quinta-feira, 21 de maio de 2015

"Palmira è caduta", leio algures - E agora? - Deus proteja suas mulheres, suas crianças - Suas ruínas e seus pássaros - Deus proteja o ancião que de cócoras espia o entardecer no deserto - A humanidade ajoelha e reza José Bitu Moreno
Palavras do pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém: Vaidade das vaidades, diz o Pregador, vaidade das vaidades; tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho que realiza sob o sol? Uma geração vai, e outra geração vem: mas a terra para sempre permanece. O sol também se levanta, e o sol se põe, e apressa-se a voltar ao lugar onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; circula continuamente, e volta formando os seus circuitos. Todos os rios correm para o mar; contudo o mar não se enche; ao lugar de onde vêem os rios, para ali tornam eles a correr. Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, tampouco os ouvidos se enchem de ouvir. Há alguma coisa que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já existia nos tempos passados, que foram antes de nós. Não há lembrança das coisas que precederam; tampouco haverá qualquer lembrança das coisa que hão de ser, entre os que hão de vir depois. Eu, o pregador, fui rei de Israel em Jerusalém. E, de coração, busquei, pela sabedoria, conhecer tudo quanto sucede sob o céu: esta árdua tarefa Deus atribuiu aos filhos do homem, para nela os exercitar. Vi todas as obras que se fazem sob o sol; e eis que tudo é vaidade e aflição de espírito. Aquilo que é torto não se pode endireitar; aquilo que falta não se pode contar. Falei com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e tenho mais sabedoria do que todos os que me precederam em Jerusalém; sim, meu coração continha grande sabedoria e conhecimento. E, de coração, busquei adquirir a sabedoria, e reconhecer o desvario e a loucura; percebi que são também aflições de espírito. Porque na grande sabedoria há grande pesar; é aquele que cresce em saber, cresce em dor. (ECLESIASTES 1)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Não é depressão o que sente, só tristeza - Com medo de se perder no caminho da tristeza? - E cair - no poço, no precipício? - De todo modo já faz esse caminho e o remédio que o médico prescreve, ensombrece e adormece a alma - Não seria melhor despertar? - Não vê que o tempo passa sem que enxergue o tanto de vida que há na tristeza? - E de tristeza na alegria? - Relembre: há tempo para tudo sob o céu, e os tempos se alternam, sempre, como os tons de uma bela música José Bitu Moreno

segunda-feira, 18 de maio de 2015

num oásis do deserto sírio, em Palmira, sobrevivem as sete derradeiras íris-eremitas - as últimas desde as antigas do Egito, as dos hieróglifos - no inverno elas migram para as montanhas da Etiópia - mas enquanto voam pela península Arábica, são abatidas, uma a uma, por caçadores sauditas - só restam sete agora, talvez apenas cinco ??? - e não muito longe dali, vindas do Iraque, milícias do estado islâmico - tentam destruir as cidades de Tadmur e de Palmira, com suas ruínas históricas - sem memória, roda desfigurada a Terra, e passam os séculos, céleres

domingo, 17 de maio de 2015

O médico se encolheu...se encolheu, dobrou sobre si mesmo Como entre a quarta e quinta semana, o feto De volta ao útero, à célula, ao seio materno De volta à Terra Vai morrer, ele sabe Sabe da doença no corpo Dissolvendo, anulando, matando E do todo sofrimento que advém Ele sabe Embora o tanto que leu sobre a vida Nada sabe da morte Tentou se aprofundar nos estudos Houve a época Mas às primeiras ondas da absoluta incerteza, entre as células Teve medo e apavorado Recuou Agora não quer tratamento mas A casa, a família, o esquecimento O cachorro ao lado, o canto dos pássaros E a certeza de que nada sabe José Bitu Moreno

terça-feira, 5 de maio de 2015

para reflexão

Meus amigos, copiei um curto trecho desse interessante diálogo entre Jamsa, chefe da guarda do sultão, e Sanjam, uma entidade que lhe apareceu, no livro de Naguib Mahfouz : Noites das mil e uma noites (tradução - Georges Fayez Khouri e Neuza Neif Nabhan. É um trecho extremamente rico e atual, nesse contexto de corrupção em que vivemos. Para reflexão! .............. - Você também faz parte do grupo de corruptos. - Sou incomparável no modo como cumpri meu dever, - E o dinheiro ganho de forma desonesta? - São apenas migalhas que caem da mesa dos grandes. - Uma desculpa vergonhosa. - Eu vivo no mundo dos humanos. - E o que você sabe a respeito dos grandes? - Os mínimos detalhes. Não passam de ladrões e cafajestes. - Mas você os protege com sua espada afiada -disse a voz, zombeteira - e persegue seus inimigos, que são gente honrada, de opinião e discernimento. - Estou cumprindo ordens e o meu caminho é claro. - Não, você está sendo perseguido pela maldição de proteger criminosos e perseguir gente honrada. - Qualquer um que pense ao realizar uma tarefa como a minha estará perdido. - Então você é um instrumento irracional. - Minha mente está exclusivamente a serviço de meu dever. - Uma desculpa que tende a anular a humanidade de um homem. .............,

sexta-feira, 1 de maio de 2015

caiu o dentinho

Cacá Eu soube: caiu o seu dentinho, Enquanto comia uma maçã; Correu para mostrar à professora; Logo vieram os amiguinhos, Enquanto você sorria orgulhosa; Agora vai virar ouro, a mãe disse; Agora foi embora aquele mais um, Que o papai tanto admirou, E quanto tempo já passou. Filhinha, mais devagar, Mais devagar com o andor; Já estou a mais do meio da estrada; E vem você atrás correndo rápida, Correndo tão rápida. Filhinha, sabe o que sinto agora? Um misto de alegria e de dor. José Bitu Moreno

