Eu nasci do ventre duma manhã nebulosa; chorei cada tantinho de cor que me foi tomada, cada sorriso perfeito que feneceu, cada possível amor que nunca tornou-se.
Trago nas lembranças a noite remota- do que fui, do que fomos, o chão de barro, a fome, a desesperança...isso não se desanuvia com o sol, com o brilho; isso não se apaga, mas se prolonga - vida afora, estrada adentro. Mesmo porque nunca me acostumei ao forte sol - me faz confuso, inquieto, impulsivo;
Não sou normal, não poderia ser; não sou feliz, nem vou ser; como poderia com essa vida a toda hora aviltada, desmembrada, se privando de cores?
Casei, tive filhos, fiz amigos e tento não espalhar dores, tento forçar o riso, tentei, espero ter conseguido.
Nasci numa manhã chuvosa, ao pé da serra - negra e silenciosa.
Fugi para o mundo, ou fui levado, sendo sempre estrangeiro, sempre exilado.
Dos meus silêncios, das minhas pausas, como solo negro, espero ter gerado sementes de luz.
Da chuva que me molhou, como solo seco, espero ter gerado cores.
Espero ainda viver, muito, mas desta vez me aceitando como sou, por mim mesmo - o passageiro alheio, o inculto, o triste, mas compassivo, obstinado, e generoso.