinal;
Vó - árvore, calma e sábia, se refresca ao vento,
Vô- trovão foi passear.

Ávara, a águia de nariz adunco e olhos verdes, penetrantes,
sobrevoava o reino, atrás dos tatus-bolas, para a sua coleção.

Deo, a fada morena, dona de todas as trilhas e de todos os segredos, acompanha de longe o movimento

Enquanto Coriza, rainha lânguida, princesa de vidro, vai tomar café

Não tarda, a Meninhinha, vem recolher o manto de música,que todos os dias cerze, para agasalhar o reino nas noites de frio.

Uma tropa de tatus-bola reclama holofote

Todos a postos

Vamos agradecer por mais um dia!


José Bitu Moreno

na piscina azul da Vó Ju - 1



A piscina azul no quintal da Vovó Ju,
Voz de Vô Valdir tonitroante preenchendo espaços
Jardim de frutas de Manuelita, a tartaruga
Reino encantado de Caco, o papagaio
Canários e casinha de Tio Mingo, a um canto

Lá tem pés de caqui, manjericão e acerola,
Pés de jaboticaba, figo e manga rosa
Que circundam o espaço azul da piscina, protegendo, apurando
Enquanto a folhagem verde-escura se debruça
mirando-se no espelho d’água

De dentro do segredo azul
Nasceu o cortado do céu, o firmamento
que cobre exatamente esse espaço;
De forma que um vira o outro, intermitentes:
ora piscina, ora céu, e vice-versa

Quando flutuamos em um,
o outro aparece direto, sem cortinas;
A piscina pode até mesmo virar mar, de muitas ondas,
Quando chegam em algazarra as crianças
e pulam sem jeito em sua água

Ou pode tornar-se rio, imenso, silencioso,
Correndo por entre árvores, de muitas folhas;
Guardando dos  pássaros as cores e o canto;
Sempre atento às ordens de Caco, comandante e
seguindo a rota de Mingo, o almirante

Tio Mingo de tantas rugas, afinou, emagreceu
Como folha que no outono amarelece;
O canário na gaiola, emudeceu, ambos velhos:
Mingo e o canário
se dissolvendo contra a parede do quintal,
se confundindo na cor neutra entre as trepadeiras

Rio, lago, céu, ou mar, ninguém sabe ao certo
Nem mesmo Caco, sequer sabia Preta
A cachorra companheira, que bebia cerveja
Junto ao Vô Valdir, enquanto anoitecia
E Manuelita fechava a cortina do dia

Aquele espaço é um reino de muitas maneiras:
De plantas, bichos, príncipes e princesas;
Tem Cacá, a menininha, André o sapequinha
Júlia e os Joãos (Víctor e Pedro), todos tornados duplos,
Um o adulto que se torna, outro a criança que ficou

José Bitu Moreno

outro momento


Há uma árvore frondosa na estrada, com boa sombra, e agora é hora de descanso. Não o descanso da vida, mas o da rotina, o das participações. Há muito tempo me distanciei de mim mesmo, e de alguma forma venho adiando esse reencontro. No silêncio da sombra, em contato com a natureza, talvez eu me obrigue de vez a me tornar o ser humano que tenho por direito ser, desprovido das redes de mentiras, em que apoiei minha vida.

José Bitu Moreno

banho da alma


A água morna bate no rosto e escorre carinhosa pela face; estendo a cabeça para trás e, com a ajuda das mãos, ela agora envolve os cabelos, infiltra-se na alma, em cada canto; depois desce pelo tórax, pelas costas, acariciando...
A toalha grande, felpuda, macia, me abraça aquecendo - aquele abraço gostoso e repousante.
Pela claraboia raios de sol desenham na parede bege, ouço o canto de pássaros, muitos; conta-se que agora fogem do campo, com pouca comida, e invadem as cidades, bem-vindo sejam: que alegrem esse bairro ainda calmo e enfeitem essas manhãs por sorte ainda pouco invadidas por carros e multidões.
Agora, o perfume que gosto, o protetor solar, minhas coisas dispostas, calça, cueca, camisa; preparo-me para o dia, preparo-me para o sol que nesses dias visita céus de poucas nuvens e nos cumprimenta sem mais cerimônias.
Estou em casa, minha casa; já deixei as crianças na escola, minhas crianças, a esposa há pouco saiu...
Nesses momentos, revendo, penso ser um milagre como criei essa possibilidade, como fui capaz de construir, de ter filhos, uma casa, a toalha que gosto, o sabonete cheiroso à mão, esse quadrado de sol, esse instante de música..
Como aconteceu assim, ao cabo dos anos, nesse meu atropelo de ser e de me tornar?
Agora calço as meias, os sapatos, aqueles que gosto, e assim vou mergulhar no dia, fresco do banho, perfumado e muito agradecido pelo coro de pássaros que me acompanha.


José Bitu Moreno

quinta-feira, 3 de julho de 2014

prisão no paraíso social e econômico



Hoje é quarta-feira e o dia de Natal foi neste ano de 2006 numa segunda-feira. Tenho ficado em casa todos esses dias. Hoje cedo, assim que acordei, fui para o quarto de André e deitei-me com ele. Dormia ainda. Queria muito congelar o instante, reter em minha lembrança aquele corpo quentinho, que crescia a cada dia; aquela vida palpitante, cheia de tanta fantasia.
Tem agora seis anos e se adapta aos poucos a um apartamento e às regras sociais de uma cidade da Europa Central. O apartamento é suficiente para nós, com três quartos, uma sala, dois banheiros e cozinha; mas parece de casca de ovo, pois que dentro nos sentimos vigiados, e cada ato parece limitado pelas amarras das tantas leis sociais.
As crianças não podem correr livremente, gritar, pular, nem chorar alto. Mas que são crianças sem essas formas de expressão? É certo, morávamos em uma casa no Brasil, mas com crianças torna-se necessário que se tolerem alguns decibéis a mais.
A meu ver, essa rigidez - talvez necessária para a ordem - se avizinha bastante a uma afronta à liberdade do homem. A própria sociedade organizada já impõe os seus limites, porém quanto mais se organiza, mais sufocante fica. 
O pensamento tem de ser  bem pesado e avaliado antes da formulação, para que não resulte em palavras ou atos politicamente incorretos. 
O trânsito truncado mas ordenado, o fluxo de pessoas nas calçadas, nas escadas rolantes, nos bondes; o silêncio soturno, noturno, abafando a loucura; a intolerância com as crianças...
Enquanto nas cabeças, nos corações, grassa a solidão.
Uma receita? Um pouco de caos nessa ordem, uma maior ênfase no homem e não nas regras, no controle. A organização dessa forma, congelada, trancafia o homem dentro de sua própria solidão.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

