Durmi numa rede, na sala de visitas, da casa da Vó Branca. Acordei às cinco da manhã. Abri a velha porta de trancas e, do calçadão que circundava a casa, avistei o terreiro que dava para o antigo curral do touro Bisão - ambos já não mais existiam. Mas era como se lá ainda estivessem...o touro branco, lento, paciente, rebolando o lombo de um lado para o outro quando andava, afobado e desajeitado quando cobria uma vaca. Depois alonguei à vista para além do curral, tentando decifrar os contornos do pasto que se impacientava para acordar. Madrugada ainda, o céu estava encoberto por um manto cravejado de estrelas. Lá estavam elas: o Cruzeiro do Sul, a Estrela d’Alva e as Três Marias, as mesmas estrelas da minha infância, que eu as havia perdido.
“- Deus meu, eu nunca saí daqui”, pensei, enquanto do pé de algaroba do oitão da casa os pássaros desandaram a cantar.
Aos poucos a manhã tingia de luz a madrugada tarda e já dava para vislumbrar o velho pé de Coité que cobria o cacimbão desolado. Faltava o vai-e-vem de mulheres com latas d’água na cabeça transpondo o passadiço, a algazarra das crianças tomando banho de cuia... mas a manhã era a mesma.
“Adeus algarobas floridas, fique firme genipapo da beira da estrada”, despedia-me enquanto o carro subia a ladeira rumo a Fortaleza. Estava no carro o homem, ficava lá o menino, isso me reconfortava, pensei havê-lo perdido, talvez estivesse agora entre as galhas do pé de araçá.
“Chagas abertas, coração ferido,
Sangue derramado de Nosso Senhor Jesus Cristo
Ficai entre nós e o perigo”
Minha mãe, sua irmã Maria e o primo Francisco, rezavam em voz alta, enquanto cortávamos a cidade deixando para trás a lagoa e a igreja de São Raimundo. Já na autovia passaram a rezar terço, os três terços - Jesus Cristo morreu com 33 anos às três horas da tarde, e assim sua morte ainda era lembrada.
A reza era acompanhada pelas contas dos rosários e tornou-se autômata, repetitiva, como o canto das galinhas d'angola.
Paus d’Arco floridos alternavam-se na paisagem. Em São Caetâneo mantinha-se firme uma capelinha branca, construída em 1872. Para o Poço do Mato viera uma vez quando criança, numa festa religiosa, em que houvera uma missa e uma procissão que me parecera enorme.
De Iguatu em diante, o caminho não tinha volta. Destino: Fortaleza.
E a certeza de que a criança que fui ficara na casa da Vó Branca aguardando meu retorno.
(José Bitu Moreno)
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