quinta-feira, 26 de junho de 2014

vivenciando o primeiro trabalho



             Pelas calçadas desviava-me deles, "os carreteiros" como eram indevidamente chamados, porque descarregavam e carregavam as carretas. Eles passavam em passo apressado, pois que forçads pelo saco de sessenta quilos que traziam na cabeça. Trajavam bermudas feitas da própria sacaria dos cerais, andavam descalços, com os torsos nus, suados, cheirando a pinga, em eterno vaivém, do escuro dos armazéns aos caminhões estacionados em fila. Contratados por serviço ou com trabalho fixo, montavam e desmontavam pilhas de sacos de cereais ou de caixas de mantimentos.
             Esses trabalhadores buscavam a necessária energia às custas de cachaça, enquanto alimentavam-se mal e inadequadamente, fazendo-os presas fáceis de doenças, que mais implacáveis que o tempo, diminuíam as expectativas de vida. De dentro do armazém, atendendo no balcão, por vezes no caixa, outras vezes embalando cereais, eu assistia a tudo assustado e me sentia profundamente deslocado. Aos sábados, o movimento de compras era maior, trabalhava-se desde sete da manhã até dezesseis ou dezessete horas, com intervalo exíguo para o almoço, normalmente um lanche rápido no boteco sujo da esquina.

José Bitu Moreno

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