A criança, lápis de cor na mão, risca a folha branca, deixando imagens de vulcões cuspindo fogo, céu pontilhado de nuvens, árvores amontoadas a um canto e dinossauros de pescoço longo, que em alguns desenhos morrem, mas que no outro já de novo estão vivos.
Depois de pronto, colorido, pleno de fantasia e originalidade, eis que se esqueceu de um detalhe e sem mais delongas adiciona vários traços novos, tortos e imprecisos à obra de arte supostamente acabada.
Ante meu espanto e o impulso para impedir que estrague a obra, esbarro em sua absoluta segurança e senso de propriedade, como se o que houvera configurado no cérebro fosse encontrar a exata representação no papel. O processo, a intencionalidade sobrepondo-se ao produto estético final.
Tornei-me adulto e sei que ao longo do tempo, a escola, o meio cultural, a vida foram me tirando o potencial criativo e a fantasia.
Veio a conformidade com obras pretensamente prontas;
Veio o medo de ferir os espaços de folha branca, com traços a mais que desfigurassem uma paisagem ainda tímida, mas mesmo assim acabada, prematuramente acabada, morta.
Veio o medo de perder as pipas na profundidade do céu azul.
Veio a sensação de não pertencer ao meio em que vivo, como um eterno estrangeiro nas estradas da vida.
(José Bitu Moreno)
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