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Reconhece o barulho da chave na porta; Reconhece os passos, pressente o cheiro; Ouve até a fala ainda não formulada; E seu grito ecoa por todo o apartamento; Alegre, urgente, estridente; Súbito, desvencilhando-se do grito, Surge a criatura ágil, roliça, miúda, Esbaforida, no próprio limite – só sorrisos; E seus braços me envolvem – essa árvore já encurvada; E seus beijos são pássaros, pequenos, em bando; Pousando nos já encrostados galhos; Mas então se desgarra, E correndo é agora impaciente pônei, Que dispara pelo espaço imaginário, Sem cercados, para bem longe, Do meu alcance. (José Bitu Moreno)

visita materna

Ela, um graveto soprado ao mundo, nos meados do século, no ano da grande seca de 1932, uma pena, chumaço, sussurro, um gemido calado. Mesmo o sol inclemente não calou o choro na teimosia de nascer e de viver? Morou muito tempo em Várzea Alegre, pequena e ingênua cidade, afastada do pesado hálito do mundo. Por isso sobreviveu? Não, vieram o casamento, filhos e, depois, acontecimentos e imprevistos da fortuna, que a afastaram da vida calma, e fizeram-na mudar-se para a capital, Fortaleza, puxando atrás de si uma corda de 8 meninos, marido, mãe, e vó Branca. Daí o bafo quente do mundo, egoísta e desumano, a pegou de cheio. Cambaleou. Caiu? Caminha em casa e não se nota. Reza, o tempo todo reza, reza para si, reza para todos, encolhidinha na cama, debulhando o rosário, recontando a vida, os anos, enfrentando os medos, repassando-os, repassando-se, para Deus e para os seus que já se foram. É uma criatura do amor, o seu sujeito é o ser humano, a sua referência, o seu motivo. Indistintamente e de imediato considera e tem respeito ao outro. Subjuga e é subjugada pelas regras da convivência, do relacionamento interpessoal. Sofre por bem amar, por enxergar o próximo. E nesse jeito extremamente humano só se lembra de gente, só referencia gente, só chora por causa de gente. Por assim ser, também tem inveja, tem medo, enfim: também é pequena, humanamente pequena, um pequeno graveto, que uma mão desavisada pode quebrar. Mas na delicadeza, na humanidade, concentra o mistério, todo colorido e toda fortaleza do mundo, por isso sobreviveu e sobrevive, incansável, como as gotas de vida que perpetuam a espécie. Assim, tem seu lugar onde estiver, criatura universal, que logo encanta,.mãe para quem já não mais tem ou está distante, avó para quem dela se aproxime, carinhosa, poliglota em seu silêncio de rugas, que já não mais precisa demonstrar nada, pois sua presença por si basta. Fala não ter ódio, sequer raiva. A vida seguiu o curso, cuidou dos filhos, cuidou com deslevo da mãe com Alzheimer e do marido, totalmente dependentes, nos últimos anos de vida. Cuida de netos, reza horas a fio cuidando dos outros... Hoje passeia visitando os filhos, veste-se elegante, tem os trocados da aposentadoria que a mão não acostumada teima em retê-los, anda firme e com aprumo, relembra a vida sem arrependimentos, rebusca planos para o futuro, e cuida da saúde como quem não para, a sofrer, com a realidade da morte. Descemos as escadas de madrugada para irmos para o aeroporto. Embaixo, enquanto a esperava, pensei assim: de tão leve, passará pelos sensores de lâmpadas do prédio sem que seja notada. E as luzes não se acenderam. E ninguém acordou. O avião a enguliu e saltou para bem longe. Não chorei, estava contente por tê-la e por ainda ter podido me reconfortar em sua luz. Dré, meu filho, de manhã cedo, quando acordou, chorou ao saber que tinha partido, mas quando calou, estava sereno – a avó passou a viver nele, e ele nem percebeu. (José Bitu Moreno)

casa vazia, ecos do passado

Noite distante e fria. Sou uma casa vazia, velho sobrado de escadarias, onde ecos de passos se acumularam ao longo dos anos. Pode-se ouví-los na noite que teima em não dormir. Aos poucos as lembranças vão se enchendo de passos, quando silenciam, e, a um canto, sentado à mesa, magras pernas cruzadas, revejo o saudoso amigo e professor, o mesmo que me acolheu enquanto vivi em Marília. O cigarro à mão, com a outra afasta os cabelos lisos que lhe caem sobre os olhos. Apruma-se um pouco na cadeira, toma um gole de cerveja, e se põe a recitar Fernando Pessoa. Ele nasceu em fazenda, no Triângulo Mineiro, onde o pai trabalhava como empregado, e a mãe cuidava dos filhos. Venceu a infância, em que perdeu os dentes, andou descalço, e as unhas dos pés ficaram para sempre deformadas por micoses. Venceu a pressão de organização social e política, que tornava o analfabetismo e a pobreza capitanias hereditárias, alienando crianças e forçando-as a seguir o mesmo caminho dos pais. Entrou na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, e se sustentou, pagando os próprios estudos. Deu plantões. Foi aluno brilhante. Terminados os estudos, especializou-se em cirurgia vascular, casou-se e, por várias circunstâncias, foi parar em Marília, interior de São Paulo. Lá, foi um dos primeiros e dos melhores professores da Faculdade de Medicina, onde participou na formação de médicos. A história poderia parar assim, culpa de relatos técnicos, em que as palavras se destacam mais que os personagens. Mas ele foi personagem por demais vivo, interessante, criativo, inteligente, provocador, para ser alfinetado numa folha como inseto morto. Foi um neurônio esticado ao máximo, com sensibilidade tão aguçada, que o barulho do mundo, o tato, o sopro, os mesmos que lhe trouxeram vida e movimento, aproximaram-no da doença e da morte. Não se sabe bem o que lhe aprontou a vida, as cicatrizes que deixou, mas o fato é que se afogou paulatinamente na poesia e na bebida. Enquanto o corpo ruía, o espírito resistia, triste decerto, mas entremeado com desconcertante humor. Permaneceu sempre generoso, sempre ágil, de assombrosa memória, reunindo jovens em torno de si, apontando caminhos, enquanto foi descendo o seu próprio. Às vezes paro e observo meu filho brincando, tento fotografá-lo nas lembranças, memorizá-lo na lucidez do momento, e torná-lo eterno... Tentei isso algumas vezes com ele? Deixei a pessoa, por trás do professor, se confundir com o frio e desumano cotidiano, perdendo-o muitas vezes, sem ouví-lo como devia? Decerto. Decerto. Mas sei que naqueles momentos, encurralado por minhas próprias limitações, fiz o melhor que pude e fui o que poderia ter sido. Ele me respeitou como eu fui. E eu o guardo assim, carinhosamente, na minha lembrança. José Bitu Moreno

