sábado, 19 de julho de 2014
na sala de espera do Pronto Socorro
Na sala de espera, um tumulto: a senhora idosa, aos prantos, se debruça sobre o companheiro que convulsiona no chão do Pronto Socorro.
A jovem ao lado grita pedindo ajuda; outros se levantam e se aproximam curiosos; com pouco chega a maca onde é colocado o corpo que ainda se agita em convulsões.
A senhora, apavorada, corre ao lado da maca, tentando limpar a calça úmida de urina e fezes do esposo.
Na entrada da sala de emergência, ela é contida, enquanto a maca segue e desaparece entre os aventais do médico e de um cordão de estudantes.
Depois de algum tempo vem o residente e lhe pergunta, a história do paciente: queixa atual, doenças do passado, remédios ...ela responde, enumera, recorda, completa:
-É grave, doutor? Vai ficar bom? Sabe, doutor, ele não é assim como agora aparenta - sempre foi limpo, asseado. Um pai de família responsável e cumpridor dos deveres.
Ela estava muito assustada, nunca o viu assim, tão velho e frágil; mas enquanto falava, buscando nas lembranças os fatos, era o outro que teimava em lhe aparecer - o jovem que conheceu e que tanto amou; o marido hígido e atencioso. A vontade era gritar:
-Gente, enfermeiros, doutor, meu marido não é somente esse corpo doente...é uma história, uma vida construída, vocês não o conheceram? Não enxergam os traços do jovem que foi?
O estudante assente com a cabeça, parece impaciente e dá uma resposta evasiva à pergunta. Na verdade não a ouve, preocupado que está em voltar com as informações.
A cansada senhora percebe, desiste, e passa a dialogar consigo mesma.
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