O cinema ficava na mesma rua onde morava, a uns 100 metros, um pouco antes da padaria, a meio-caminho do loja do papai, ou melhor a uma curta distância entre mim e o mundo. Não sei quantas vezes assisti aos filmes de Tarzan e do Velho Oeste, em preto-e-branco. Não lembro de outros filmes passando. Mas o que via, naquele cinema adaptado, era simplesmente maravilhoso.
Vó branca estava em casa, em pouco seria a última refeição, a do entardecer; algum tipo de sopa como de costume e pão, Vó me pediu que fosse à padaria, só que no caminho havia, entre mim e o mundo o acordo tácito, a encruzilhada, após cem metros existia...Tarzan voando pelos cipós entre as árvores, Jane branca e bela, as estripulias da sua macaquinha...Parei frente aos cartazes com cenas do filme. Parei e não resisti, com o dinheiro dos pães comprei o bilhete, sentei-me como um rei numa das filas, a sala quase vazia, depois me esqueci totalmente das horas, perdido numa daquela aventuras estonteantes do rei da selva. Até que as luzes acenderam, o filme terminou, le lá fora já era escuro.
Entrei pelas portas da frente, que como sempre só estavam encostadas, percorri o corredor escuro, até alcançar a sala enluminada e com vozes - o pai já havia chegado; apesar dos meus passos cuidadosos, querendo a custo puxar a escuridão sobre mim, como uma coberta, um dos irmãos me viu e de repente me vi frente a um tribunal. Onde estivera, onde estavam os pães, há tempo me procuravam, estavam todos preocupados...Com voz sumida, agora já com plena idéia da dimensão que tudo havia tomado, contei o sucedido. Em pouco tempo, o pai puxou o seu cinturão das calças e levei uma das surras inesquecíveis de minha vida.Segurava-me com um braço, enquanto me açoitava com o outro, permanecendo em um centro, enquanto eu rodava em círculo. Quanto mais apanhava, mais ficava em silêncio, sem chorar, o que aumentava a raiva do papai e em seguida a força com que batia. Eu não chorei.t
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