pó na mesa de trabalho

Minhas palavras batiam de encontro aos olhos opacos do promotor e caíam como pássaros. Formou-se na córnea uma parede branca que refletia a luz, de nada adiantava, Ao final do discurso, me vi só, terrivelmente só, as pessoas eram miragens, e somente a cabeça do promotor falava, com os olhos mortos, parede branca, incandiando No pó de sua mesa de trabalho, as palavras jaziam mortas, e de nada adiantava, a lembrança do vôo, do canto, a projeção do céu cortando um naco da janela entreaberta, de nada adiantava mais Agora era eu, parado, e a minha alma se fechando, como se fizesse noite adiantada, como se a mente escura do magistrado tivesse o poder de anular a luz e chacoalhar as sombras Virei-me, dei de costas, ficou ele lá, brincando com as leis de plástico, jogando aviãozinhos de papel no espaço caduco, saturado, de sombras, preconceitos e de mofo. José Bitu Moreno

está a um canto silenciosa

Está a um canto agora parecendo silenciosa; Aproximo e escuto o seu silêncio; A um passo de entrar no seu mundo; “Papai vem, você é o príncipe, bom dia príncipe”; Conduz-me no diálogo passando-me as falas; Como cheguei me vou, sem sequer ter importunado o silêncio, que de novo a envolve, com manto de muitas cores. (dedicado à minha filha, Anna Carolina, Cacá) José Bitu Moreno

ele sorri mirando o nada

ele sorri mirando o nada, e agita as mãos como se aplaudisse: um palhacinho faz estripolias no ar, dá cambalhotas, canta, chora, e tropeça nos sapatos de pau; ele sorri encantado, o palhacinho o olha gozado, não percebem os dois anões que entram, o trapezista, a bailarina, o tigre, nem a porta que se fecha, e me trancafia do outro lado. (dedicado ao meu filho André, quando criança) José Bitu Moreno

sexta-feira, 24 de abril de 2015

vai com Deus, meu caro irmão

Enquanto o irmãozinho de nós se despede A chuva de meteoros das Lirídeas enfeita o céu Dia de festa no universo Jose Bitu Moreno

domingo, 19 de abril de 2015

O último aniversário do Soldadinho-do-Araripe

Corre lépido e sinuoso, declive abaixo,o riacho de águas claras margeado por densa folhagem verde. É bem raso, somente uma fina lâmina d'água sobre um leito de pedras lisas e lodosas; O pequeno pássaro pula do ninho flutuante, ancorado numa das margens, para o banho matinal O sol é manso e se filtra entre as copas das árvores O pequeno pousa no riacho raso e, cantando, abana fremente as asas azuis, esparramando gotas translúcidas de água no corpo de branco incólume e na cabeça de vermelho puro Poesia e magia, espetáculo único e belo, parece até que naquele instante das margens, a espessa folhagem; do alto, o azul do céu sem nuvens, existem somente para venerá-lo: o milagre, o aniversário do singular ser Que dos infindáveis lugares deste vasto mundo somente ali ainda existe, o passarinho, o Soldadinho-do-Araripe, Que vive rodeado de sertão, de sol tórrido e de aridez, mas naquele oásis, na chapada do Araripe, houve de encontrar o seu reino E ali mesmo, onde houve o milagre da vida, corre o risco de desaparecer Como assim? De definitivamente sumir, ser exterminado, depois de um inquebrantável elo de milhões e milhões de gerações, levando adiante esse espetacular projeto de vida ? Logo ali num sertão de tanta seca e fome e morte? Sertanejos bravos e de bom coração, poetas conterrâneos, sábios, acudam o pequeno pássaro, não deixem que no coração do sertão o milagre da criação seja assim tão aviltado e renegado Salvem o Soldadinho-do-Araripe do extermínio, da extinção! José Bitu Moreno

sábado, 18 de abril de 2015

Uma história alemã


Quando menina, abria as janelas da casa para que entrasse ar fresco, assim lhe ensinou o pai
Cuidava da casa, cuidava do pai que era médico na pequena cidade onde moravam
Adolescente, fugiram, ela e o pai, num trem, da antiga Alemanha Oriental, para Berlim Ocidental - quase morreram
Hoje trabalha no laboratório do Departamento de Cirurgia da Universidade de Frankfurt e em pouco se aposenta
É silenciosa, meticulosa, também bondosa, ama música e arte, suas férias são sempre na Itália
E todo santo dia, bem cedo ainda, mesmo muito frio, nunca esquece de abrir as janelas do laboratório
Para que entre ar fresco

José Bitu Moreno

A curta história de Jesus


O corpo de Eduardo de Jesus foi enterrado na cidade de Corrente no Piauí
Ele tinha apenas dez anos e assistia televisão com sua mãe no Complexo do Alemão, onde moravam
Ouviu vozes no beco e resolveu sair por um instante da sala para a calçada com um celular na mão
De Jesus foi alvejado com um tiro de fuzil, na cabeça, e teve morte súbita - da favela foi para o céu
Tão rápido juntou-se aos anjos, que nem mesmo a mãe Terezinha o conseguiu reter, abraçada a seu corpo, em desespero
"Não era um bandido minha criança, não tinha arma na mão, era apenas um celular..."
Ficou o sangue misturado na areia, ficou o beco mergulhado na noite escura, ficou a mãe ajoelhada ante as estrelas
Ficou o corpo sem vida - dobrado sobre si, como um ponto de interrogação:

De Jesus foi crucificado
Em vão
Aqui na Terra?

