terça-feira, 1 de julho de 2014
a fuga
O carro já chegou?
A manhã nasceu chuvosa, para o nosso azar. Passamos a noite arrumando a nossa mudança em caixas, que as trouxemos com discrição, uma após outra, ao longo dos dias - do contrário descobririam o plano de mudança, ou de fuga guardadas as circunstâncias. O nosso advogado assim nos aconselhara, nada havia a temer, deveríamos pois agora abandonar de vez aquela casa, cheia de fungos, que alugáramos enganados e a ela ficáramos preso por um contrato mal intencionado.
A noite foi passada em claro, pois nos desfizéramos de muito nos dias anteriores e ficara apenas o mínimo necessário para se viver - nada de móveis, eletrodomésticos ou equipamentos eletrônicos, somente algumas caixas com brinquedos e pertences infantis; além de alguns produtos de extrema necessidade e as malas, que as arrumamos no mais completo silêncio; pois o casal de velhos do apartamento embaixo, os caseiros, nâo podiam nos ouvir.
Assim se foi a noite, eu me ocupei de início da nossa filha, Anna Carolina, de três anos de idade. Deveríamos brincar até que dormisse, mas crianças sentem no ar a energia dessas situações e só à custo e já tarde adormeceu; enquanto a esposa, Ieda, se ocupava das arrumações e dos cuidados para que o apartamento ficasse limpo e em ordem, dos quais logo também me ocupei, até que a manhã nos surpreendeu ainda firmes. De resto foi a espera. Interminável espera.
Na realidade esperávamos que nos deixassem ir em paz e que apenas nos observassem à distância, mesmo porque o nossa batalha era agora judicial.
Súbito o toque da companhia: chegou o Peter, nosso amigo alemão e de residência médica. Chegada a hora: iniciamos rapidamente a descida dos caixotes e das malas, a escada de madeira rangendo sob o peso e a velocidade dos nossos passos, três lances a vencer - depois a liberdade!
Mas antes da liberdade...a chuva se tornou mais forte e houve a chegada súbita do casal de proprietários - gritando, como loucos, a nos ameaçar, que a tal ponto não imaginávamos fossem capazes. Absurdo ato, extremada violência.
Peter se ocupou da nossa Anna, protegendo-a, enquanto continuamos, sem interromper em nenhum instante a nossa lida, sem nos afastamos da nossa meta - objetivo maior do casal, soltando ódio, desfiando impropérios, com um alemão que já não entendíamos, enquanto prosseguíamos firmemente no ir e vir rápido pelas escadas, o carro de passeio já se atulhando de coisas, a chuva caindo impiedosa, a proprietária anotando dados, examinando as caixas, sugerindo a possibilidade de que estivéssemos roubando.
Prontos.
Hora de partirmos - dentro do carro, portas fechadas, vidros erguidos, a nossa filha a um canto assustada, batidas de punho contra a lataria, partida do carro...carro que parte...que partiu...que nos levou para bem longe daquele inferno - o alívio, as lágrimas nos olhos, o espanto pela violência de como tudo se passou, mas a satisfação do combate vencido...o carro seguindo estrada afora - liberdade adentro, rumo a uma outra casa, a um outro começo, cruzando o centro antigo de Freiburg, do outro lado do mundo, para uma outra forma de vida !!!
José Bitu Moreno
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