Como se chamava a Frau?
De onde veio, qual era sua história?
Teve uma infância feliz ou ainda viveu sob a penúria da guerra? Foi uma bela jovem, decerto. Independente, voluntariosa, destemida e cheia de si. Uma gravata com os seus músculos das coxas, derrubava de gozo qualquer homem. Ah, era intensa, tinha sede, tinha fogo! Quem não se lembra de suas escandalosas gozadas?
Agora está aqui, imóvel, guardada, etiquetada, sob narcose.
Agora está aqui: um outro corpo, velho, esquálido, que uma jovem há muito abandonou. Uma casa velha. Pelo menos assim é tratada:
-A paciente tem câncer de pulmão e a cirurgia é iniciada: anestesia rápida e eficaz, corpo posicionado, campos postos, o bisturi em precisa inclinação abre de uma só feita um talho no tórax, em passos sucessivos chega-se ao pulmão. Lá está o sujeito passivo, o fole vazio, a capa rosada, de preto moteada, imóvel, ao lado de coração que bate como um autômato, incomodado. Onde o câncer? Onde os tentáculos, as garras, a foice, o avanço? Onde a lama, o líquido viscoso, o asqueroso, invadindo? Nada, só o silêncio, mas aos poucos, apalpando-se, ei-lo: num lugar, como que deixado ao acaso, meio escamoteado, imitando pulmão, um bicho-camaleão, só mesmo apalpando-se para perceber, o cranco, endurecido entre dois dedos. À sua volta pequenos gânglios escurecidos, infartados, pareciam nada aos nossos olhos desarmados. Mas lá movimentava-se, subterrânea, a onda negra, a que ia consumindo, apagando, até o breu... E a velha dama assim invadida era um corpo, uma carcaça, sem nome, sem referência.
Quem dela se lembrava?
A jovem, a fogosa, a que viveu para si?
A quem mesmo isso tudo interessava? A cirurgia já há muito acabara e na ante-sala se anestesiava um outro corpo sem história e sem memória.
(José Bitu Moreno)
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