quarta-feira, 2 de julho de 2014
uma criança apenas
Quando André chegou na Alemanha era frio e havia muita neve. Na sua escolinha - o Kindergarten - também era frio. Lá ele se tornou uma criança problema – precisava brincar fora com as outras criancas e ele nao ia; precisava comer na mesa junto com os outros e ele nao comia; precisava se comportar igual às outras cr
Quando André chegou na Alemanha era frio e havia muita neve. Na sua escolinha - o Kindergarten - também era frio.
Lá ele se tornou uma criança problema: precisava brincar fora com as outras crianças e ele não brincava; precisava comer na mesa junto com os outros e ele não comia; precisava se comportar igual às outras crianças, falar baixo, respeitar as regras e ter sobretudo muito respeito às professoras, que não eram tias, mas gigantescas Fraus...e ele...
- Resultado de toda essa pressão?
- André tinha cinco anos incompletos, mas juntamente com outra criança imigrante, polonesa - seu melhor amigo - lhes provocou ira, muita ira: ele as imitava, lhes mostrava a língua; nada comia do que lhe serviam, e teimava em não sair para o frio e a neve. Um dia se recusou a fazer xixi frente a uma rigorosa Frau e terminou fazendo nas calças.
- Ele é apenas uma criança numa terra e situação completamente estranhas. Nao deve ser fácil para ele: não vai brincar com os outros porque faz frio lá fora, faz muito frio e isso não existia no Brasil. Não come aqui, porque é diverso o tempero das comidas, muito diverso. Ele lhe imita porque é a sua forma atual de se expressar, de contestar, ademais ele desconhece a língua. Como educadora, devia entendê-lo e ter mais paciência. Talvez nesse instante devesse receber uma atençao mais individualizada – expliquei para uma das Fraus, profundamente ressentida e atingida pelos desrespeito e indiferença do meu filho.
E assim foram passando os dias e as semanas. Uma ocasião de uma festa na escolinha, na primavera, ele me levou ao jardim - aquele muito frio, da neve - e me mostrou uma pequena árvore de densa folhagem, cujos galhos se arrastavam no chão. A árvore ficava junto a uma cerca viva, fazendo divisa com uma casa de idosos. Esse limite, as crianças nao podiam ultrapassá-lo, mas André o ultrapassava e era castigado por isso, na cadeira do castigo.
- Papai, venha ver, esse é o meu esconderijo, aqui onde venho me esconder para chorar....
(Ah, aquele formidável guerreiro, cujas lágrimas escondia, mas que não cedia. Aquela pequena criança, encolhida, no frio, chorando, por falta de compreensao...numa pré-escola)
Veio a copa do mundo de futebol, era 2006 e foi na Alemanha. André em revide saía a gritar nos corredores:
-Alemanha: Buh - quando ela perdeu.
- Mas pai, quando o Brasil perdeu ele ficaram me gozando - me explicou quando eu lhe repreendi.
Eu acompanhava aquela luta desigual e aplaudia - lógico que às vezes em silêncio - cada atitude dele, que defendia-se como podia.
(Ah meu caro André, quantas vezes naqueles dias invejei a sua força e auto-confiança. Quanto orgulho sentia daquele pequeno ser se impondo e já pontuando num mundo tao desigual!)
- Nao, impossível, é meu filho e o conheço, é carinhoso e amável; nao deve ter lhe xingado em português, estava apenas com raiva e tentou lhe exprimir isso - eu retruquei à incompreensão da professora.
Passaram-se dez meses. André aprendeu e falava alemão com desenvoltura. No Kindergarten se destacou por sua amabilidade, disponibilidade, alegria e carinho pelas crianças menores. As Fraus lhe queriam muito e lhe respeitavam muito também.ianças, falar baixo, respeitar as regras e ter sobretudo muito respeito pelas professoras, que nao eram tias, mas gigantescas Fraus...e ele...
- Resultado de toda essa pressão?
- André lhes provocou ira, muita ira: ele as imitava, lhes mostrava a lingua; nada comia do que lhe serviam, e teimava em não sair para o frio e a neve. Um dia se recusou a fazer xixi frente a uma rigorosa Frau e terminou fazendo nas calças.
- Ele é apenas uma criança numa terra e situação completamente estranhas. Nao deve ser fácil para ele: não vai brincar com os outros porque faz frio lá fora, faz muito frio e isso não existia no Brasil. Não come aqui, porque é diverso o tempero das comidas, muito diverso. Ele lhe imita porque é a sua forma atual de se expressar, de contestar, ademais ele desconhece a língua. Como educadora, devia entendê-lo e ter mais paciência. Talvez nesse instante devesse receber uma atençao mais individualizada – expliquei para uma das Fraus, profundamente ressentida e atingida pelos desrespeito e indiferença do meu filho.
E assim foram passando os dias e as semanas. Uma ocasião de uma festa na escolinha, na primavera, ele me levou ao jardim - aquele muito frio, da neve - e me mostrou uma pequena árvore de densa folhagem, cujos galhos se arrastavam no chão. A árvore ficava junto a uma cerca viva, fazendo divisa com uma casa de idosos. Esse limite, as crianças nao podiam ultrapassá-lo, mas André o ultrapassava e era castigado por isso, na cadeira do castigo.
- Papai, venha ver, esse é o meu esconderijo, aqui onde venho me esconder para chorar....
(Ah, aquele formidável guerreiro, cujas lágrimas escondia, mas que não cedia. Aquela pequena criança, encolhida, no frio, chorando, por falta de compreensao...numa pré-escola)
Veio a copa do mundo de futebol, era 2006 e foi na Alemanha. André em revide saía a gritar nos corredores:
-Alemanha: Buh - quando ela perdeu.
- Mas pai, quando o Brasil perdeu ele ficaram me gozando - me explicou quando eu lhe repreendi.
Eu acompanhava aquela luta desigual e aplaudia - lógico que às vezes em silêncio - cada atitude dele, que defendia-se como podia.
(Ah meu caro André, quantas vezes naqueles dias invejei a sua força e auto-confiança. Quanto orgulho sentia daquele pequeno ser se impondo e já pontuando num mundo tao desigual!)
- Nao, impossível, é meu filho e o conheço, é carinhoso e amável; nao deve ter lhe xingado em português, estava apenas com raiva e tentou lhe exprimir isso - eu retruquei à incompreensão da professora.
Passaram-se dez meses e André aprendeu o alemão e falava com desenvoltura. No Kindergarten se destacava por sua amabilidade, disponibilidade, alegria e carinho pelas crianças menores. As Fraus lhe queriam muito e também lhe respeitavam muito.
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