sexta-feira, 18 de julho de 2014
pronto socorro 5
Pelos corredores do hospital de ensino...becos, labirintos, paredes sujas, descascadas, janelas enferrujadas, emperradas;
Passando a visita cruzo, quase esbarro, com estudantes, residentes, auxiliares de enfermagem, funcionários da limpeza...a fábrica.
Nas enfermarias, os pacientes - em quartos inapropriados e mal ventilados; em camas desconfortáveis, com colchões duros e quentes, revestidos de plástico;
Das janelas pendem lençóis brancos, encardidos, feito cortinas, ondulando como bandeiras...bandeiras do destino posto.
No Pronto Socorro...a fileira interminável de macas preenchendo o corredor...Josés, Marias, Conceição, Edivaldo, Moisés...corpos enfileirados, com os nomes pendendo de papéis afixados nas paredes, nas macas...apenas nomes...impessoais, anônimos, marginais...vidas sofridas, silenciosas...vidas que fenecem;
O que fazer ?
O sofrimento, a morte, se automatiza, se banaliza...o que fazer?
Um paredão veda as saídas, um paredão que se foi construindo...de ignorância, insensibilidade, incompetência, irresponsabilidade...um paredão construído sob os nossos olhos plácidos, egoístas e coniventes;
Um paredão que nos prende e nos narcotiza e nos deixa presos.
Não foi com isso que sonhei, que sonhamos; não foi para isso que preparei a vida, que preparamos; não é nesse lodo que quero enterrar o futuro, o nosso; não é assim que se deve cuidar de vidas...mas por que continuamos?
Por que? Por que continuamos nessa prisão?
Presos no sistema que ajudamos a construir; presos na maquinaria que nos emplastifica; máquina sequiosa que vai ceifando ideais, esperanças, daqueles que chegam, dos que já se vão...
Para além dos muros uma estrada linear que não se vê o fim: instituição, municípios, regiões, estado, governo federal...Meu Deus, meu bom Deus, não tem fim...
Não tem fim mesmo??????????????????????????????????????
José Bitu Moreno
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