quarta-feira, 29 de abril de 2015

visita materna

Ela, um graveto soprado ao mundo, nos meados do século, no ano da grande seca de 1932, uma pena, chumaço, sussurro, um gemido calado. Mesmo o sol inclemente não calou o choro na teimosia de nascer e de viver? Morou muito tempo em Várzea Alegre, pequena e ingênua cidade, afastada do pesado hálito do mundo. Por isso sobreviveu? Não, vieram o casamento, filhos e, depois, acontecimentos e imprevistos da fortuna, que a afastaram da vida calma, e fizeram-na mudar-se para a capital, Fortaleza, puxando atrás de si uma corda de 8 meninos, marido, mãe, e vó Branca. Daí o bafo quente do mundo, egoísta e desumano, a pegou de cheio. Cambaleou. Caiu? Caminha em casa e não se nota. Reza, o tempo todo reza, reza para si, reza para todos, encolhidinha na cama, debulhando o rosário, recontando a vida, os anos, enfrentando os medos, repassando-os, repassando-se, para Deus e para os seus que já se foram. É uma criatura do amor, o seu sujeito é o ser humano, a sua referência, o seu motivo. Indistintamente e de imediato considera e tem respeito ao outro. Subjuga e é subjugada pelas regras da convivência, do relacionamento interpessoal. Sofre por bem amar, por enxergar o próximo. E nesse jeito extremamente humano só se lembra de gente, só referencia gente, só chora por causa de gente. Por assim ser, também tem inveja, tem medo, enfim: também é pequena, humanamente pequena, um pequeno graveto, que uma mão desavisada pode quebrar. Mas na delicadeza, na humanidade, concentra o mistério, todo colorido e toda fortaleza do mundo, por isso sobreviveu e sobrevive, incansável, como as gotas de vida que perpetuam a espécie. Assim, tem seu lugar onde estiver, criatura universal, que logo encanta,.mãe para quem já não mais tem ou está distante, avó para quem dela se aproxime, carinhosa, poliglota em seu silêncio de rugas, que já não mais precisa demonstrar nada, pois sua presença por si basta. Fala não ter ódio, sequer raiva. A vida seguiu o curso, cuidou dos filhos, cuidou com deslevo da mãe com Alzheimer e do marido, totalmente dependentes, nos últimos anos de vida. Cuida de netos, reza horas a fio cuidando dos outros... Hoje passeia visitando os filhos, veste-se elegante, tem os trocados da aposentadoria que a mão não acostumada teima em retê-los, anda firme e com aprumo, relembra a vida sem arrependimentos, rebusca planos para o futuro, e cuida da saúde como quem não para, a sofrer, com a realidade da morte. Descemos as escadas de madrugada para irmos para o aeroporto. Embaixo, enquanto a esperava, pensei assim: de tão leve, passará pelos sensores de lâmpadas do prédio sem que seja notada. E as luzes não se acenderam. E ninguém acordou. O avião a enguliu e saltou para bem longe. Não chorei, estava contente por tê-la e por ainda ter podido me reconfortar em sua luz. Dré, meu filho, de manhã cedo, quando acordou, chorou ao saber que tinha partido, mas quando calou, estava sereno – a avó passou a viver nele, e ele nem percebeu. (José Bitu Moreno)

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