uma criança apenas


Quando André chegou na Alemanha era frio e havia muita neve. Na sua escolinha - o Kindergarten - também era frio. Lá ele se tornou uma criança problema – precisava brincar fora com as outras criancas e ele nao  ia; precisava comer na mesa junto com os outros e ele nao comia; precisava se comportar igual às outras cr
Quando André chegou na Alemanha era frio e havia muita neve. Na sua escolinha - o Kindergarten - também era frio.
Lá ele se tornou uma criança problema: precisava brincar fora com as outras crianças e ele não brincava; precisava comer na mesa junto com os outros e ele não comia; precisava se comportar igual às outras crianças, falar baixo, respeitar as regras e ter sobretudo muito respeito às professoras, que não eram tias, mas gigantescas Fraus...e ele...
- Resultado de toda essa pressão?
- André tinha cinco anos incompletos, mas juntamente com outra criança imigrante, polonesa - seu melhor amigo - lhes provocou ira, muita ira: ele as imitava, lhes mostrava a língua; nada comia do que lhe serviam, e teimava em não sair para o frio e a neve. Um dia se recusou a fazer xixi frente a uma rigorosa Frau e terminou fazendo nas calças.
- Ele é apenas uma criança numa terra e situação completamente estranhas. Nao deve ser fácil para ele: não vai brincar com os outros porque faz frio lá fora, faz muito frio e isso não existia no Brasil. Não come aqui, porque é diverso o tempero das comidas, muito diverso. Ele lhe imita porque é a sua forma atual de se expressar, de contestar, ademais ele desconhece a língua. Como educadora, devia entendê-lo e ter mais paciência. Talvez nesse instante devesse receber uma atençao mais individualizada – expliquei para uma das Fraus, profundamente ressentida e atingida pelos desrespeito e indiferença do meu filho.
E assim foram passando os dias e as semanas. Uma ocasião de uma festa na escolinha, na primavera, ele me levou ao jardim - aquele muito frio, da neve - e me mostrou uma pequena árvore de densa folhagem, cujos galhos se arrastavam no chão. A árvore ficava junto a uma cerca viva, fazendo divisa com uma casa de idosos. Esse limite, as crianças nao podiam ultrapassá-lo, mas André o ultrapassava e era castigado por isso, na cadeira do castigo.
- Papai, venha ver, esse é o meu esconderijo, aqui onde venho me esconder para chorar....
(Ah, aquele formidável guerreiro, cujas lágrimas escondia, mas que não cedia. Aquela pequena criança, encolhida, no frio, chorando, por falta de compreensao...numa pré-escola)
Veio a copa do mundo de futebol, era 2006 e foi na Alemanha. André em revide saía a gritar nos corredores:
-Alemanha: Buh - quando ela perdeu.
- Mas pai, quando o Brasil perdeu ele ficaram me gozando - me explicou quando eu lhe repreendi.
Eu acompanhava aquela luta desigual e aplaudia - lógico que às vezes em silêncio - cada atitude dele, que defendia-se como podia.

(Ah meu caro André, quantas vezes naqueles dias invejei a sua força e auto-confiança. Quanto orgulho sentia daquele pequeno ser  se impondo e já pontuando num mundo tao desigual!) ​

- Nao, impossível, é meu filho e o conheço, é carinhoso e amável; nao deve ter lhe xingado em português, estava apenas com raiva e tentou lhe exprimir isso - eu retruquei à incompreensão da professora.

Passaram-se dez meses. André aprendeu e falava alemão com desenvoltura. No Kindergarten se destacou por sua amabilidade, disponibilidade, alegria e carinho pelas crianças menores. As Fraus lhe queriam muito e lhe respeitavam muito também.ianças, falar baixo, respeitar as regras e ter sobretudo muito respeito pelas professoras, que nao eram tias, mas gigantescas Fraus...e ele...
- Resultado de toda essa pressão?
- André lhes provocou ira, muita ira: ele as imitava, lhes mostrava a lingua; nada comia do que lhe serviam, e teimava em não sair para o frio e a neve. Um dia se recusou a fazer xixi frente a uma rigorosa Frau e terminou fazendo nas calças.
- Ele é apenas uma criança numa terra e situação completamente estranhas. Nao deve ser fácil para ele: não vai brincar com os outros porque faz frio lá fora, faz muito frio e isso não existia no Brasil. Não come aqui, porque é diverso o tempero das comidas, muito diverso. Ele lhe imita porque é a sua forma atual de se expressar, de contestar, ademais ele desconhece a língua. Como educadora, devia entendê-lo e ter mais paciência. Talvez nesse instante devesse receber uma atençao mais individualizada – expliquei para uma das Fraus, profundamente ressentida e atingida pelos desrespeito e indiferença do meu filho.
E assim foram passando os dias e as semanas. Uma ocasião de uma festa na escolinha, na primavera, ele me levou ao jardim - aquele muito frio, da neve - e me mostrou uma pequena árvore de densa folhagem, cujos galhos se arrastavam no chão. A árvore ficava junto a uma cerca viva, fazendo divisa com uma casa de idosos. Esse limite, as crianças nao podiam ultrapassá-lo, mas André o ultrapassava e era castigado por isso, na cadeira do castigo.
- Papai, venha ver, esse é o meu esconderijo, aqui onde venho me esconder para chorar....
(Ah, aquele formidável guerreiro, cujas lágrimas escondia, mas que não cedia. Aquela pequena criança, encolhida, no frio, chorando, por falta de compreensao...numa pré-escola)
Veio a copa do mundo de futebol, era 2006 e foi na Alemanha. André em revide saía a gritar nos corredores:
-Alemanha: Buh - quando ela perdeu.
- Mas pai, quando o Brasil perdeu ele ficaram me gozando - me explicou quando eu lhe repreendi.
Eu acompanhava aquela luta desigual e aplaudia - lógico que às vezes em silêncio - cada atitude dele, que defendia-se como podia.

