No estágio de ginecologia e obstetrícia, ao mesmo tempo que fiz muitos partos, convivi de perto com as muitas mazelas de nossa sociedade: aborto criminoso, gravidez indesejada, médicos e parteiras mal preparadas, falta de respeito humano e grosserias inaceitáveis.
Presenciei cenas em que o grito de dor da gestante em trabalho de parto, era respondido por imprecações pelas auxiliares de enfermagem, tais como:
"-Por que fez a criança? Na hora do bem bom, não pensou nas consequências! "
Era como se ali estivessem juntos o que havia de mais animalesco no homem e de mais deplorável na sociedade. Como se condições sociais, analfabetismo, fatores culturais... descaracterizassem o "humano" nas pessoas e, portanto, tudo fosse assim permitido.
Frente a tudo, senti de início um verdadeiro asco da sala de parto, simbolizado pela nauseante mistura de líquido amniótico, sangue e imprecações; até que certa manhã assisti a um parto diferente: a luta gloriosa da mãe, o contentamento por entre os espasmos de dor, a voz de extrema doçura chamando o filho por vir, o largo sorriso quando concebeu, a criança acolhida em seus braços, buscando com sofreguidão seus seios, enfim a cândida magia da natalidade.
Momento belíssimo, único e inesquecível.
(José Bitu Moreno)
(José Bitu Moreno)
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