José Bitu Moreno

sexta-feira, 20 de março de 2015

Espelho d'água


Patos, gansos, cisnes deslizam no espelho d'água
O sol corta a atmosfera límpida e pousa em cada folha com suavidade
As árvores se debruçam sobre o lago como em prece matinal 
Seus vestidos de folha tocando e arrancando arrepios da pele d'água,
Enquanto os pássaros cantam pulando de galho em galho
De longe observo meus filhos e me posiciono para fotografá-los: são prolongamentos das árvores nesse momento em que a vida se movimenta meio que à deriva, pelo menos assim aparenta, mas certamente
refém da eternidade.

José Bitu Moreno

Em Las Vegas


Em Las Vegas
Do alto da janela do hotel, o quarto em penumbra, cerrado com pesados blindex, posso perceber um distante rumor do mundo, pressentir o frio que se esconde nas sombras, o sol que advoga um céu sem nuvens, espelho do deserto que cobre. 
As luzes de néon já estão acesas, ou melhor, não se apagaram. 
Imagino as ruas já se enchendo de risos, os cafés repletos de caras pesadas que aos poucos se desanuviam, a retroalimentação da máquina, que nunca dorme, sedenta, sequiosa...
Tudo é caro, tudo custa, o luxo, o sexo fácil, a casamento drive, as garotas oferecendo bebidas entre os caça-níqueis, os tapetes abafando a crueza do dia, a penumbra fabricada, a euforia do álcool, os shows, os gritos isolados de um vencedor, a ilusão da vida fácil, os shopping artisticamente dispostos, o belo, o glamouroso, o imediato, o circo, o espetáculo...e no subterrâneo os tentáculos invisíveis da máquina manobrando, articulando, lucrando, comandando tudo...
Mundo artificial, mundo da ilusão, do tamanho dos nossos vícios, dos nossos monstros, do nosso avesso escondido.
Mundo nosso real, que se esconde bem no fundo de cada um de nós.

José Bitu Moreno

Píer Santa Mônica

***Era tarde de um dia ensolarado de inverno mas com traços gazeados de névoa borrando o horizonte distante.
Caminhei pelo píer da Santa Mônica, de encontro ao Pacífico, as tábuas sobre o mar encorajando os passos.
Turistas, gaivotas e pelicanos cruzavam o caminho - recados do outro lado do mundo, do Atlântico de onde vim?
Fui adiante mirando o mar esmeralda, camadas sobrepostas de metal encimadas por ondas de espuma alva, cristais em profusão, brilhantes, diamantes, faiscando aos raios do sol poente.
Um banco de madeira, vazio,  solitário, se voltava para o mar onde um golfinho se divertia.
Um pelicano descansava no alto de uma estaca de sustentação do píer, de onde podia ver a praia de banhistas repleta
Ao final do longo estrado de madeira, último posto da rota 66, parei deslumbrado ante o Pacífico - estava na outra ponta, do outro lado da história, olhando para o horizonte insinuado, que a névoa encobria.
Fui invadido por suas águas, pelo mistério de não haver barra, linha, horizonte, como se me trouxesse um mundo indefinido, impreciso, pleno de possibilidades e de segredos.
Entrou em mim como a brisa, largo, belo, imenso...fumaça,incenso...vasto mundo, vida vasta...
não, não pararia ali, não poderia, não seria o final de rota, apenas o recomeço...o faisão dourado plaina sobre as montanhas adiante, alhures, em outras terras, de outros sonhos...e me chama
José Bitu Moreno

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O cordão de mães



Ontem,
uma, duas luzes amigas se apagaram 
na estrada
o riso, o plano, a vida
foram ceifados
- súbito -
interrompidos
por uma carreta
no descuido fatal

-
sem aviso
sem premeditação
o choque
a explosão
-

Era noite, um breu
quando aconteceu
a lua que fazia vigília
não percebeu

-ainda conta as luzes
que se apagam
de tantas
nas estradas?-

O vento que soprava
entre os destroços
fumegantes
sobre as lívidas faces
no sangue 
derramado
no asfalto
coagulado

-gravou o grito de dor
a última fala,
naquela estrada?
e se gravou,
para onde levou?-

Ah, levou para a mãe 
a notícia, na noite
entrou de chofre
sem bater
na câmara do peito
apagando a chama 
que relutou, sem entender
coração de mãe
coração supremo
supremo horror

-como suportar tanta dor
como cabe
e não morre
e não para?

Há um cordão de dor
que suporta o mundo,
que o consola;
um cordão de mães em vigília
em silenciosa prece,
acudindo, confortando
conduzindo 
na solidão do suspiro
último
cada jovem que a violência
apaga, destrói;
cada nova mãe
que recebe a notícia 
na noite escura;

Um cordão de puro amor 
que ressuscita
que garante 
entrementes
o tempo
a seiva, o vale, o sol
a luz, a conformação
a vida e sua 
infinita
continuação

(José Bitu Moreno)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sobre um certo ignorante especializado - que um dia sumiu



O impávido anda pelo corredores estreitos do hospital com as asas abertas, o avental branco tremulando, alargando ainda mais o corpanzil e preenchendo todo o espaço -
O pássaro mau, o predador.
Atrás de si uma leva de estudantes atônitos e de residentes submissos e bajuladores, o acompanham em revoada. 
Ele procura um púlpito, o professor, o doutor
E avança sempre adiante, sem cumprimentar os demais, os serviçais, até que entra em um dos quartos da enfermaria -
O cego, o curador de páginas, o ignorante especializado.
Os pacientes o assistem chegar, se empoleirar no púlpito, enfunar o peito e  vomitar um discurso de palavras difíceis e alheias - fogos de artifício. 
O público o pajeia silencioso e reverente, um paciente antigo se diverte com o circo, outro se incomoda, interrompido no meio do curativo 
Mas como começou, súbito o número termina - sorrisos e olhares cúmplices o aplaudem
O impávido agradece, abre novamente as asas e sai do quarto refazendo o cortejo peregrino, até que o espetáculo se esgota, um longo suspiro de alívio o carrega e tudo volta ao normal.
Mas em algum momento foi anormal? Alguma rusga modificou, mesmo por acaso, mesmo momentâneo, o infinito fluxo do tempo? 
A porta que ainda se balançou ao último que saiu, não guarda lembrança, as janelas que a tudo assistiram, silenciam
Tudo absolutamente normal - somente o funesto catedrático não sabia:
que o mundo dele não carecia, sobremaneira, 
e que o dia se arranja graciosamente, sem ele