(Ah meu caro André, quantas vezes naqueles dias invejei a sua força e auto-confiança. Quanto orgulho sentia daquele pequeno ser  se impondo e já pontuando num mundo tao desigual!) ​

- Nao, impossível, é meu filho e o conheço, é carinhoso e amável; nao deve ter lhe xingado em português, estava apenas com raiva e tentou lhe exprimir isso - eu retruquei à incompreensão da professora.

Passaram-se dez meses e André aprendeu o alemão e falava com desenvoltura. No Kindergarten se destacava por sua amabilidade, disponibilidade, alegria e carinho pelas crianças menores. As Fraus lhe queriam muito e também lhe respeitavam muito.

Nietzsche



A sensação de não sucumbir na universalidade me impeliu para os braços da ciència rigorosa. Depois a nostalgia, de salvar-me da rápida alternância de sentimentos das tendências artísticas no porto da objetividade (J5,250)
(Nietzsche – Biografia de uma tragédia, Rudiger Safranski)


rigor alemão


Percebi que já a cerca de 60 metros ela parecia nervosa e me olhava apreensiva. Parecia incomodada e como que lutava por tomar uma decisão, reação que li nos olhos inquietos, quando já distava de nós uns 20 metros. Era uma mulher jovem, que trajava um comportado conjunto de saia, blusa e jaqueta, do mesmo tom creme, e sapatos pretos de saltos. Eu diria que trabalhava em banco, ou nalguma repartição pública alemã e que estava em pausa do almoço. Quando a nossa aproximação se intensificou mais, e a sua perturbação atingiu níveis insuportáveis, à beira de uma decisão súbita e tempestuosa, afastei-me um pouco para trás das duas crianças, de forma que ficamos em fila, arranjando-lhe um espaço para que passasse - no lado certo da sua mão de tráfego, desde que eu estava desaforadamente na sua linha preferencial. À partir desse exato momento, senti as linhas retesados do seu rosto relaxarem, precipitando até a formação de um sorriso e os olhos se desanuviarem, agradecida que estava pela continuidade da organização espacial do seu dia e relaxada por termos sido tão somente uma ameça projetada que por sorte não se confirmou.

o meu pé de araçá



O pé de araçá ao lado da estrada, havia que pular a cerca para alcançá-lo. Ficava a um canto e por certo fora gigante enquanto eu criança. Brinquei nos seus galhos, chorei e sonhei. Não sei se mais existe....Decerto viveu muitos anos. O pé de araçá que antecipava o milharal, guardou consigo a minha alma de criança.

José Bitu


o cinema


O cinema ficava na mesma rua onde morava, a uns 100 metros, um pouco antes da padaria,  a meio-caminho do loja do papai,  ou melhor a uma curta distância entre mim e o mundo. Não sei quantas vezes assisti aos filmes de Tarzan e do Velho Oeste, em preto-e-branco. Não lembro de outros filmes passando. Mas o que via, naquele cinema adaptado, era simplesmente maravilhoso.
Vó branca estava em casa, em pouco seria a última refeição, a do entardecer; algum tipo de sopa como de costume e pão, Vó me pediu que fosse à padaria, só que no caminho havia, entre mim e o mundo o acordo tácito, a encruzilhada, após cem metros existia...Tarzan voando pelos cipós entre as árvores, Jane branca e bela, as estripulias da sua macaquinha...Parei frente aos cartazes com cenas do filme. Parei e não resisti, com o dinheiro dos pães comprei o bilhete, sentei-me como um rei numa das filas, a sala quase vazia, depois me esqueci totalmente das horas, perdido numa daquela aventuras estonteantes do rei da selva. Até que as luzes acenderam, o filme terminou, le lá fora já era escuro.
Entrei pelas portas da frente, que como sempre só estavam encostadas, percorri o corredor escuro, até alcançar a sala enluminada e com vozes - o pai já havia chegado; apesar dos meus passos cuidadosos, querendo a custo puxar a escuridão sobre mim, como uma coberta, um dos irmãos me viu e de repente me vi frente a um tribunal. Onde estivera, onde estavam os pães, há tempo me procuravam, estavam todos preocupados...Com voz sumida, agora já com plena idéia da dimensão que tudo havia tomado, contei o sucedido. Em pouco tempo, o pai puxou o seu cinturão das calças e levei uma das surras inesquecíveis de minha vida.Segurava-me com um braço, enquanto me açoitava com o outro, permanecendo em um centro, enquanto eu rodava em círculo. Quanto mais apanhava, mais ficava em silêncio, sem chorar, o que aumentava a raiva do papai e em seguida a força com que batia. Eu não chorei.t

riacho do Machado



E quando chovia por dias seguidos, renasciam como por milagre os riachos. De repente lá estavam: riacho do Machado, riacho do Meio, Mocotó, riacho do Feijão, e da Fortuna... O riacho do Machado era tão somente um esquálido riacho na maior parte do ano, mas se chovia bem, virava valente e escandaloso. Passado o tempo das chuvas, perdia as forças e ia minguando, minguando, pouco a pouco se desnudando, até mostrar de todo e sem recato o seu leito branco...Dava pena vê-lo assim! Vezes sem fim como que perdia de vez as forças e quase morria. Mas de pena e novena era o que menos carecia aquele riacho, bastava que se ouvisse na barra os trovões, ou que chicoteasse os ares um relâmpago, de pronto estava ele lá, de tocaia, retesado e nervoso - era o seu espírito que nunca morria, e que o guardava nos dias de seca, seu rumo e seu prumo, de modo que com as primeiras águas era como um próprio arco que se diparasse em flecha, ou como um machado que se pusesse a limpar como louco as margens, pois passava derrubando arbustos, transportando troncos e tudo que estivesse ao alcance das aguas. Era como um vaqueiro que descesse correndo ate alcançar suas próprias águas, depois seguisse aboiando e enchendo a terra de magia. Enchendo as várzeas, ungia aquelas terras de fartura. O riacho do Machado era igualzinho ao rio Nilo.

