domingo, 22 de junho de 2014

na temporada das chuvas



 "Com chuva por dias seguidos, renasciam como por milagre os riachos. De repente lá estavam: riacho do Machado, riacho do Meio, Mocotó, riacho do Feijão, e o da Fortuna. Eles desapareciam nos verões quentes, de sol posto por meses seguidos, mas ressurgiam logo nas primeiras chuvaradas; de repente lá estavam - redivivos, alegres, valentes, caudalosos. Interessante como guardavam na memória o rumo e o prumo, mesmo após longo tempo de espera: as águas iam em frente, confiantes, farejando os leitos estreitos e os preenchendo; de forma que logo estavam de novo desenhados, revisitando margens, inundando  várzeas, levando promessas de boas colheitas de arroz e de fartura.
Com os riachos cheios, também logo se enchiam os açudes, tantos e tão bonitos; pequenos é certo, comparados aos do vasto mundo, mas encantadores até mesmo nos nomes: Vacaria, Mameluco, Olho D’Água... Os nomes em si, já não traziam a magia e o encanto? Como as árvores, arbustos, matas, que de cinzas e desfolhadas, emaranhados de galhos secos e espinhos, esqueletos da natureza que se imaginava morta, de pronto se tornavam bonitas, verdes, frescas, viçosas... As flores? Bastava que se olhasse os campos, repletos de marias-brancas, de campânulas roxas, azuis, invadindo cercas, eitos, paus, estradas e brejos,  numa boniteza que não tinha tamanho.
E assim avançavam as águas para depois das arredias ruas, retintando de alegria as pessoas, pelos riachos velozes, enfeitando de flores os campos, transbordando as lagoas - lagoa de Dentro, lagoa de Iputi, lagoa de São Raimundo."

José Bitu Moreno

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