quinta-feira, 19 de junho de 2014
nas noites de lua
" Nas noites de lua, acendia-se grande fogueira para afugentar as muriçocas. Os adultos sentavam-se na calçada para conversar, e as crianças brincavam de esconde-esconde, adivinhações, e cantigas-de-roda, meninos e meninas, repetindo os diálogos cantados, cantigas tristes de tão belas, que pareciam até mesmo, no feitiço do momento, roubar de cada um, cada vez que as cantasse, bocadinho a mais da infância. Dentro de casa, lamparinas de querosene ardiam afastando as sombras. Ao redor das chamas, besouros diferentes voavam em círculos, de forma caótica, barulhenta, trombando-se entre si, nas paredes, e recomeçando depois do chão. Na escuridão, pegávamos vagalumes com as mãos e os colecionávamos por dentro da camisa abotoada.
No mato, em noites de inverno, onde brejos se formavam, cantavam grilos, coaxavam sapos, de todos os lados e de todas as vozes. Alguns, os sapos-cururus invadiam os terreiros e por vezes se aventuravam em casa, olhos esbugalhados, o papo bojudo e flácido enchendo e secando como fole, dizia-se até que o seu mijo podia cegar. E dos pássaros noturnos, o medo, medo quando se ouvia o cantar solitário de uma coruja, medo do seu vôo rasgando mortalha; medo das histórias de trancoso, contadas a meia voz - as crianças deitadas em redes que se entrecruzavam, silenciosas, olhos arregalados, cruzando os dedos, e puxando as varandas da rede sobre o corpo, para se protegerem das almas penadas que rastejavam pelo chão. Depois era o sono profundo, embalados pela chuva varando a madrugada, até que o despertar das vacas nos currais, precedido pelo cheiro de café vindo da cozinha, nos acordava para um novo dia."
José Bitu Moreno
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