José Bitu Moreno

construindo, vivendo


 
Por que escrevo?  A minha história é igual a de tantos outros, brasileiros, que de família humilde, com uma carga extra de esforço e sacrifício, conseguiram uma profissão estável e a possibilidade de dar um futuro também mais estável aos filhos, digo: uma profissão, a autonomia, a liberdade. 
O tamanho do pulo é relativo, o significado porém é o mesmo. E em todo esse diverso mundo, as histórias se repetem com diferentes roupagens. Heróis anônimos, encontros, desencontros, fatalidades...alguns finais felizes, mas uma grande maioria soçobrando frente a um destino mais implacável ou imprevisível. 
Muitas dessas histórias são enroladas como pergaminhos e guardadas em velhos baús ou gavetas empoeiradas - verdadeiras jóias, tesouros riquíssimos, não percebidos. Sabedoria que morre.
Mas o tesouro e objetivo final é a vida em si. E se vivemos e se podemos contar um pouco de nós, o que é mais uma manifestaçao da vida, como respirar, ou sonhar, por que não contar e dividir a nossa vivência como ora faço?
Divido também a solidão. A alegria. A dor. E nessa divisão, como quando se constrói uma casa, nos irmanamos numa aventura conjunta.

José Bitu Moreno

terça-feira, 1 de julho de 2014

a fuga




O carro já chegou?
A manhã nasceu chuvosa, para o nosso azar. Passamos a noite arrumando a nossa mudança em caixas, que as trouxemos com discrição, uma após outra, ao longo dos dias - do contrário descobririam o plano de mudança, ou de fuga guardadas as circunstâncias. O nosso advogado assim nos aconselhara, nada havia a temer, deveríamos pois agora abandonar de vez aquela casa, cheia de fungos, que alugáramos enganados e a ela ficáramos preso por um contrato mal intencionado.
A noite foi passada em claro, pois nos desfizéramos de muito nos dias anteriores e ficara apenas o mínimo necessário para se viver - nada de móveis, eletrodomésticos ou equipamentos eletrônicos, somente algumas caixas com brinquedos e pertences infantis; além de alguns produtos de extrema necessidade e as malas, que as arrumamos no mais completo silêncio; pois o casal de velhos do apartamento embaixo, os caseiros, nâo podiam nos ouvir.
Assim se foi a noite, eu me ocupei de início da nossa filha, Anna Carolina, de três anos de idade. Deveríamos brincar até que dormisse, mas crianças sentem no ar a energia dessas situações e só à custo e já tarde adormeceu; enquanto a esposa, Ieda, se ocupava das arrumações e dos cuidados para que o apartamento ficasse limpo e em ordem, dos quais logo também me ocupei, até que a manhã nos surpreendeu ainda firmes. De resto foi a espera. Interminável espera.
Na realidade esperávamos que nos deixassem ir em paz e que apenas nos observassem à distância, mesmo porque o nossa batalha era agora judicial.
Súbito o toque da companhia: chegou o Peter, nosso amigo alemão e de residência médica. Chegada a hora: iniciamos rapidamente a descida dos caixotes e das malas, a escada de madeira rangendo sob o peso e a velocidade dos nossos passos, três lances a vencer - depois a liberdade!
Mas antes da liberdade...a chuva se tornou mais forte e houve a chegada súbita do casal de proprietários - gritando, como loucos, a nos ameaçar, que a tal ponto não imaginávamos fossem capazes. Absurdo ato, extremada violência.
Peter se ocupou da nossa Anna, protegendo-a, enquanto continuamos, sem interromper em nenhum instante a nossa lida, sem nos afastamos da nossa meta - objetivo maior do casal, soltando ódio, desfiando impropérios, com um alemão que já não entendíamos, enquanto prosseguíamos firmemente no ir e vir rápido pelas escadas, o carro de passeio já se atulhando de coisas, a chuva caindo impiedosa, a proprietária anotando dados, examinando as caixas, sugerindo a possibilidade de que estivéssemos roubando.
Prontos.
Hora de partirmos - dentro do carro, portas fechadas, vidros erguidos, a nossa filha a um canto assustada, batidas de  punho contra a lataria, partida do carro...carro que parte...que partiu...que nos levou para bem longe daquele inferno - o alívio, as lágrimas nos olhos, o espanto pela violência de como tudo se passou, mas a satisfação do combate vencido...o carro seguindo estrada afora - liberdade adentro, rumo a uma outra casa, a um outro começo, cruzando o centro antigo de Freiburg, do outro lado do mundo, para uma outra forma de vida !!!

José Bitu Moreno

na rampa do Pronto Socorro



Na rampa do Pronto Socorro uma velha ambulância para, o motor resfolegando como um animal cansado. Das portas traseiras - que rangem como as de um velho guarda-roupa - um paciente é despejado. É um caminhão adaptado, quente e desconfortável - essas as ambulâncias que transportam vidas entre hospitais do vasto interior do Brasil.
Um conhecido, ao voltar numa dessas ambulâncias após seção de quimioterapia em outra cidade, foi ejetado para fora de carroceira durante um solavanco, e caiu surfando de costas na maca rasteira pelo asfalto abaixo.
Sobreviveu ao acidente e à leucemia.
Sobreviveu às estradas bexiguentas do Brasil, repletas de buracos.
Esses velhos furgões, chamados de ambulâncias,  transportam a incompetência e a irresponsabilidade de um lado para outro, tratando  os cidadãos como objetos a serem descartados, problemas a serem transferidos, camuflados, despejados.
Gestores públicos do Brasil cumpri com as vossas obrigações de proteger e de cuidar dos cidadãos brasileiros !!!
A urgência e  a emergência de cada município, é de vossa responsabilidade. Ao transferi-las de uns para os outros, enchei as nossas estradas de cruzes e de covas rasas!


