sábado, 5 de julho de 2014
despedida da infância
Sentei no meio-fio da rua de pedras e chorei.
Era noite de São João, as calçadas estavam cheias de transeuntes; as ruas, fechadas ao trânsito de carros e de animais, era margeada por pequenas barracas coloridas que se espremiam umas.de encontro às outras.,Era gente por todo lado, adultos, crianças, vozes, risos, música de alto-falantes - cantigas de ritmo alegre mas de conteúdo triste.
Nos intervalos entre as músicas, o radialista transmitia recados apaixonados, mensagens de amor, alinhavando conquistas; enquanto as moças solteiras passeavam de braços dados em volta da praça e os rapazes, sentados nos bancos, as observavam; os casais já compostos, ficavam em volta do parque de diversões, onde a roda-gigante de coloridas lâmpadas, alumiava a noite escura, desafiando as alturas.
Alguém ficou de cócoras ao meu lado e perguntou,preocupado, por que chorava.
Como era tristeza sem corpo, choro de angústia, não havia como explicar e sequer erguí a cabeça para responder, escondida entre os braços cruzados sobre as pernas encolhidas.
Não sei quanto tempo durou, mas para os ditames da alma ficou guardado como algo importante, como um clarão dentre aqueles dias iguais de infância, divididos entre escola e brincadeiras. A razão do pranto, objetivamente, não encontrava, mas uma forte sensação havia de que minha infância findara ou que estava findando, caindo os últimos grãos por entre os dedos e eu, impotente, não mais a conseguia retê-la; por outro lado, era como se o rio caudaloso das tantas fantasias infantis mergulhasse sem volta, engolido pelo buraco negro e definitivo que espreita e margeia a vida. As cores se dissolvendo na noite escura.
Quantos anos eu tinha - nove, dez? - não sei...Mas jamais uma revelação sobre a passagem do tempo ou as perdas ao longo da vida me anulou tanto, me causou impacto tão arrasador.
Ao final, ergueu -se dali um outro e ficou naquele meio-fio, naquela noite escura, a criança.
E assim continuei vida adentro, sempre envelhecendo antes do tempo, antecipando-me ao ritmo dos acontecimentos, vivendo no futuro apenas presumido, engolindo com pressa o presente, sem antes saboreá-lo com calma e prazeirosamente, até o último gole.
José Bitu Moreno
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