(José Bitu Moreno)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Viagem para dentro de mim mesmo



Durmi numa rede, na sala de visitas, da casa da Vó Branca. Acordei às cinco da manhã. Abri a velha porta de trancas e, do calçadão que circundava a casa, avistei o terreiro que dava para o antigo curral do touro Bisão - ambos já não mais existiam. Mas era como se lá ainda estivessem...o touro branco, lento, paciente, rebolando o lombo de um lado para o outro quando andava, afobado e desajeitado quando cobria uma vaca. Depois alonguei à vista para além do curral, tentando decifrar os contornos do pasto que se impacientava para acordar. Madrugada ainda, o céu estava encoberto por um manto cravejado de estrelas. Lá estavam elas: o Cruzeiro do Sul, a Estrela d’Alva e as Três Marias, as mesmas estrelas da minha infância, que eu as havia perdido. 
“- Deus meu, eu nunca saí daqui”, pensei, enquanto do pé de algaroba do oitão da casa os pássaros desandaram a cantar.
Aos poucos a manhã tingia de luz a madrugada tarda e já dava para vislumbrar o velho pé de Coité que cobria o cacimbão desolado. Faltava o vai-e-vem de mulheres com latas d’água na cabeça transpondo o passadiço, a algazarra das crianças tomando banho de cuia... mas a manhã era a mesma.
“Adeus algarobas floridas, fique firme genipapo da beira da estrada”, despedia-me enquanto o carro subia a ladeira rumo a Fortaleza. Estava no carro o homem, ficava lá o menino, isso me reconfortava, pensei havê-lo perdido, talvez estivesse agora entre as galhas do pé de araçá.
“Chagas abertas, coração ferido, 
 Sangue derramado de Nosso Senhor Jesus Cristo
 Ficai entre nós e o perigo”
Minha mãe, sua irmã Maria e o primo Francisco, rezavam em voz alta, enquanto cortávamos a cidade deixando para trás a lagoa e a igreja de São Raimundo. Já na autovia passaram a rezar terço, os três terços -   Jesus Cristo morreu com 33 anos às três horas da tarde, e assim sua morte ainda era lembrada. 
A reza era acompanhada pelas contas dos rosários e tornou-se autômata, repetitiva, como o canto das galinhas d'angola.
Paus d’Arco floridos alternavam-se na paisagem. Em São Caetâneo mantinha-se firme uma capelinha branca, construída em 1872. Para o Poço do Mato viera uma vez quando criança, numa festa religiosa, em que houvera uma missa e uma procissão que me parecera enorme. 
De Iguatu em diante, o caminho não tinha volta. Destino: Fortaleza.
E a certeza de que a criança que fui ficara na casa da Vó Branca aguardando meu retorno.

(José Bitu Moreno)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A verdade por detrás do véu


A qualquer momento posso feder, meu amigo. 
Veja, por detrás de toda essa impostura, sou suor, excrementos e morte. 
Soa deselegante, eu sei. 
Mas você também é capaz de ver?
Veja essa senhora, ela pouco a pouco se desmancha, se derrete, encolhe. 
Veja ao seu redor, a poeira de células mortas, que dela se desintegra e lhe acompanha, adornando, como véu.
É capaz de ver?
Lembre-se amigo, que do pó viemos e ao pó volveremos.
Lembre-se de Alexandre, o Grande, que outrora foi forte e belo.
Ô fedido imperdenido, baixa a bola, se toca, e rápido, que a vida passa!

(José Bitu Moreno)

Mia, a italiana



E lá se vai Mia, a italiana, limpando,
limpando o chão, limpando as flores, os copos, as unhas, o corpo....
Mia que não se cansa, limpando, limpando...
Mas cuida, Mia, que se encheu de pó a alma.
De pó que não se enxerga, de sujeira que não se esfrega.
Cuida Mia, antes que seja tarde!

(José Bitu Moreno)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O pássaro do riacho Ursel


O Wasseramsel, o delicado pássaro, pousa sobre uma pedra nas margens do riachinho Ursel, que nasce em Feldberg e desce por Oberursel.
No seu percurso é atravessado por várias pequenas pontes de madeira até a prefeitura, onde mais parece enfeite de presépio.
Não muito longe, em Frankfurt o rio Meno, corre lento, moroso, tardo, como o berro de um boi ao final do dia...Mas apesar de largo e turvo, ninguém o escuta e segue assim o seu curso, sempre, como quem reza ou aos poucos morre. 
Bem mais ao sul, nas tardes azuis de Freiburg, o Dreisam desliza entre pedras polidas, seguindo um leito que não parece dele, pois que construído e maquiado, quase perfeito, o pobre rio sem peixes. 
Por assim falar, há ainda quem pesque no Rio do Peixe, o rio que tanto cruzei entre Marília e Paraguaçu Paulista? 
Talvez se encostando o ouvido no chão, se possa ainda ouvi-lo na longa distância. 
Como se nesse início de noite um veio se estendesse em rede entre todos os riachos e rios que conheci, formando uma rede de vida, uma rede de vasos, por meu sangue percorrido. 
Veias do rio Cocó de Fortaleza. Artérias do riacho do Machado. Partes de mim remontadas. Como um jogo. 
Não, eu não sabia antes, que o meu corpo transporia o oceano, juntando e assemelhando águas, montando essa geografia. 
Fui andando, cavucando, da Serra Negra em diante, e acontecimentos, desses que surgem estonteantes, improváveis, foram me definindo estradas, como relâmpagos na noite escura, e deles fui construindo vivências, tornando-me o que sou, essa mistura de águas, rios de cada cidade, somando-se, subtraindo-se, e permutando-se...
Como posso falar de  mim, sem falar dos meus rios? 
E você, que em rede ora se liga, o que pode saber de mim, se não consegue ouvir o pássaro das margens do riacho Ursel? 

