quinta-feira, 3 de julho de 2014

prisão no paraíso social e econômico



Hoje é quarta-feira e o dia de Natal foi neste ano de 2006 numa segunda-feira. Tenho ficado em casa todos esses dias. Hoje cedo, assim que acordei, fui para o quarto de André e deitei-me com ele. Dormia ainda. Queria muito congelar o instante, reter em minha lembrança aquele corpo quentinho, que crescia a cada dia; aquela vida palpitante, cheia de tanta fantasia.
Tem agora seis anos e se adapta aos poucos a um apartamento e às regras sociais de uma cidade da Europa Central. O apartamento é suficiente para nós, com três quartos, uma sala, dois banheiros e cozinha; mas parece de casca de ovo, pois que dentro nos sentimos vigiados, e cada ato parece limitado pelas amarras das tantas leis sociais.
As crianças não podem correr livremente, gritar, pular, nem chorar alto. Mas que são crianças sem essas formas de expressão? É certo, morávamos em uma casa no Brasil, mas com crianças torna-se necessário que se tolerem alguns decibéis a mais.
A meu ver, essa rigidez - talvez necessária para a ordem - se avizinha bastante a uma afronta à liberdade do homem. A própria sociedade organizada já impõe os seus limites, porém quanto mais se organiza, mais sufocante fica. 
O pensamento tem de ser  bem pesado e avaliado antes da formulação, para que não resulte em palavras ou atos politicamente incorretos. 
O trânsito truncado mas ordenado, o fluxo de pessoas nas calçadas, nas escadas rolantes, nos bondes; o silêncio soturno, noturno, abafando a loucura; a intolerância com as crianças...
Enquanto nas cabeças, nos corações, grassa a solidão.
Uma receita? Um pouco de caos nessa ordem, uma maior ênfase no homem e não nas regras, no controle. A organização dessa forma, congelada, trancafia o homem dentro de sua própria solidão.


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