José Bitu Moreno

sábado, 28 de junho de 2014

a onipresente serra Negra



Do terraço de casa se descortinava a serra Negra. Minha mãe cantarolava a história de um canário da serra, que um dia fora preso numa gaiola, e daí nunca mais cantou, até que morreu de tristeza. A rede balançava-se ao compasso da música. Eu relutava contra o sono, viajava com misto de medo e encanto pelas trilhas e segredos daquela serra tao próxima e ao mesmo tão distante, a serra Negra, a serra dos meus primeiros sonhos...
Serras haviam outras: Charneca, Crioulos... Na Charneca sucedeu que um marido enciumado foi enterrar os pedaços do que foi a sua amada. Matou-lhe inocente, por isso que do chão brotou, no lugar onde a enterrou, uma capela branquinha como se de anjo, como o peito canoro do passarinho que lavava as roupas de Deus. De lá se divisava o vale. De lá, à beira de uma estrada que riscava a serra como se giz, sentava-se por horas a fio Maria, que um dia foi de Bil, mas que agora era de todas as mulheres a simbologia, do sacrifício.

José Bitu Moreno

como assim, Morin?

Como assim, Morin?
Como assim?

Assim, efetivamente, o chefe do rebanho, o carneiro, julga que continua a comandar o rebanho que dirige, quando na realidade, obedece ao pastor e finalmente à lógica do matadouro
(Morin, E. Ciência com Consciência)

vida cigana



Já era a minha cliente há alguns anos - mulher ativa, idade beirando os 50 anos, morena, que frequentava ativamente academias de ginática e procurava de todas as formas possíveis conservar-se bonita, contra o desgaste inconsequente do tempo. Então, cerca de 3 vezes no ano, procurava-me no consultório para tratar de suas varizes ou pequenos vasinhos nas pernas. Afora isso trazia-me por vezes o marido, ou a filha, ambos com problema de circulação, porém de outra natureza.
Como não tinha um problema de saúde específico, digamos mais sério, conversávamos sobre assuntos variados, porém nunca nos orientamos para a sua vida particular. Até que um dia, dezembro, indaguei como seria o seu natal, se festejava na casa dos pais, se eles ainda eram vivos.
-Não tenho pais, Doutor – continuou – não os conheci; nem avós, nem tios, tias, nada. Sou uma pessoa sem passado.
- Como assim? - perguntei surpreso.
- Fui deixada na porta da casa de uma família, que me criou. Na época passava uma troupe de ciganos por aqui. Acho que sou filha de ciganos e a minha mãe adotiva assim também pensava.
- E o que acha de tudo isso? - perguntei.
- Eu gosto muito de dançar, adoro o flamenco, uso roupas meio extravagantes, muitos colares,  por isso acho mesmo que tenho sangue cigano. Gosto disso. Mas como estava falando, esse casal me criou, acho que me deram amor, tinham uma outra filha, mas sempre procuraram nos tratar da mesma forma. Aos 13 anos saí de casa, que era um sítio, e vim para Marília trabalhar. Meu primeiro emprego foi de babá na casa de um médico, que o senhor conhece. Trabalhei lá 2 anos. Um dia fui com uma amiga à casa do seu namorado, e lá conheci o irmão dele, que ao me ver foi logo dizendo: - “Um dia me caso com essa magrela”. E se casou, Doutor, nos casamos, tornei-me a sua esposa, e foi em pouco tempo, um ano depois.
- Mas vocês não eram muito jovens?- Dois adolescentes, doutor. Não tínhamos nada, ele também era de família humilde; trabalhamos duro no início, numa casa de jogos; eu passava a noite limpando o material do bingo, as bolas de bilhar, os tacos; mesmo quando já estava com gravidez bem adiantada, enquanto ele comandava o negócio. Tivemos duas filhas. Aos 20 anos já era mãe experimentada.
- Não, não era infeliz, não fui, não sou. Às vezes é difícil buscar uma referência familiar e enxergar somente o escuro, o fio quebrado, interrompido...Mas eu construí uma família, as filhas tornaram-se adultas, casaram-se e já me deram netos. Somos muito unidos. Crescemos também em grau social, nosso negócio deu certo, ganhamos bastante dinheiro, de forma que sou uma dama da sociedade, até certo ponto, porque na verdade somos muito caseiros e não damos atenção para as badalações. Esse é um pouco da minha história”
Enquanto falava, senti o quanto não conhecia daquela vida, que já há muito me procurava, em intervalos regulares, para o tratamento das varizes.
O movimento subterrâneo, a seiva escondida, a emoção emudecida, o vasto palco da tragédia humana soterrado – como podemos tratar os outros se não ultrapassarmos sequer a superfície esmaltada, buscando-os por detrás das palavras?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

a bem da verdade




A qualquer momento posso feder, meu amigo.
Veja, por detrás de toda essa impostura, sou suor, fezes e morte. Soa deselegante, eu sei. Mas você é capaz de também ver?
Veja essa senhora, ela pouco a pouco se desmancha, se derrete, literalmente cai.
Veja ao seu redor, a poeira de células morta, que lhe acompanha como borboletas.
É capaz de ver?
Lembre-se amigo, que do pó viemos e ao pó volveremos.
Lembre-se do barqueiro, que outrora foi forte, belo e imortal.
Ô fedido imperdenido, baixa a bola, se toca, e rápido, que a vida passa!