(José Bitu Moreno)



Como se chamava a Frau?


Como se chamava a Frau?
De onde veio, qual era sua história?
Teve uma infância feliz ou ainda viveu sob a penúria da guerra? Foi uma bela jovem, decerto. Independente, voluntariosa, destemida e cheia de si. Uma gravata com os seus músculos das coxas, derrubava de gozo qualquer homem. Ah, era intensa, tinha sede, tinha fogo! Quem não se lembra de suas escandalosas gozadas?
Agora está aqui, imóvel, guardada, etiquetada, sob narcose.
Agora está aqui: um outro corpo, velho, esquálido, que uma jovem há muito abandonou. Uma casa velha. Pelo menos assim é tratada:
-A paciente tem câncer de pulmão e a cirurgia é iniciada: anestesia rápida e eficaz, corpo posicionado, campos postos, o bisturi em precisa inclinação abre de uma só feita um talho no tórax, em passos sucessivos chega-se ao pulmão. Lá está o sujeito passivo, o fole vazio, a capa rosada, de preto moteada, imóvel, ao lado de coração que bate como um autômato, incomodado. Onde o câncer? Onde os tentáculos, as garras, a foice, o avanço? Onde a lama, o líquido viscoso, o asqueroso, invadindo? Nada, só o silêncio, mas aos poucos, apalpando-se, ei-lo: num lugar, como que deixado ao acaso,  meio escamoteado, imitando pulmão, um bicho-camaleão, só mesmo apalpando-se para perceber, o cranco, endurecido entre dois dedos. À sua volta pequenos gânglios escurecidos, infartados, pareciam nada aos nossos olhos desarmados. Mas lá movimentava-se, subterrânea, a onda negra, a que ia consumindo, apagando, até o breu... E a velha dama assim invadida era um corpo, uma carcaça, sem nome, sem referência.
Quem dela se lembrava?
A jovem, a fogosa, a que viveu para si?
A quem mesmo isso tudo interessava? A cirurgia já há muito acabara e na ante-sala se anestesiava um outro corpo sem história e sem memória.

(José Bitu Moreno)


A educação do medo


A criança, lápis de cor na mão, risca a folha branca, deixando imagens de vulcões cuspindo fogo, céu pontilhado de nuvens, árvores amontoadas a um canto e dinossauros de pescoço longo, que em alguns desenhos morrem, mas que no outro já de novo estão vivos.
Depois de pronto, colorido, pleno de fantasia e originalidade, eis que se esqueceu de um detalhe e sem mais delongas adiciona vários traços novos, tortos e imprecisos à obra de arte supostamente acabada.  
Ante meu espanto e o impulso para impedir que estrague a obra, esbarro em sua absoluta segurança e senso de propriedade, como se o que houvera configurado no cérebro fosse encontrar a exata representação no papel. O processo, a intencionalidade sobrepondo-se ao produto estético final.
Tornei-me adulto e sei que ao longo do tempo, a escola, o meio cultural, a vida foram me tirando o potencial criativo e a fantasia. 
Veio a conformidade com obras pretensamente prontas;
Veio o medo de ferir os espaços de folha branca, com traços a mais que desfigurassem uma paisagem ainda tímida, mas mesmo assim acabada, prematuramente acabada, morta.
Veio o medo de perder as pipas na profundidade do céu azul. 
Veio a sensação de não pertencer ao meio em que vivo, como um eterno estrangeiro nas estradas da vida.

(José Bitu Moreno)

domingo, 25 de janeiro de 2015

De encontro à lucidez


Estou lúcido agora, ao sol, liberto -
O antidepressivo aprisiona a alma, adormece
O antidepressivo emplastifica o espírito
Descaracteriza, como cirurgia que
Despersonaliza num sorriso igual;
Agora posso ser triste, posso chorar
Viver o tempo presente, o tempo real
Eu na companhia de mim mesmo

(José Bitu Moreno)

Sobre a indiferença


Não ver também significa ver, porém acrescido de violência.
Não ver é o mesmo que o não respeito.
Sorrir condescendente, enquanto o outro se arrasta por um caminho, que você poderia tornar mais fácil, é pura mesquinhez. 

(José Bitu Moreno)

À espera da neve



Cai neve, cai, mas cai sem demora. Vem bojuda, felpuda, agoldoada, e dançando no ar. 
Vem sem barulho, sem molhar, no rosto, nas vidraças, pelas ruas...  Neve branca, neve pura.  
Vem pelas crianças, alegres, iguais a tu.   
Pela monotonia desse inverno cinza. Flocos grandes que se esparramam, flocos leves que flutuam e dançam, por que demoram tanto nesse ano? 

(José Bitu Moreno)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A colação de grau



Chegou enfim o dia da colação de grau. Chegou assim mesmo, como agora posto, sem grandes arroubos.
A festa se deu num ginásio de esportes coberto, estávamos eu e mamãe, chegou-se ao meu nome e fui receber o diploma sob, parcos aplausos; papai ficou em casa - não havia razão para excessos, com os irmãos também fora assim.
Depois voltamos para casa, uma noite normal após um dia cansativo. Desfilei com a roupa da formatura, "a beca", frente aos pais orgulhosos. Inagina que deveriam estar muito felizes, agora que sou pai, e que tenham confidenciado entre si, a esse respeito, já deitados, um pouco antes de dormir.

(José Bitu Moreno)

No internato de Medicina II - estágio de pediatria


No estágio da pediatria, o nordeste do Brasil estava saindo de um período de quase cinco anos de estiagem - faltavam água e alimentos, crianças morriam e os nordestinos abandonavam o campo, em êxodo para os centros urbanos. 

A fome - essa epidemia crônica que sempre castigou o sertão, essa guerra silenciosa que já dizimou e dizima ainda tantas crianças ou as mata aos poucos, ao longo de uma vida adulta doentia e imbecil. 

