quinta-feira, 19 de junho de 2014
as ruas de pedras
" A rua de pedras Major Joaquim Alves, em Várzea Alegre, onde nasci, era a mesma Kaiser Josef Strasse em Freiburg, onde eu morava. Uma era a continuação da outra, por elas passaram, e passam, a mesma procissão de almas, as mesmas urnas funerárias - caixões, caixotes azuis de crianças mortas, anjinhos, passando, relembrando a pergunta, refazendo a questão.
- Para quê? Por quê? Para onde?
O arcabouço era outro, as lapidadas culturais me fizeram um vaqueiro disfarçado, enquanto ali, em plena Europa, uma poeira de letras acompanhava os passos das pessoas, letras que o vento levava, como folhas, e que depois secavam ao sol em algum parque. Para que serviram, o que trouxeram, o que contribuiram para a felicidade daqueles que as buscaram sedentoss e depois deixaram as bibliotecas vaidosos? Contribuiram para que se tornassem mais virtuosas? Tornaram-se mais sábias as pessoas, mais felizes? Ou os livros somente as levaram, apressadas, para as seus bunkers - refúgios de solidão, silêncio e hipocrisia?
As maravilhas da civilização e da tecnologia. Futilidades!
O terno que então usava no salão da casa de óperas, mal disfarçava o antigo de algodão barato. Mas o que isso importava? A rua Major Joaquim Alves era a mesma Hohemarkstrasse, em Oberursel, onde levei as crianças para a escola.
Tentei me iludir, fazendo-me crer que estava no grande palco de um mundo civilizado, onde somente em ali se estando, tinha-se o passe para um paraíso de vida ética, decente e feliz... ingenuidade, ilusão. De noite, quando dava-me olhando as estrelas, era como se estivesse contemplando a ampla e inesquecível noite do sertão."
José Bitu Moreno
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