sexta-feira, 20 de junho de 2014
a serra Negra 1
" Do terraço de casa descortinava a serra Negra. Minha mãe cantarolava a história do canário da serra, que um menino prendeu na gaiola e ele nunca mais cantou, até morrer de tristeza. A rede balançava ao compasso da música. Eu relutava contra o sono, viajava com um misto de medo e encanto pelas trilhas e segredos daquela serra tão próxima e ao mesmo tempo tão distante - a serra Negra, a serra dos meus primeiros sonhos...
Sentada na barra, em majestade, com a lombada se dobrando de lado, parecia touro manso, silencioso, impenetrável, ruminando segredos e eternidade.
Representava o intangível, o mistério...e intrigava-me saber o que existiria para depois dela, ou se era tão grandiosa que não me permitiria a possibilidade de outras, numa sucessão sem fim.
Penso hoje que daquela atração sucedeu o lento formular de perguntas, o nascimento de esquisita melancolia ou ânsia que seja, que me fez, adulto, trocar cidades, atravessar mares e conhecer outras terras."
José Bitu Moreno
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