Eu, em confronto súbito e direto com aquela realidade: subnutrição extrema, marasmo, morte...fiquei de princípio preso a uma esquisita dormência, uma anestesia de sentimentos, rechaçados com violência a um canto; embutidos, engolidos a contragosto.
A fome, a morte, passaram a ser rotineiros, urgia a cuidado, sem espaço para a reflexão, a discussão, o sentimento...
E foi assim que como estudante fui sendo formado - aprendendo sozinho a moldar a solidão. As Faculdades de Medicina nos programam somente para salvar, para vencer a morte, para não errarmos..,O erro seria a condenação definitiva, a fraqueza um defeito lamentável e os sentimentos um instrumento a ser separado do corpo.
Dessa forma, somente na solidão, confrontamos nossa face humana, nosso medo, nossos erros...médicos da solidão dos hospitais e da alma, dos limites extremados, da infalibilidade.
E, de estágio em estágio, prossegui, profissão, vida em fora, tentando salvar a vida, mas sem entender a dor e a morte.

(José Bitu Moreno)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

No internato da Medicina I


No estágio de ginecologia e obstetrícia, ao mesmo tempo que fiz muitos partos, convivi de perto com as muitas mazelas de nossa sociedade: aborto criminoso, gravidez indesejada, médicos e parteiras mal preparadas, falta de respeito humano e grosserias inaceitáveis.
Presenciei cenas em que o grito de dor da gestante em trabalho de parto, era respondido por imprecações pelas auxiliares de enfermagem, tais como: 
"-Por que fez a criança? Na hora do bem bom, não pensou nas consequências! "
Era como se ali estivessem juntos o que havia de mais animalesco no homem e de mais deplorável na sociedade. Como se condições sociais, analfabetismo, fatores culturais... descaracterizassem o "humano" nas pessoas e, portanto, tudo fosse assim permitido.
Frente a tudo, senti de início um verdadeiro asco da sala de parto, simbolizado pela nauseante mistura de líquido amniótico, sangue e imprecações; até que certa manhã assisti a um parto diferente: a luta gloriosa da mãe, o contentamento por entre os espasmos de dor, a voz de extrema doçura chamando o filho por vir, o largo sorriso quando concebeu, a criança acolhida em seus braços, buscando com sofreguidão seus seios, enfim a cândida magia da natalidade.
Momento belíssimo, único e inesquecível.

(José Bitu Moreno)

domingo, 18 de janeiro de 2015

As histórias de Tonho e Domí


Antônia - de apelido Toinha - e sua familia moravam bem no alto da ladeira, logo que essa emergia do abraço apertado das árvores e da solidão da cruz. 
Era uma casa de taipa, costurada por estacas, o chão de barro, um pote e um quarto. De lá se avistava a casa da Vó Branca.
Ela era negra e seu esposo também, um tipo calado, reticente... Tinham ate então dois filhos. Eu passava às vezes por lá para brincar com o filho mais velho, de nome esquisito. 
Toinha era franzina, muito ativa, que fumava cachimbo enquanto mexia no fogão de lenha; trabalhava também na casa das Vó Branca e lhe fazia companhia..
Apareceram um dia por aqueles rincões e, da mesma forma como apareceram, um dia se foram. Que destino os levou? Por onde anda o filho de nome esquisito? Leva uma vida igual à dos pais? 
Como comparar essas vidas, de um que virou doutor e de outro que talvez ainda corra descalço por entre as moitas de jurema e mufumbo? 
Não se pode comparar de tão distintas. Mas ser feliz é um outro assunto, Ele, se ainda vivo, talvez tenha encontrado um equilíbrio na vida, que ainda nao encontrei. O conhecimento que se acumula na escola e nos livros, pode se tornar apenas lixo, se vier somente para aumentar a distância  entre o que se pensa e o que se faz.
Mas mesmo assim é tão desigual essa rinha, em que a um se dão as armas todas para se ser livre e ao outro apenas a enxada e o horizonte de chão batido e informe.
Bem, esses foram meus amigos de infância.
Nos “Gibões” , um quilombola, não muito longe dali,  moravam Domi e Tonho. A comunidade dos "Gibões" era uma fileira de casas simples, de tijolo e barro vermelhos, margeando por trás as terras da Vó Branca. Os moradores, que trabalhavam as terras por ameia, já estavam lá há muito mais tempo do que eu, do que minha mãe, de modo que, eu entrava e saía daquelas casas, sem a menor cerimônia. Eram negros e mulatos em sua maioria. Mamãe a todos conhecia, era madrinha e amiga.
Com o tempo os filhos dos Gibões foram embora para São Paulo, São Bernardo dos Campos, e o sonho de uma vida melhor. 
Um ou outro morreu, algum envolvido pela criminalidade, mas a maioria encontrou emprego e mudou em definitivo sua pespectiva de vida. Domi e Tonho também migraram para a metrópole - o primeiro morreu assassinado e o segundo se aprumou na vida: trabalhou, casou e teve filhos.
Nas sombras da periferia, sob o manto acinzentado da garoa, Domi foi encontrado morto, enquanto Tonho ajudava a montar os carros que despejavam medo e poluição na cidade fria  - a que não para, aquela que nunca dorme.
 (José Bitu-Moreno)

Histórias do Seu Antônio


Seu Antônio tinha uma filha, Jacinta, e uma esposa que se tornou louca. Moravam numa casa nos arredores da cidade, margeando estreita ruela de terra, a uma distância da qual se podia vê-la dos fundos das lojas da rua principal, que lhe davam as costas. 
Era uma casa de taipa, de chão de barro, com um jardim bem cuidado, de exuberantes rosas vermelhas. 
Jacinta tinha cabelos pretos, longos e lisos, até a cintura, os olhos e as feições de india, como a mãe, e dava sempre a impressão de pertencer a uma outra epoca, que houvera então nascido por mero descuido, escapara, era somente uma personagem de uma historia, e que portanto nao estava valendo dessa vez a vida. 
Ela e a  mãe, viviam juntas, calavam-se juntas, vieram juntas para viver entre as flores e as paredes toscas, e na limitação de uma vida que era somente silêncio  e doença . 
Sua mãe  escavava a parede de barro para comer. Sua mãe  rasgava a roupa do corpo e vivia com a nudez mal escondida por trapos, um fantasma, branca e magra. 
Jacinta era sua mãe. Seu Antonio era o silêncio . Essas três criaturas não eram desse mundo.
 (José Bitu-Moreno)

Tio Ivan


Tio Ivan morreu num dia qualquer, o que importam datas?, morreu já cansado que estava de tanto tatear na negritude de uma vida trágica. Uma pistola, um tiro à queima-roupa, na cabeça, e enfim o silêncio total, o breu do esquecimento, o nada e o descanso que já há tanto merecia.

