sexta-feira, 20 de março de 2015

Espelho d'água


Patos, gansos, cisnes deslizam no espelho d'água
O sol corta a atmosfera límpida e pousa em cada folha com suavidade
As árvores se debruçam sobre o lago como em prece matinal 
Seus vestidos de folha tocando e arrancando arrepios da pele d'água,
Enquanto os pássaros cantam pulando de galho em galho
De longe observo meus filhos e me posiciono para fotografá-los: são prolongamentos das árvores nesse momento em que a vida se movimenta meio que à deriva, pelo menos assim aparenta, mas certamente
refém da eternidade.

José Bitu Moreno

Em Las Vegas


Em Las Vegas
Do alto da janela do hotel, o quarto em penumbra, cerrado com pesados blindex, posso perceber um distante rumor do mundo, pressentir o frio que se esconde nas sombras, o sol que advoga um céu sem nuvens, espelho do deserto que cobre. 
As luzes de néon já estão acesas, ou melhor, não se apagaram. 
Imagino as ruas já se enchendo de risos, os cafés repletos de caras pesadas que aos poucos se desanuviam, a retroalimentação da máquina, que nunca dorme, sedenta, sequiosa...
Tudo é caro, tudo custa, o luxo, o sexo fácil, a casamento drive, as garotas oferecendo bebidas entre os caça-níqueis, os tapetes abafando a crueza do dia, a penumbra fabricada, a euforia do álcool, os shows, os gritos isolados de um vencedor, a ilusão da vida fácil, os shopping artisticamente dispostos, o belo, o glamouroso, o imediato, o circo, o espetáculo...e no subterrâneo os tentáculos invisíveis da máquina manobrando, articulando, lucrando, comandando tudo...
Mundo artificial, mundo da ilusão, do tamanho dos nossos vícios, dos nossos monstros, do nosso avesso escondido.
Mundo nosso real, que se esconde bem no fundo de cada um de nós.

José Bitu Moreno

Píer Santa Mônica

***Era tarde de um dia ensolarado de inverno mas com traços gazeados de névoa borrando o horizonte distante.
Caminhei pelo píer da Santa Mônica, de encontro ao Pacífico, as tábuas sobre o mar encorajando os passos.
Turistas, gaivotas e pelicanos cruzavam o caminho - recados do outro lado do mundo, do Atlântico de onde vim?
Fui adiante mirando o mar esmeralda, camadas sobrepostas de metal encimadas por ondas de espuma alva, cristais em profusão, brilhantes, diamantes, faiscando aos raios do sol poente.
Um banco de madeira, vazio,  solitário, se voltava para o mar onde um golfinho se divertia.
Um pelicano descansava no alto de uma estaca de sustentação do píer, de onde podia ver a praia de banhistas repleta
Ao final do longo estrado de madeira, último posto da rota 66, parei deslumbrado ante o Pacífico - estava na outra ponta, do outro lado da história, olhando para o horizonte insinuado, que a névoa encobria.
Fui invadido por suas águas, pelo mistério de não haver barra, linha, horizonte, como se me trouxesse um mundo indefinido, impreciso, pleno de possibilidades e de segredos.
Entrou em mim como a brisa, largo, belo, imenso...fumaça,incenso...vasto mundo, vida vasta...
não, não pararia ali, não poderia, não seria o final de rota, apenas o recomeço...o faisão dourado plaina sobre as montanhas adiante, alhures, em outras terras, de outros sonhos...e me chama
José Bitu Moreno