terça-feira, 23 de setembro de 2014
Visita Materna
Visita materna
Ela é um graveto soprado ao mundo, nos meados do século, no ano da grande
seca de 1932, uma pena, um chumaço, um gemido calado, um susurro baixinho. Mesmo o sol
inclemente não calou o seu choro na teimosia de nascer, e de viver?
Morou muito tempo em Várzea-Alegre, a minha pequena e ingênua cidade,
afastada do pesado hálito do mundo. Por isso sobreviveu? Não, vieram o casamento, os filhos e
depois os acontecimentos e imprevistos da fortuna, que a afastaram da vida calma, e os fizeram
mudar-se para a capital, Fortaleza, puxando atrás de si uma corda de 8 meninos, o marido e sua
mãe, vó Biluca. Daí o bafo quente do mundo egoísta e desumano a pegou de cheio. Cambaleou.
Caiu?
Caminha em casa e não se nota. Reza, o tempo todo reza, reza para si, reza
para todos, encolhidinha na cama, debulhando o rosário, recontando a vida, os anos,
enfrentando os medos, repassando-os, repassando-se, para Deus, e para os seus que já se
foram. É uma criatura do amor, o seu sujeito é o ser humano, a sua referência, o seu motivo.
Indistintamente e de imediato considera e tem respeito ao outro. Subjuga e é subjugada pelas
regras da convivência, do inter-relacionamento pessoal. Sofre por bem amar, por enxergar o
próximo. E nesse jeito extremamente humano só se lembra de gente, só referencia gente, só
chora por causa de gente. Portanto também tem inveja, tem medo, faz intrigas, enfim: também é
pequena, humanamente pequena, um pequeno graveto, que uma mão desavisada pode
quebrar. Mas na sua delicadeza, na sua humanidade, concentra o mistério, todo colorido e toda
a fortaleza do mundo, por isso sobreviveu, e sobrevive, incansável, como as gotas de vida que
perpetuam a espécie.
Por isso tem seu lugar onde estiver, uma criatura universal, que logo
encanta,.uma mãe para quem já não mais tem, ou que está distante, uma avó para quem dela
se aproxime, carinhosa, poliglota em seu silêncio de rugas, que já não mais precisa demonstrar
nada, pois sua presença por si já basta.
Fala não ter ódio, sequer raiva. A vida seguiu seu curso, teve muitos filhos,
cuidou com deslevo da mãe e do marido já nos seus últimos anos de vida, cuidou de netos, reza
horas a fio cuidando dos outros...Os filhos casaram-se e formaram-se, hoje passeia visitando os
filhos, veste-se elegante, tem os trocados da aposentadoria que a mão não acostumada teima
em retê-los, anda firme e com aprumo, relembra a vida sem arrependimentos, rebusca planos
para o futuro, e cuida da saúde como quem não para para sofrer com a realidade da morte.
Descemos as escadas de madrugada para irmos para o aeroporto. Embaixo,
enquanto a esperava, pensei assim: de tão leve, passará pelos sensores das lâmpadas do
prédio sem que seja notada. E as luzes não se acenderam. E ninguém acordou.
O avião a enguliu e deu um salto para bem longe. Não chorei, estava contente
por tê-la e por ainda ter podido me reconfortar na sua luz. André, meu filho, de manhã cedo
quando acordou, chorou muito ao saber que tinha partido, mas quando calou, estava sereno – a
Vó passou a viver nele, e ele nem percebeu.
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