sábado, 31 de maio de 2014

Consultório 2

Ela sofria violência, a senhora, a pequena.
Lenta no falar, face inexpressiva, ela continua como se rezasse:
Nas primeiras agressões era intimidada com duchas de água fria
no corpo e na alma;
Com o tempo vieram as lesões corporais - diretas e brutais.
O filho a tudo ouvia, presenciava, sofria, virou autista por necessidade.
Separaram por fim: há oito anos, depois de muita luta.
Enfim liberta, feliz?
Pronta para uma nova vida?
Sim, não, já foi tarde, já havia se perdido na densa e escura floresta do sofrimento.
O filho? Perdeu também o prumo, e a referência.

Homenagem póstuma

Acordei e logo saí para a caminhada; na próxima esquina encontraria o Tião, que com um sincero e acolhedor sorriso me saudaria.
Cruzei a esquina, olhei de lado - a revistaria, a quitanda, a barbearia...onde o Tião?
O pequeno homem, de nariz adunco e sorriso fácil, por onde andaria? Segui o caminho, a cidade continuava - mesmo sem Tião - nada faltava, os passos se sucediam, pássaros cantavam...
Algo tingiu a face impávida da manhã?
Nada, no seu rrecurso infinito de sempre voltar a ser - a mesma.
Mas como um incômodo, o Tião faltava.
Ah, fugidia memória, alguém me contara:
- O Tião morreu!
- E na esquina tudo continuava normal - o armazém, a quitanda, o jornaleiro?
O Tião como uma folha que caiu, esgotou sua serventia, o vento o levou, foi ser alimento do mundo, do universo.
Aqui deixo a minha vênia, ao pequeno Tião, o barbeiro, e um ajuste -
- A sua digital riscou, tingiu a placidez da manhã, não se percebe, é assim mesmo, são os nossos olhos que não conseguem ver.

Enquanto isso, no trabalho

Não é tanto a perseguição- é mais a falta de perspectivas, a escuridão;
A hostilidade até fere, mas não tanto quanto a destruição gradual da auto-confiança;
O que a perda financeira poderia causar em nada equivale à indiferença institucionalizada;
Não é a prisão - mas a falta de janelas que possam ser abertas;
Não é a desmotivação - mas a falta de estímulos, de esperança semeada;
Sem educação, sem oportunidades, morrem as  potencialidades, embota-se o crescimento;
Fica-se assim  prisioneiro - do desencanto, do ócio e do tédio;
Não por que  se quer, por que se gosta, mas essa inércia é lodosa, é grudenta - paralisa, imobiliza;
Porque a ausência de governo é perversa -como o abandono, a desistência - bem mais do que a truculenta presença;
Quando não a ausência - o despreparo e a incompetência  de quem governa- essa é virulenta, dissemina e cega
Vive-se assim -nos locais de trabalho, nas instituições públicas, na vida vivida, em todos os seus ciclos...
Vive-se assim no Brasil
(José Bitu Moreno)

self

Eu nasci do ventre duma manhã nebulosa; chorei cada tantinho de cor que me foi tomada, cada sorriso perfeito que feneceu, cada possível amor que nunca tornou-se.
Trago nas lembranças a noite remota- do que fui, do que fomos, o chão de barro, a fome, a desesperança...isso não se desanuvia com o sol, com o brilho; isso não se apaga, mas se prolonga - vida afora, estrada adentro. Mesmo porque nunca me acostumei ao forte sol - me faz confuso, inquieto, impulsivo;
Não sou normal, não poderia ser; não sou feliz, nem vou ser; como poderia com essa vida a toda hora aviltada, desmembrada, se privando de cores?
Casei, tive filhos, fiz amigos e tento não espalhar dores, tento forçar o riso, tentei, espero ter conseguido.
Nasci numa manhã chuvosa, ao pé da serra - negra e silenciosa.
Fugi para o mundo, ou fui levado, sendo sempre estrangeiro, sempre exilado.
Dos meus silêncios, das minhas pausas, como solo negro, espero ter gerado sementes de luz.
Da chuva que me molhou, como solo seco, espero ter gerado cores.
Espero ainda viver, muito, mas desta vez me aceitando como sou, por mim mesmo - o passageiro alheio, o inculto, o triste, mas compassivo, obstinado, e generoso.

