No estágio da pediatria, o nordeste do Brasil estava saindo de um período de quase cinco anos de estiagem - faltavam água e alimentos, crianças morriam e os nordestinos abandonavam o campo, em êxodo para os centros urbanos.
A fome - essa epidemia crônica que sempre castigou o sertão, essa guerra silenciosa que já dizimou e dizima ainda tantas crianças ou as mata aos poucos, ao longo de uma vida adulta doentia e imbecil.
Eu, em confronto súbito e direto com aquela realidade: subnutrição extrema, marasmo, morte...fiquei de princípio preso a uma esquisita dormência, uma anestesia de sentimentos, rechaçados com violência a um canto; embutidos, engolidos a contragosto.
A fome, a morte, passaram a ser rotineiros, urgia a cuidado, sem espaço para a reflexão, a discussão, o sentimento...
E foi assim que como estudante fui sendo formado - aprendendo sozinho a moldar a solidão. As Faculdades de Medicina nos programam somente para salvar, para vencer a morte, para não errarmos..,O erro seria a condenação definitiva, a fraqueza um defeito lamentável e os sentimentos um instrumento a ser separado do corpo.
Dessa forma, somente na solidão, confrontamos nossa face humana, nosso medo, nossos erros...médicos da solidão dos hospitais e da alma, dos limites extremados, da infalibilidade.
E, de estágio em estágio, prossegui, profissão, vida em fora, tentando salvar a vida, mas sem entender a dor e a morte.
(José Bitu Moreno)
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