quarta-feira, 29 de abril de 2015

pó na mesa de trabalho

Minhas palavras batiam de encontro aos olhos opacos do promotor e caíam como pássaros. Formou-se na córnea uma parede branca que refletia a luz, de nada adiantava, Ao final do discurso, me vi só, terrivelmente só, as pessoas eram miragens, e somente a cabeça do promotor falava, com os olhos mortos, parede branca, incandiando No pó de sua mesa de trabalho, as palavras jaziam mortas, e de nada adiantava, a lembrança do vôo, do canto, a projeção do céu cortando um naco da janela entreaberta, de nada adiantava mais Agora era eu, parado, e a minha alma se fechando, como se fizesse noite adiantada, como se a mente escura do magistrado tivesse o poder de anular a luz e chacoalhar as sombras Virei-me, dei de costas, ficou ele lá, brincando com as leis de plástico, jogando aviãozinhos de papel no espaço caduco, saturado, de sombras, preconceitos e de mofo. José Bitu Moreno

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