Instantâneo 3 - de uma notícia no jornal

Svetlana morreu mês passado numa pacata cidade do interior
dos Estados Unidos - quem diria?
A antiga princesinha russa, voluntariosa; a de muitas pernas e mil ardores; a que provocou furor e  colecionou rumores; a rebelde, que a paixão dilacerou ??
- Quem diria!
Pelo Amor proibido, mudou de país,  abandonou o reinado - laivo de humanidade?
Pois sim, daí o mundo vasto e as muitas pátrias.
- Foi feliz? O que lhe faltou?
A tão sonhada narrativa em vida

Instantâneo 2 - em algum momento no tempo

Em Santana do Livramento, o rio Ibirapuitã agoniza
No outro extremo do Brasil,  o riacho Machado nesse ano está farto, confiante, altaneiro
O mesmo que tantas vezes teve o fim anunciado

Consultório 1- Carmencita


Ainda guardo o seu perfume nalgumas roupas - não é fácil, seu doutor, desta dor ninguém me cura. Recordo a primeira vez que o vi -a sedução, a malícia, as armadilhas para o reter, e o tão grande amor daí nascido.
Não me deixava tarefas grosseiras; saíamos muito - festas, bares, risos, bailes - alucinados pelo céu estrelado de Sampa. Ah, como nos amávamos...
Até que a morte invejosa o levou. E eu lhe culpo tanto, tanto por isso. Culpo por ter sido tão bom. Culpo por ter me deixado amá-lo tanto. Culpo porque também me amou, me fez feliz. Culpo enfim porque me deixou...assim, do nada, sem ter combinado, no erguer do brinde, em meio ao sorriso. Morreu o amado, o ingrato.
Raiva. Amor.
Melhor que não me tivesse feito tão feliz...ou tendo morrido, melhor que tivesse partido de vez. Mas não partiu, ficou!!!
Ficou em mim intensamente. Eu que morri, resto de vida...sem espaço para outro amor que pudesse negá-lo, matá-lo, e me trouxesse de retorno a vida.
Não, ódio não, não o rancor, somente a dor continuando, doendo - como membro fantasma.
Somente o amor.
Ah, como ainda o amo!!!!!!!

Instantâneo 1

Ventou a noite inteira desfolhando as árvores e continua pela manhã. O sol já brilha adiantado, dourando o pasto seco, ressecando o esterco do gado. A gabiroba quase desfolhada emoldura o horizonte, que se recosta à serra, bronzeando-se com os raios matinais.
A noite passou sem que eu notasse.
Um cavalo campolina pasta descompromissado, dorso castanho claro, luzidio; com o rabo espanta as moscas e o calor.
Lembro do pé de Timbaúba na velha casa de esquina em Fortaleza onde morei.
Setembro quente.
No pasto, o capim plantado daquele que o fogo desperta a semente adormecida, a seiva renascida das cinzas.

Jovem mulher



Está se tornando mulher, a minha pequena, e se distancia, passa por mim e não me enxerga - imersa em si mesma, noutro mundo que não o nosso, noutra velocidade, noutra esfera a qual os hormônios eleva
Passa por mim, a minha pequena, e eu sei, quebrou o casulo, rompeu o fio, sua impaciência não mais permite a minha cadência.
Está em outra, agora percebo;
Devo me afastar e lhe dar espaço, devo engolir o soluço do passado;
Ficar na última fileira, meio que na sombra;
E assistir o triunfo da borboleta que nasce, o milagre da vida pulsando a mil;
O frescor da jovem mulher em seu extremo de explosiva beleza .

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sobre as Mães

Meus amigos quero hoje render minha homenagem às mães. Sou um pai, mas reconheço que a maternidade é o mais próximo do divino que existe. Eu me rendo a isso e reverencio e me afasto um pouco, dou passagem, para que os meus filhos sejam banhados pela maravilhosa luz da maternidade. Porque antes de tudo, desde quando tudo começou, sou um filho, recebi o amor incondicional de uma mãe, que me tornou humano, e, como tão bem falou André Comte-Sponville: "Antes do homem, ou seja, antes de um ser humano qualquer, há uma mulher. Sempre. O pai? A rigor, seria possível prescindir dele.....É frequente não o conhecer, ele mesmo ignorar sua fecundidade, sua paternidade, sua descendência.....Com a mãe é diferente. Como todos os mamíferos ela não se contenta em transmitir a vida: acolhe-a, carrega-a, nutre-a. Como ela poderia ignorá-la por completo? Entre os humanos, deverá proteger o bebê - às vezes, inclusive, contra o pai - durante anos, niná-lo, consolá-lo, lavá-lo, amá-lo, falar-lhe, escutá-lo, educá-lo...A humanidade é uma invenção das mulheres. Mesmo em nossas sociedades modernas, a mãe quase sempre é o primeiro amor e às vezes, o último. É porque foi ela quem primeiro amou.Note que pouco importa se se trata ou não da mãe biológica....Uma mãe adotiva é uma mãe. Uma mãe biológica só é realmente mãe pelos cuidados dados, pela atenção, educação, pelo amor"....Mas mesmo assim, mesmo ignorando tudo sobre os filhos (se os abandonou, se os tomaram dela)", continua Comte-Sponville, "não pode ignorar que os carregou no ventre e os colocou no mundo. A maternidade está inscrita em seu corpo (enquanto a paternidade só o está em papéis ou genes). Ser pai é uma função inicialmente biológica e depois simbólica. Ser mãe, uma função fisiológica, alimentar, vital. O pai é biologicamente necessário. A mãe, ou uma mãe, humanamente quase indispensável".Sábias palavras. Divina maternidade. O que mais posso falar? O que mais?