José Bitu Moreno

Nietzsche



Oh, tolos e enlouquedidos pelo, que não existe senão em vossas cabeças! Eu vos pergunto, o que fizestes? Quereis ser e ter o que esperais, o que perseguis, então fazei isso !
(Nietzsche – Biografia de uma tragédia, tradução: Rudiger Safranski)

no trabalho - assim deveria ser


Não ver também significa ver, porém acrescido de violência.
Não ver é o mesmo que não respeitar o outro.
Sorri condescendente, enquanto o outro se arrasta por um caminho, que você poderia tornar mais fácil, é pura mesquinhez.
Homens não são objetos que se riscam ou se apagam de uma folha. Não é tão fácil assim, e parece que estou recitando uma cartilha, de tão antigo que tudo isso é.
Chegar até o outro, esse é o ponto. Abrir as cortinas, ultrapassar a resistência inicial, e saber o que se passa. Ou apenas lhe cortejar de longe, protetor, aguardando a oportunidade de trazê-lo para a mesma estrada.
Cada um é rei, tem a sua história, o seu lar, uma esposa que lhe ama e filhos que lhe adoram. Cada um, rodeado por uma aura de dignidade, construiu o seu caminho e edificou o seu lar.
Atenção, gestores, patrões, gente que manda de uma forma geral: há que se ajudar a manter ou a reerguer a dignidade dos que lhes cercam e de alguma forma são seus dependentes.

José Bitu Moreno

quinta-feira, 26 de junho de 2014

a loucura necessária


Em Oberursel uma velhinha anda descalça pelas ruas, com trajes mínimos, coloridos, velhos de tão repetidos, arrastando um velho e obediente cão atrás de si.
A que mais se assemelha?
De bem distante,  com o seu exotismo, talvez  queira personificar uma índia, o sonho de algum lugar distante...uma ilha de pessoas livres, extravagantes, diferentes...onde o sol brilha todos os dias e as pessoas são menos egoístas e materialistas...
Anda que anda pelas ruas, entra em todas as lojas, sempre com um sorriso nos lábios, o cão sorrindo igual, tirando os outros da rotina, que por isso a repelem...talvez por que os faz lembrar dos seus sonhos de há muito adormecidos.

parodiando Dante



Há uma árvore frondosa na estrada, com boa sombra, e agora é hora de descanso. Não o descanso da vida, mas o da rotina, o das participações. Há muito tempo me distanciei de mim mesmo, e de alguma forma venho adiando esse reencontro. No silêncio da sombra, em contato com a natureza, talvez eu me obrigue de vez a me tornar o ser humano que tenho por direito ser, desprovido das redes de mentiras, em que apoiei minha vida.

José Bitu Moreno

sobre a humildade intelectual



          Amigos leiam essa preciosidade extraída do livro "Em busca de um mundo melhor", do grande filósofo Karl R. Popper, sobre conhecimento e ignorância. Depois de lido, respondam por favor essa pergunta: há espaço nesse mundo para a arrogância?
         "Todos os grandes cientistas foram intelectualmente modestos, e Newton fala por todos ao dizer:
         "Não sei como pareço para o mundo. A mim mesmo pareço um menino brincando na praia. Divirto-me em apanhar aqui e    ali um seixo mais liso do que os outros, ou uma concha mais bonita - enquanto o grande oceano da verdade se estende à minha frente inexplorado."
          Einstein chamou sua teoria da relatividade geral de um vôo de efemérida.
          E todo grande cientista enxergou que toda solução de um problema científico provoca muitos outros problemas não solucionados. Quanto mais aprendemos sobre o mundo, mais consciente, mais detalhado e mais exato se torna nosso conhecimento sobre problemas ainda sem solução, nosso conhecimento socrático da ignorância. A investigação científica é, com efeito, o melhor método para nos pôr ao corrente de nós mesmos e de nossa ignorância. Ela nos conduz à importante noção de que nós, humanos, somos muito diferentes no tocante às ninharias das quais talvez tenhamos algum conhecimento. Mas em nossa infinita ignorância somos todos iguais."

José Bitu Moreno


história de uma brava corveta que zarpou para salvar náufragos na isolada Antártica



Numa fria manhã de outubro zarpou a corveta rumo aos mares austrais.
Do continente gelado trouxe vidas, a pequena corveta Uruguay hoje museu
a se balançar nas águas do Prata;
As pequenas marolas que lhe batem no casco, o cantar casual dos pássaros nas margens
O bater de remos de esportistas nas águas - nada nem de longe lembra o vigor, o destemor
O ranger das madeiras contra geleiras, o jogar-se impetuoso contra as ondas
Pelos mais frios, traiçoeiros e tempestuosos mares
Até o estreito Bransfield no mar de Larsen,na Ilha de Snow Hill, começo do fim do mundo;
Foi, voltou, destemido, trazendo a tripulação salva, herói do impossível
Mas agora só se balança, de leve, dançando no dorso camarada do rio
Poucos dos turistas que nele entra sequer imagina o que um dia foi.

José Bitu Moreno

vivenciando o primeiro trabalho



             Pelas calçadas desviava-me deles, "os carreteiros" como eram indevidamente chamados, porque descarregavam e carregavam as carretas. Eles passavam em passo apressado, pois que forçads pelo saco de sessenta quilos que traziam na cabeça. Trajavam bermudas feitas da própria sacaria dos cerais, andavam descalços, com os torsos nus, suados, cheirando a pinga, em eterno vaivém, do escuro dos armazéns aos caminhões estacionados em fila. Contratados por serviço ou com trabalho fixo, montavam e desmontavam pilhas de sacos de cereais ou de caixas de mantimentos.
             Esses trabalhadores buscavam a necessária energia às custas de cachaça, enquanto alimentavam-se mal e inadequadamente, fazendo-os presas fáceis de doenças, que mais implacáveis que o tempo, diminuíam as expectativas de vida. De dentro do armazém, atendendo no balcão, por vezes no caixa, outras vezes embalando cereais, eu assistia a tudo assustado e me sentia profundamente deslocado. Aos sábados, o movimento de compras era maior, trabalhava-se desde sete da manhã até dezesseis ou dezessete horas, com intervalo exíguo para o almoço, normalmente um lanche rápido no boteco sujo da esquina.

José Bitu Moreno

na rua do meu primeiro trabalho



      As prostitutas passavam vendendo café e chá, em bules que carregavam sobre estruturas de madeira amarradas às cinturas. Eram mulheres envelhecidas precocemente, com os corpos marcados por sucessivas partos -“buchos quebrados” como se dizia - porém amigas dos homens também sofridos; solícitas e compreensivas, eram como flores de humanização naquele ambiente por demais árido.

