terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O pássaro do riacho Ursel


O Wasseramsel, o delicado pássaro, pousa sobre uma pedra nas margens do riachinho Ursel, que nasce em Feldberg e desce por Oberursel.
No seu percurso é atravessado por várias pequenas pontes de madeira até a prefeitura, onde mais parece enfeite de presépio.
Não muito longe, em Frankfurt o rio Meno, corre lento, moroso, tardo, como o berro de um boi ao final do dia...Mas apesar de largo e turvo, ninguém o escuta e segue assim o seu curso, sempre, como quem reza ou aos poucos morre. 
Bem mais ao sul, nas tardes azuis de Freiburg, o Dreisam desliza entre pedras polidas, seguindo um leito que não parece dele, pois que construído e maquiado, quase perfeito, o pobre rio sem peixes. 
Por assim falar, há ainda quem pesque no Rio do Peixe, o rio que tanto cruzei entre Marília e Paraguaçu Paulista? 
Talvez se encostando o ouvido no chão, se possa ainda ouvi-lo na longa distância. 
Como se nesse início de noite um veio se estendesse em rede entre todos os riachos e rios que conheci, formando uma rede de vida, uma rede de vasos, por meu sangue percorrido. 
Veias do rio Cocó de Fortaleza. Artérias do riacho do Machado. Partes de mim remontadas. Como um jogo. 
Não, eu não sabia antes, que o meu corpo transporia o oceano, juntando e assemelhando águas, montando essa geografia. 
Fui andando, cavucando, da Serra Negra em diante, e acontecimentos, desses que surgem estonteantes, improváveis, foram me definindo estradas, como relâmpagos na noite escura, e deles fui construindo vivências, tornando-me o que sou, essa mistura de águas, rios de cada cidade, somando-se, subtraindo-se, e permutando-se...
Como posso falar de  mim, sem falar dos meus rios? 
E você, que em rede ora se liga, o que pode saber de mim, se não consegue ouvir o pássaro das margens do riacho Ursel? 

(José Bitu Moreno)



Nenhum comentário:

Postar um comentário