quarta-feira, 29 de abril de 2015

casa vazia, ecos do passado

Noite distante e fria. Sou uma casa vazia, velho sobrado de escadarias, onde ecos de passos se acumularam ao longo dos anos. Pode-se ouví-los na noite que teima em não dormir. Aos poucos as lembranças vão se enchendo de passos, quando silenciam, e, a um canto, sentado à mesa, magras pernas cruzadas, revejo o saudoso amigo e professor, o mesmo que me acolheu enquanto vivi em Marília. O cigarro à mão, com a outra afasta os cabelos lisos que lhe caem sobre os olhos. Apruma-se um pouco na cadeira, toma um gole de cerveja, e se põe a recitar Fernando Pessoa. Ele nasceu em fazenda, no Triângulo Mineiro, onde o pai trabalhava como empregado, e a mãe cuidava dos filhos. Venceu a infância, em que perdeu os dentes, andou descalço, e as unhas dos pés ficaram para sempre deformadas por micoses. Venceu a pressão de organização social e política, que tornava o analfabetismo e a pobreza capitanias hereditárias, alienando crianças e forçando-as a seguir o mesmo caminho dos pais. Entrou na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, e se sustentou, pagando os próprios estudos. Deu plantões. Foi aluno brilhante. Terminados os estudos, especializou-se em cirurgia vascular, casou-se e, por várias circunstâncias, foi parar em Marília, interior de São Paulo. Lá, foi um dos primeiros e dos melhores professores da Faculdade de Medicina, onde participou na formação de médicos. A história poderia parar assim, culpa de relatos técnicos, em que as palavras se destacam mais que os personagens. Mas ele foi personagem por demais vivo, interessante, criativo, inteligente, provocador, para ser alfinetado numa folha como inseto morto. Foi um neurônio esticado ao máximo, com sensibilidade tão aguçada, que o barulho do mundo, o tato, o sopro, os mesmos que lhe trouxeram vida e movimento, aproximaram-no da doença e da morte. Não se sabe bem o que lhe aprontou a vida, as cicatrizes que deixou, mas o fato é que se afogou paulatinamente na poesia e na bebida. Enquanto o corpo ruía, o espírito resistia, triste decerto, mas entremeado com desconcertante humor. Permaneceu sempre generoso, sempre ágil, de assombrosa memória, reunindo jovens em torno de si, apontando caminhos, enquanto foi descendo o seu próprio. Às vezes paro e observo meu filho brincando, tento fotografá-lo nas lembranças, memorizá-lo na lucidez do momento, e torná-lo eterno... Tentei isso algumas vezes com ele? Deixei a pessoa, por trás do professor, se confundir com o frio e desumano cotidiano, perdendo-o muitas vezes, sem ouví-lo como devia? Decerto. Decerto. Mas sei que naqueles momentos, encurralado por minhas próprias limitações, fiz o melhor que pude e fui o que poderia ter sido. Ele me respeitou como eu fui. E eu o guardo assim, carinhosamente, na minha lembrança. José Bitu Moreno

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