Em meio ao fogo.
-Vou confessar o que eu penso, vou desenvolver o meu raciocínio, vou expor o meu voto...posso?
Sei bem o que me espera por detrás dessa expectativa tensa, desconfiada e reativa.
-Será que falo?
Melhor não, talvez. Melhor me levantar e ir tomar um copo d'água, ou conversar sobre amenidades. Mas sobre o quê mesmo?
Alguns assuntos são perigosos, alguns gostos, preferências...impera uma espécie de patrulhamento ao que se pensa, o politicamente correto - maneira de logo se ser rotulado e classificado.
-Vou-me embora pra Pasárgada.
Luto por ter um pensamento mais democrático. Tenho trazido desde sempre uma herança cultural de intolerância ao que não creio, ao pensamento contrário; da exaltação estúpida quando me faltam argumentos; do grito intimidante quando me sinto acuado e inseguro. Tenho tido ainda algumas convicções estúpidas que já não cabem mais nesse mundo tão esquivo e movediço, e sinto muita vergonha disto.
-É cultural?
Acho que sim, mas não importa. Já perdi muito sendo assim. Preciso mudar para aprender, preciso me abrir ao mundo, ao novo, sob pena de me cerrar num mundo esquizofrênico, a dialogar com os fantasmas do passado, das mesmas pretensas ideologias, dos mesmos tantos jargões.
A conversa segue em frente enquanto me ausento em divagações. Excluído do meu próprio meio, forasteiro no meu próprio habitat, sinto-me esquisito e inadequado, como já me senti em tantos lugares. Olho ao redor e consigo quase que pegar, de tão previsíveis, as frases recitadas; antecipar as repetidas reações; adivinhar os mesmos sustos...
-Meu Deus como deixamos nos envelhecer assim ??!!!! Alguém por acaso mudou, se renovou, só um tantinho? Velhos, macilentos, inchados de tantas certezas. E o que dizer dos novos já velhos jovens
Vi hoje uma criatura tão caricata que quase não segurei o riso. Sabe daquelas que se esvaziam de todas as prudências, raciocínios, virtudes, lucidez...para se entregar a uma paixão retórica ?
-Mas como pode? São duas? É aquela mesma que antes conheci, meiga, compreensiva e tolerante?
A conversa vai e volta, estou incomodado, sinto-me prisioneiro de uma intolerância arredia e fraterna. Foi assim o dia todo.
-Por que não falo?
Porque corro o risco de cair num diálogo inglório, daí a preguiça. Mas de frente às paredes embrutecidas e gastas, decido-me:
-Preciso me sentir livre, preciso sair deste lugar-comum e me abrir ao mundo que me rodeia. Vou falar, então:
-Não vou votar nesta candidata, odeio o PT, escolhi outro e...me considero uma pessoa absolutamente normal!
Era somente isto.