domingo, 18 de janeiro de 2015

As histórias de Tonho e Domí


Antônia - de apelido Toinha - e sua familia moravam bem no alto da ladeira, logo que essa emergia do abraço apertado das árvores e da solidão da cruz. 
Era uma casa de taipa, costurada por estacas, o chão de barro, um pote e um quarto. De lá se avistava a casa da Vó Branca.
Ela era negra e seu esposo também, um tipo calado, reticente... Tinham ate então dois filhos. Eu passava às vezes por lá para brincar com o filho mais velho, de nome esquisito. 
Toinha era franzina, muito ativa, que fumava cachimbo enquanto mexia no fogão de lenha; trabalhava também na casa das Vó Branca e lhe fazia companhia..
Apareceram um dia por aqueles rincões e, da mesma forma como apareceram, um dia se foram. Que destino os levou? Por onde anda o filho de nome esquisito? Leva uma vida igual à dos pais? 
Como comparar essas vidas, de um que virou doutor e de outro que talvez ainda corra descalço por entre as moitas de jurema e mufumbo? 
Não se pode comparar de tão distintas. Mas ser feliz é um outro assunto, Ele, se ainda vivo, talvez tenha encontrado um equilíbrio na vida, que ainda nao encontrei. O conhecimento que se acumula na escola e nos livros, pode se tornar apenas lixo, se vier somente para aumentar a distância  entre o que se pensa e o que se faz.
Mas mesmo assim é tão desigual essa rinha, em que a um se dão as armas todas para se ser livre e ao outro apenas a enxada e o horizonte de chão batido e informe.
Bem, esses foram meus amigos de infância.
Nos “Gibões” , um quilombola, não muito longe dali,  moravam Domi e Tonho. A comunidade dos "Gibões" era uma fileira de casas simples, de tijolo e barro vermelhos, margeando por trás as terras da Vó Branca. Os moradores, que trabalhavam as terras por ameia, já estavam lá há muito mais tempo do que eu, do que minha mãe, de modo que, eu entrava e saía daquelas casas, sem a menor cerimônia. Eram negros e mulatos em sua maioria. Mamãe a todos conhecia, era madrinha e amiga.
Com o tempo os filhos dos Gibões foram embora para São Paulo, São Bernardo dos Campos, e o sonho de uma vida melhor. 
Um ou outro morreu, algum envolvido pela criminalidade, mas a maioria encontrou emprego e mudou em definitivo sua pespectiva de vida. Domi e Tonho também migraram para a metrópole - o primeiro morreu assassinado e o segundo se aprumou na vida: trabalhou, casou e teve filhos.
Nas sombras da periferia, sob o manto acinzentado da garoa, Domi foi encontrado morto, enquanto Tonho ajudava a montar os carros que despejavam medo e poluição na cidade fria  - a que não para, aquela que nunca dorme.
 (José Bitu-Moreno)

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