terça-feira, 24 de junho de 2014

no Pronto Socorro do hospital universitário


"Macas enfileiradas:
Cabeças brancas se tocando, horizontalmente
Posição fetal, fraldão,  coberta pequena,  puída
Manhã que nasce fria e mal consegue diluir
O cheiro desprendido, dominante
Da dor extemporânea.
Súbito um ruído que aumenta: tumulto, parada cardíorespiratória
Estudantes correm e se agrupam em círculo, a cena, o espetáculo,
Desfibrilador que catapulta  o espírito
Alma que se desprende e flutua sobre o caos: nada entende
Depois se deixa envolver na luz branca, do esquecimento
Enquanto o corpo fica: abandonado, sem vênia, sem reza, nem coberta, assistólico.
O ancião a um canto vê a branca luz e grita, meio sussurrado:
"Por caridade, me leva daqui!"
Mais adiante algazarra, na sala VIP, assim a denominam:
Depósito de loucos, alcoólatras, drogadritos receita:
Fenergan, policia, e aldol.
Alhures eleva-se uma súplica:
"Mãe, me leva para o céu!!! "
De uma senhora, de dores vencida, Alguém diz: -queixa-se assim, todos os dias, na mesma hora
-Há quantos dias está ali a esperar um leito pra subir?
Não existem vagas no hospital e assim, de doentes, miseráveis
Se enche  o corredor do pronto socorro
E é essa a única porta emergencial da população de sessenta municípios
O que fazem os prefeitos agora ? E os secretários e demais gestores? Na segurança dos seus lares? Nada ouvem?
É grito alheio assim tão débil e distante mesmo estando o gestor a um passo geográfico
É que a distância entre almas, meus caros, pode ser outra, bem outra - - sem justiça, sem amor, sem alteridade, torna-se inalcansável"

José Bitu Moreno

Nenhum comentário:

Postar um comentário