José Bitu Moreno

a mudança da família



Mas enfim chegamos ao novo lar: a casa amarela de esquina na rua Monsenhor Otávio de Castro, com um grande quintal aos fundos. 
E Fortaleza foi para mim um novo e complexo mundo: cidade grande, anonimato, acentuação extremada de contrastes, como um botão que se roda e o claro-escuro vai se evidenciando mais e mais, os contornos tornando-se bem mais nítidos - rico versus pobre, bonito versus feio, interior versus capital... A escola, a nova escola, era um pequeno retrato acabado da sociedade: diferença social, consumismo e preconceito.

José Bitu Moreno

sobre a cidade onde nasci


             Ao longo de anos a cidade quase não cresceu, pois muitos dos jovens que dela saíram jamais voltaram, espalhando-se pelo Brasil, concentrando-se mais nas capitais, retrato óbvio da migração interna para regiões onde se acumulam mão de obra e diversidade de campo de trabalho.
             Mas assim como pássaros, como as andorinhas que em vôos sazonais enchiam de movimento e leveza os ares da igreja matriz, recatada e sisuda em sua imobilidade, esses estudantes voltariam sempre, de onde estivessem, de acordo com a saudade maior, ou a qualquer descuido do tempo, de praxe no mês de agosto, para a festa do padroeiro. Foi essa enfim a sina da cidade: ser o berço, vê-los crescer e partir, e alegrar-se sempre com os retornos.  
             No percurso que fiz naquele dia para o ginásio onde estudava, sequer imaginei as mudanças que estariam por vir. Na verdade estava se completando a volta da roda, da qual eu fazia parte, a ciranda da vida para qual os habitantes daquelas cidades interioranas desde cedo se preparavam,  e foi assim conosco - papai casou-se com Ilka, filha de uma família de agricultores, juntos tiveram oito filhos (cinco homens e três mulheres), esses teriam que estudar, necessariamente, até terem um diploma de nível superior. Meus avós, pela parte de pai, haviam feito o mesmo - mudaram-se para Recife com oito dos seus filhos (um ficou, o meu pai). Assim, havia chegado a hora, teríamos que mudar de cidade.

José Bitu Moreno

geografia da loucura

             Ele cantava, em voz de tenor, músicas antigas sobre amores desfeitos e  outras dores da vida. Dizia-se que foi muito bonito. Quando saía A passear pelas ruas da cidade, nos dias de mansidão, trazia os cabelos lisos penteados para trás, sob efeito do gel “Brilhantina”, muito usado na época e vestia um paletó branco, com cravo na lapela. Contava-se ter sido aluno brilhante que alcançou os bancos da faculdade, quase um doutor, quando a imprevisibilidade do destino o traiu e os livros, portas do saber, levaram-no ao turbilhão misterioso da loucura.
             -“Cuidado com os livros, quem muito lê, quem muito estuda, pode enlouquecer!”
             Assim se falava, comentando o caso. Perdeu-se, pois, nos labirintos que a sabedoria esconde, sendo cuspido depois como um inválido.

José Bitu Moreno

o relógio do tempo



             Nos terreiros, soltos e em bando, o martelar interminável dos capotes, ou galinhas d’angola. Relógio daqueles dias quentes, tique-taque acentuando o calor e a inércia das horas. O tempo espreguiçando-se em frondosa sombra, dava idéia de não passar.

José Bitu Moreno

saudades




De quando chovia e o trovão fazia a terra tremer;
do entardecer;
Das noites de lua cheia, quando a família se reunia;
Quanta falta faz, quanta falta.

José Bitu Moreno

Guimarães Rosa 2



Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.

Guimarães Rosa, Grandes Sertões: Veredas

sobre a morte e a medicina


             Mas o que vinha a ser a morte? Como lidar com ela? Se era tão presente no nosso dia a dia de estudantes de medicina, por que não nos preparavam para lidar com ela? Como cuidar somente da vida se a morte a ela está intrinsecamente ligada? Jogavam-nos assim ao seu contato, insensíveis aos nossos sentimentos e emoções, como somos jogados aos cadáveres formolizados nos porões dos cursos de medicina.

José Bitu Moreno

Pronto Socorro de uma grande cidade



             Mas, junte-se o trágico, o absurdo, o monstruoso da vida em sociedade e da própria condição humana, junte-se a isso medidas heróicas, júbilo extremo e a mais profunda tristeza ou desespero...O Pronto-Socorro de uma grande cidade. Uma cena?  Um jovem morto, deixado na maca a um canto, com o corpo mutilado por múltiplas fraturas, que deixaram as pernas em posição de bailarina...a um canto, só, na solidão da morte...

José Bitu Moreno

pela dignidade da vida


Grande parte dos que lá trabalhavam, não tinha como enfoque o homem, a pessoa, mas a doença, o tipo de urgência, os procedimentos técnicos. Muitas vezes fiquei em temerosa espera naqueles corredores e salas vazios esperando o barulho da sirene, o correr apressado de macas, o corpo ensanguentado, os membros da família apavorados, o murmurar incompreensível da vítima misturado a cheiro de pinga... Muito me marcou a pobreza, a tragédia vária, a crueza e a comicidade de situações que igualhavam o homem a estúpidos objetos à mercê do destino desgovernado e marginalizado. A indiferença e o  descaso eram o escudo dos responsáveis pelo cuidado.

