sábado, 21 de junho de 2014
impressões de São Paulo
"Amanheceu ainda garoando. O barulho onipresente dos carros não incomoda mais - soa como a música de fundo de São Paulo. Estranho o tempo, um pouco de frio para início de dezembro.
Pela janela do hotel, os edifícios que parecem vazios, se perfilam e, na tênue neblina, uns parecem submergir aos outros, nas pontas dos pés, procurando ar.
A neblina poluída e pegajosa, semelha um cachecol sufocando a cidade.
Daqui, de onde estou, com a família, conservo a identidade e o meu mundo. Sorte que a metrópole não me vem de um só golpe - se mostra aos poucos, compartimentalizada, dissimulada, disfarçada; enquanto esmaga como rolo compressor o lixo, os rastros de sangue, as diferenças...
Os humanos são figurantes e o enorme dossel de concreto isola o riso solto, o desesperado pranto...em cubículos.
Mas reluta e teima em acontecer, o desencontro das vidas, o colorido individual, o coletivo privado, o dinheiro, o luxo descomedido, o orgasmo despersonalizado, a auto-suficiência...
Está bom assim?
Não para os ouvidos destreinados, o faro despreparado, a vista afeita ao horizonte, ao riso compartilhado.
É estranho, sou estranho, alguém me ouviria se desta varanda gritasse, ou se desta altura pulasse?
A neblina a tudo cala e ensurdesse. O anonimato salva a cidade."
José Bitu Moreno
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