sexta-feira, 4 de julho de 2014

banho da alma


A água morna bate no rosto e escorre carinhosa pela face; estendo a cabeça para trás e, com a ajuda das mãos, ela agora envolve os cabelos, infiltra-se na alma, em cada canto; depois desce pelo tórax, pelas costas, acariciando...
A toalha grande, felpuda, macia, me abraça aquecendo - aquele abraço gostoso e repousante.
Pela claraboia raios de sol desenham na parede bege, ouço o canto de pássaros, muitos; conta-se que agora fogem do campo, com pouca comida, e invadem as cidades, bem-vindo sejam: que alegrem esse bairro ainda calmo e enfeitem essas manhãs por sorte ainda pouco invadidas por carros e multidões.
Agora, o perfume que gosto, o protetor solar, minhas coisas dispostas, calça, cueca, camisa; preparo-me para o dia, preparo-me para o sol que nesses dias visita céus de poucas nuvens e nos cumprimenta sem mais cerimônias.
Estou em casa, minha casa; já deixei as crianças na escola, minhas crianças, a esposa há pouco saiu...
Nesses momentos, revendo, penso ser um milagre como criei essa possibilidade, como fui capaz de construir, de ter filhos, uma casa, a toalha que gosto, o sabonete cheiroso à mão, esse quadrado de sol, esse instante de música..
Como aconteceu assim, ao cabo dos anos, nesse meu atropelo de ser e de me tornar?
Agora calço as meias, os sapatos, aqueles que gosto, e assim vou mergulhar no dia, fresco do banho, perfumado e muito agradecido pelo coro de pássaros que me acompanha.


José Bitu Moreno

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