José Bitu Moreno

quarta-feira, 25 de junho de 2014

no dia das mães







Meus amigos quero hoje render minha homenagem às mães. Sou um pai, mas reconheço que a maternidade é o mais próximo do divino que existe. Eu me rendo a isso e reverencio e me afasto um pouco, dou passagem, para que os meus filhos sejam banhados pela maravilhosa luz da maternidade. Porque antes de tudo, desde quando tudo começou, sou um filho, recebi o amor incondicional de uma mãe, que me tornou humano, e, como tão bem falou André Comte-Sponville:
"Antes do homem, ou seja, antes de um ser humano qualquer, há uma mulher. Sempre. O pai? A rigor, seria possível prescindir dele.....É frequente não o conhecer, ele mesmo ignorar sua fecundidade, sua paternidade, sua descendência.....
Com a mãe é diferente. Como todos os mamíferos ela não se contenta em transmitir a vida: acolhe-a, carrega-a, nutre-a. Como ela poderia ignorá-la por completo? Entre os humanos, deverá proteger o bebê - às vezes, inclusive, contra o pai - durante anos, niná-lo, consolá-lo, lavá-lo, amá-lo, falar-lhe, escutá-lo, educá-lo...A humanidade é uma invenção das mulheres. Mesmo em nossas sociedades modernas, a mãe quase sempre é o primeiro amor e às vezes, o último. É porque foi ela quem primeiro amou.
Note que pouco importa se se trata ou não da mãe biológica....Uma mãe adotiva é uma mãe. Uma mãe biológica só é realmente mãe pelos cuidados dados, pela atenção, educação, pelo amor"....Mas mesmo assim, mesmo ignorando tudo sobre os filhos (se os abandonou, se os tomaram dela)", continua Comte-Sponville, "não pode ignorar que os carregou no ventre e os colocou no mundo. A maternidade está inscrita em seu corpo (enquanto a paternidade só o está em papéis ou genes). Ser pai é uma função inicialmente biológica e depois simbólica. Ser mãe, uma função fisiológica, alimentar, vital. O pai é biologicamente necessário. A mãe, ou uma mãe, humanamente quase indispensável".
O que mais posso falar?

José Bitu Moreno

saudades do meu pai

Transportando-me no tempo para o momento em que ora escrevo, quarenta anos depois, sinto muito a falta daquele que preenchia de sentido os momentos vividos - o meu pai - que se foi em janeiro de 2003, com setenta e três anos. 
Adormeceu, simples como veio ao mundo, sem nenhum adereço especial, sem nenhuma riqueza material acumulada. 
Foi enterrado com o terno surrado, sapatos já gastos, e eu o observava sem entender como a morte podia apagar uma vida tão densa assim - como se apaga uma vela. 
O sopro súbito tornando o corpo imóvel, tão pequeno para o tamanho que foi em vida; tão estéril para  as tantas vidas que alimentou. 
Talvez tenha ido realizado, com os filhos educados e bem encaminhados. Talvez tenha até antecipado a hora, de tão cansativa e atribulada a vida.

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 8



Do alto de Santorini, observando o mar, o barco que o singrava
Aos poucos se distanciando, sumindo no horizonte
Restou somente a vela, diminuindo, se perdendo no mar azul:
O barco, a vela abanando e o adeus se demorando.

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 7



Quer ver um barquinho mais leve, mais lépido, que ao sopro do vento
Flutua como um papel?
O balanço das ondas, o perfil das águas, o risco sinuoso do mar?
As igrejinhas brancas e azuis dependuradas nas escarpas?

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 6



A menina ao sol
O sol invadiu o céu, povoou a Terra, coloriu as casas
O sol riscou um sorriso de ponta a ponta na barra

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 5



Na Grécia o peixe voa  
O pássaro mergulha
O azul a tudo confunde
E o espírito da Terra dança
O sol, a rosa, a borboleta
Vertical seiva da vida
Explosão de vida.

José Bitu Moreno

viagem a Grécia 4



Do alto, o mar prateado, 
vontade de deitar nesse grande mar
Puxar a coberta azul-metálica e repousar.

José Bitu Moreno


viagem a Grécia 3



Do porto, os degraus de Santorini dão no céu
Lá no alto, agarrado nas nuvens, flutuando feito pássaro
O homem feliz.
Embaixo, o vento forte, sem descanso, chicoteando as ondas
Liquidificando o ar


José Bitu Moreno


viagem a Grécia 2



No espaço azul, sem nuvens
entre o céu e a terra
um avião levanta vôo
pula na imensidão
Tanto azul, tanto


viagem à Grécia 1



       "O azul do mar e do céu, porto de Santorini;
O navio Aída pousado na baía, à nossa espera;
No porto, casinhas brancas alinhadas;
Embarcados, logo o mar ficou bravo
De muitas ondas encarapitado; de muito vento ensandecido;
E o navio em velocidade cortava as ondas e voava;
Furava o mar como espada
Até a chegada em porto firme, Mykonos dourada -
Sol, céu, mar, pássaros, alegria
Margaridas roxas e casas de branco caiadas
O sol espalhando o azul do mar"

José Bitu Moreno

terça-feira, 24 de junho de 2014

reféns da Medicina



"Estou em um ambulatório de cirurgia especializada. Pode ser em Frankfurt, em Freiburg, em Marília, em qualquer lugar dessa Abendland. O médico, que se protege em sua sala, manda chamar os pacientes, um após o outro. O paciente já chega temeroso, em ambiente hostil, longe de suas referências. O médico, sem que ao menos o encontre nos olhos, direciona-se para a parte de seu corpo que geme, conversa em código com esta, tentando enquadrá-la em alguma de suas fórmulas para diagnóstico. A doença é então ajustada em uma das fórmulas, transformada em número, e acionada numa viagem por entre diversos aparelhos. O paciente levando a sua parte doente, entra nessa ciranda como se fosse uma máquina também, rodopiando como um objeto, numa viagem pela tecnologia e pelo descaso, de onde vai sair com um laudo, confirmando o diagnóstico e indicando uma causa. Próximo passo, também orientado por uma fórmula: o tratamento. Óleo diesel ou mudar de peça? Tem como reparar, doutor? O tratamento é para a parte que geme, não importando o resto da carcaça. E agora, já que foi feita a receita, entrega-se ao preenchimento de papéis. O paciente, como uma máquina, vai para casa, guardando na memória o nome da doença, que passa até a exibi-la, como uma placa, e numa sacola os medicamentos. Após uma satisfatória mas breve melhora, a doença recrudesce, é clara, desde que não fora sequer compreendida em sua complexidade e multicausalidafe. O paciente volta ao consultório, é novamente enquadrado, protocolado, medicado, melhorado; enfim, tudo se reinicia, repetindo-se o ciclo, e a doença tranforma-se em processo crônico, que se auto-alimenta, e se reproduz continuadamente. O homem, o paciente, torna-se refém da doença e da medicina."

José Bitu Moremo