(Jose Bitu-Moreno)

sábado, 17 de janeiro de 2015

Violência institucionalizada


Não é tanto a perseguição- é mais a falta de perspectivas, a escuridão;
A hostilidade até fere, mas não tanto quanto a destruição gradual da auto-confiança;
O que a perda financeira poderia causar em nada equivale à indiferença institucionalizada;
Não é a prisão - mas a falta de janelas que possam ser abertas;
Não é a desmotivação - mas a falta de estímulos, de esperança semeada;
Sem educação, sem oportunidades, morrem as  potencialidades, embota-se o crescimento;
Fica-se assim  prisioneiro - do desencanto, do ócio e do tédio;
Não por que  se quer, por que se gosta, mas essa inércia é lodosa, é grudenta - paralisa, imobiliza;
Porque a ausência de governo é perversa -como o abandono, a desistência - bem mais do que a truculenta presença;
Quando não a ausência - o despreparo e a incompetência  de quem governa- essa é virulenta, dissemina e cega
Vive-se assim -nos locais de trabalho, nas instituições públicas, na vida vivida, em todos os seus ciclos...
Vive-se assim no Brasil
(José Bitu Moreno)

Llosa



Eles davam mais importância à morte que à vida. Tinham vivido no mais completo desamparo e tudo o que queriam era um bom enterro.(Llosa)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O tempo fugaz


A água da fonte,no jardim, esnoba o tempo fugaz
- estamos com pressa
A sombra úmida onde passeia um lagarto nos desconhece
- para onde vamos?

(José Bitu Moreno)

Vovó Biluca

Vovó Biluca - Por Dr. José Bitu Moreno.

Da esquerda para direita: Ilka Bitu, Maria Bitu, Julio Bitu, Dr. Luis Bitu, Assis Bitu e a matriarca Dona Biluca na comemoração dos seus 92 anos.
Cronica do Dr. Jose Bitu Moreno.

Numa bela manhã de primavera, sento-me para sonhar. Abril se aproxima rápido, trazendo na sacola, mais um aniversário. Ah, esse tempo poderia ser mais lento!! Como na infância, em que as horas se espreguiçam na divertida vida, e assim demoram a passar. Talvez também seja assim na velhice, tal qual a idosa senhora que mora sozinha no andar de cima, que impossibilitada de vencer as escadas, escolheu a cozinha para passar os dias, e sua janela como o relógio da vida.

Mas nessa manhã, quero escolher as doces lembranças como um travesseiro, onde vou me afundar e sonhar de novo, como se a vida que já foi, pudesse novamente vir a ser. A vida que foi boa, posso contar pelas manhãs. As manhãs da infância com Vovó Biluca na sua casa branca. Após as noites de chuva, as manhãs claras e límpidas de Várzea-Alegre, com suas ruas de pedras, que o sol ajudava a polir. As manhãs de domingo em Fortaleza, onde a praia do Futuro nos preenchia de sol e mar, alimentando a alma de energia e beleza. A manhã em que cheguei em Marília, a cidade que do alto do espigão ainda se enrolava na névoa, espreguiçando-se...Bela Marília, linda menina, formosa senhora. Por suas ruas silenciosas, puxando as cortinas das tantas manhãs, eu e Natha nos dirigíamos para a FAMEMA, ouvindo no rádio os lamentos apaixonados das músicas de raízes. O Hospital de Clínicas aparecia muitas vezes como se assentado em nuvens, da névoa que subia dos vales, embranquecendo a cidade em clima de sonho.

Veneza me surgiu numa manhã clara, após uma cansativa noite de trem, como a súbita revelação de um paraíso terreno, como uma bela jovem saída de um quadro renascentista, mostrando sua virginal nudez, e eu parasse estupefado frente a tanta beleza. Na ilha de Capri sentado no alto de uma escarpa, mirando o azul profundo do mar, sentindo as fragâncias de limões nos pomares, senti pela primeira vez que minha mulher era aquela ilha, era o meu sonho do distante, do belo, do indefinido... A poesia de meus melhores dias. E para que as manhãs se fizessem, foram necessários os galos e os pássaros. No tempo da casa branca, no Inharé, os galos se esgoelavam festejando o dia e espalhando orvalho. Mas aqui, na Alemanha, têm sido os pássaros...Fui com Anna Carolina para a escola e no caminho lhe lembrei de silenciar os outros barulhos do dia, para que ouvisse a algazarra dos pássaros. Quando levei André lhe falei baixinho de um passarinho que entre os galhos de uma árvore se escondia, chamando-o pelo nome. Meus dois filhos são dois pequenos passarinhos que enfeitam e fazem todas as manhãs dos meu dias.

E se apenas uma foto houvesse que recordasse ou resumisse todas as manhãs que tive, as minhas manhãs, uma existe em que estamos reunidos no clube recreativo de Várzea-Alegre, minha família, papai de chapéu de feltro, mamãe em vestido estampado de seda, as irmãs de saias brancas plinçadas e blusas azul-marinho, e os filhos homens em roupa domingueira, mas de calças curtas, botas e meias até metade das canelas . Estamos felizes e paira certa ingenuidade no ar, razões porque se tornou muito antiga a foto, utópica, etérea, totalmente deslocada pelo tempo. Mirávamos um futuro que nos desmentiria. Sonhávamos uma vida que jamais existiria. Fomos naquele instante, o que jamais tornaríamos a ser. Aquela manhã, jamais se repetiria. Mas o instantâneo do retrato, ficou para sempre.
Grande abraço,

José Bitu